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São Paulo, 23 de agosto
de 2000
RENATA LO PRETE
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Números da violência
1. Não há novidade no enunciado da manchete da Folha ("São Paulo supera Rio em homicídios"). O mesmo título saiu no ano passado, quando a inversão de posições foi constatada pela primeira vez (dados relativos a 1998). Ao eleger o assunto como o mais importante da edição, o jornal deveria ter escolhido algo novo para destacar, como a piora do resultado paulistano (segundo o Pró-Aim) ou o aprofundamento da diferença entre as duas cidades. Sei que há o rotineiro problema do número de toques, mas ele não apaga a constatação de que a manchete é velha.
2. É de esperar que Anthony Garotinho faça (já vem fazendo, na verdade) barulho com esses dados. Ao registrar a comemoração do governador do Rio, o jornal deve ter o cuidado de lembrar que a anunciada tendência de declínio na taxa de homicídios teve início na administração de Marcello Alencar, considerada um desastre sob muitos, se não todos, os pontos de vista.
Para não entender
No pé da submanchete ("Liminares suspendem licitação no Renavam"), um recuado informa que "depoimentos de juízes do TRT-SP contestam versão de EJ". Nada mais. Que versão? Alguma relação com o Renavam? Como, além de tudo, não é a primeira vez que "juízes do TRT-SP contestam versão de EJ", ou bem o texto esclarecia qual é o ponto em questão ou era melhor deixar o item fora da capa.
Piada pronta
"MTV tira do ar filme com Deus". Não bastasse a impressão de piada transmitida por esse título da Primeira Página, há problema com o "tira do ar". Quem lê o texto interno (pág. A 12) descobre que:
a) a Arquidiocese do Rio pediu à emissora que não voltasse a exibir o curta-metragem "Deus é Pai", apresentado durante um programa, por considerá-lo ofensivo à religião católica.
b) a emissora afirmou que, mesmo antes do pedido, não tinha a intenção de exibir o filme novamente.
Isso posto, o enunciado parece bastante exagerado.
Crime na mídia
1. Dos 15 parágrafos da reportagem sobre o assassinato da jornalista Sandra Gomide (pág. C 5), apenas o último é ocupado por fonte ligada à vítima (Helen Psaros, amiga da família de Sandra). É correto que o outro lado tenha aberto a matéria, já que o principal desdobramento do caso, ontem, foi a internação de Antônio Pimenta Neves. Ainda assim, e mesmo descontando os três parágrafos dedicados a declarações do delegado, a relação é muito desigual.
2. A Folha continua a dar pouca atenção ao período que antecedeu o crime. O "Globo" (pág. 15) traz entrevista com o irmão de Sandra. Segundo ele, Pimenta Neves, depois de demiti-la, "ligava para os lugares e pedia para não a empregarem".
3. "For the record": hoje, pela primeira vez, na reportagem do "Estado" sobre o caso não aparece o nome do jornal. Com seu nome desde ontem fora do expediente, Antônio Pimenta Neves passou a ser, no noticiário do concorrente local, apenas o jornalista que confessou o assassinato de Sandra Gomide.
Lobby da comunidade
Não há a menor preocupação com equilíbrio na reportagem "Prefeitura de SP cria Corpo de Baile do Teatro Municipal" (pág. E 3). Apesar de ocupar título e lide, a notícia da criação do grupo é apenas escada para que a "comunidade de dança paulista" fale contra o projeto da prefeitura. Aqui não interessa discutir o mérito do projeto. Seja ele bom, razoável ou péssimo, isso não é jeito de fazer matéria. Nem "outro lado" digno do nome o jornal apresenta: a secretaria é ouvida somente para falar de orçamento; o idealizar do projeto, apenas para defender um bailarino que a "comunidade" considera medíocre.
Leia críticas anteriores:
22/08/2000
21/08/2000
18/08/2000
17/08/2000
16/08/2000
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