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São Paulo, 22 de agosto
de 2000
RENATA LO PRETE
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Crime
na mídia
1. À diferença das reportagens do "Estado" e do "Globo",
a da Folha (pág. C 5) não registra as declarações do
advogado do jornalista Antônio Pimenta Neves, Antonio Claudio
Mariz de Oliveira. Ao concorrente local ele diz que o assassinato
de Sandra Gomide foi um crime passional. Segundo o "Globo",
Mariz de Oliveira afirma ter ouvido a confissão de seu cliente.
A omissão no texto da Folha é relevante porque, à luz
dessas declarações, faz cada vez menos sentido continuar tratando
Pimenta Neves como "principal suspeito". Como ontem, reconheço
que há argumento contrário a meu ponto de vista (é possível
defender que o tratamento só seja alterado depois da confissão
à polícia). Mas cabe perguntar, no mínimo, se com o mesmo acúmulo
de evidências uma pessoa comum ainda seria "suspeita" para o
jornal.
2. Ontem não havia foto na reportagem da Folha.
Hoje há imagem do pai da vítima junto ao caixão, com uma pequena
foto de Sandra em destaque. Até agora, portanto, o jornal só
não trouxe foto de Pimenta Neves, o que me parece injustificável.
A menos que estejamos inaugurando uma nova era, em que apenas
réus confessos terão a imagem publicada no jornal.
3. A leitura do dia é a reportagem do site no.com, uma
retrospectiva da turbulência que se seguiu ao rompimento do
namoro (entre outras coisas, o texto sustenta que Pimenta Neves
chegou a ir armado à Redação do "Estado"). É difícil saber quanto
do que está na matéria é informação confiável, mas seria um
equívoco descartá-la toda por ser "sensacionalista". Há ali
informações que merecem exame. A reportagem contesta a versão,
veiculada ontem pela Folha, de que Pimenta teria demitido
Sandra por razões "éticas", e não por ter levado o fora da namorada.
4. Ainda sobre esse ponto, vale registrar que, exceto
pela história do boletim de ocorrência, as informações pré-crime
são escassas na Folha e no "Estado", em oposição ao que
ocorre no site, no "Globo" e no "Diário Popular" (declarações
de colegas sobre a instabilidade recente de Pimenta, supostas
ameaças de morte, o segurança que teria sido contratado pela
família de Sandra, a história do segundo carro que teria ficado
à espera do jornalista depois do crime etc.) Tudo isso tem de
ser checado, e a Folha deve confiar em sua própria apuração,
mas não pode transmitir ao leitor a impressão de que omite informações
que contrariam a tese do gesto impensado.
O submarino
Em geral, textos opinativos publicados sob a vinheta "comentário"
trazem a assinatura de alguém da Redação ou de colaborador do
jornal. Quando a edição decide tomar emprestado o "comentário"
de outra publicação, imagina-se que o motivo seja a qualidade
das idéias e/ou do texto escolhido. Não é o que ocorre com "Tragédia
humana foi agravada por teimosia", artigo do "Independent" que
Mundo reproduz em seu noticiário sobre o submarino Kursk (pág.
A 13). Vale a pena conferir. Trata-se de uma mistura de lugares
comuns com informações repetidas à exaustão nos últimos dias.
A obviedade é tanta que o único motivo da publicação parece
ter sido a necessidade de oferecer algum "comentário", qualquer
um, ao leitor.
Há um discurso único na história do submarino, e aqui não falo
apenas da Folha: as trapalhadas da Rússia, a falta de
transparência herdada da ex-URSS etc. Não se trata de negar
razão, seja em que medida for, a essas observações, mas de notar
que quase ninguém parece interessado em analisar o caso sob
outros aspectos, embora eles certamente existam. Hoje, um texto
no "Wall Street Journal" defende a tese de que, por uma série
de motivos, dificilmente os EUA teriam sido mais ágeis do que
a Marinha russa na operação conduzida nos últimos dias.
Leia críticas anteriores:
21/08/2000
18/08/2000
17/08/2000
16/08/2000
14/08/2000
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