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Crítica diária
São Paulo, 28 de agosto de 2000

RENATA LO PRETE

AB
Em segunda-feira de manchetes bastante fracas, Folha e "Globo" abrem com histórias de algum modo relacionadas às medidas anunciadas pelo governo na semana passada. O primeiro jornal registra a contradição entre o novo código de ética e o uso de carros cedidos por montadoras pelo Palácio do Planalto. O "Globo" trata da baixa aplicação de multas, pelo TCU, por irregularidades na utilização de recursos públicos. O "Estado" volta com assunto que destacou na semana passada: desperdício de dinheiro liberado pelo Finor e medidas do governo para reestruturar os fundos de investimentos do Nordeste e da Amazônia. No "JB" a manchete é vestibular ("MEC quer o fim").

Pesos e medidas
Não há nada de errado com a reportagem "Alto escalão federal fere código de ética" (pág. A 5), pelo contrário. É papel do jornal apontar as contradições entre o que foi anunciado na semana passada e a prática do governo. Mas, pelas dimensões do caso relatado (28 veículos cedidos por montadoras para uso do Palácio do Planalto), tendo a achar que ele ficaria melhor em uma chamada do que na manchete. Se houvesse alternativa de manchete, claro, mas este é outro problema.

Faltou serviço
A Folha é dos poucos jornais a não destacar na capa que a edição de hoje traz os resultados do Enem (pág. C 6). É serviço básico para uma parcela do leitorado.

Votos demais
Não sei se quem errou foi Marta Suplicy ou a Folha, ao transcrever suas palavras. O fato é que a candidata do PT não tem "mais do que o dobro das intenções de voto de Paulo Maluf e Luiza Erundina somadas" (pág. A 9). Seus 31% são mais do que o dobro dos 15% e dos 14% obtidos, separadamente, pelos outros dois.

Reféns libertados
1. Depois de informar que mais 5 reféns foram soltos nas Filipinas, e que 19 permanecem em poder do grupo que os sequestrou de um resort em abril, a chamada da Primeira Página diz, em sua terceira e última frase, que "a Líbia teria pago aos guerrilheiros US$ 1 milhão por pessoa libertada". Apenas quem se lembra bem do caso, ou seja, quase nenhum leitor, consegue entender o que a Líbia faz nesta história. Ou bem se explicava, ou, se não havia espaço, era melhor deixar a informação no texto interno.

2. Ainda sobre didatismo, a arte "O drama do sequestro" (pág. A 11) menciona "governo", "rebeldes", "chefe militar" e "Estado independente" sem esclarecer que tudo isso diz respeito às Filipinas. Como a Malásia é citada no primeiro item do quadro, porque lá ocorreu o sequestro, o leitor pode se confundir.

3. Detalhe de texto. No sublide está escrito que a Líbia concordou em pagar US$ 1 milhão "por cada" refém.

Faltou imagem
O "Estado" (capa e pág. A 12) traz mais e melhores fotos do que a Folha (pág. A 11) sobre o incêndio na torre em Moscou.

Faltou explicar
Quadro que ilustra a reportagem "Acusados tentam manter espaço político" informa que a candidata a vereadora Esther Vergniano, mãe da cassada Maeli, é "missionária". É o tipo da caracterização que desperta curiosidade e pede mais esclarecimentos, mas não os encontrei em nenhum dos textos da capa de Cotidiano.

Sempre igual
Exceto pelo texto sobre a candidata que é filha de uma faxineira (pág. 11), a reportagem de capa do Folhateen é exatamente igual a 480 que foram feitas antes a respeito dos concursos de modelos promovidos pela agência Elite. Observação pontual. No lide (pág. 9), a Folha se espanta com o fato de Gisele Bündchen ter ficado apenas em segundo lugar na edição de 1994. Não deveria se espantar. Em boa parte dos casos, as meninas que estouram depois não são as vencedoras.

Edição de domingo, 27 de agosto

Hillary em campanha
1. A reportagem sobre a campanha de Hillary Clinton por uma vaga no Senado, capa de Mundo, fornece os percentuais de intenção de voto na primeira-dama entre brancos, negros e judeus. Os números são de pouca utilidade se o jornal não informa também qual é a divisão racial do eleitorado em Nova York.

2. O texto principal afirma que Hillary está na frente entre os eleitores judeus. A arte "prós e contras" diz que ela "encontra resistência na comunidade judaica". Não há, necessariamente, oposição entre as duas coisas, mas era preciso explicar melhor.

Outras palavras
É questão de sintonia fina, mas não me parece muito adequado afirmar que "quem ama continua matando" (capa de Cotidiano), referência ao fato de que crime passional é apontado como o mais comum dos homicídios de mulheres em São Paulo. O jornal não deveria assumir a idéia, no mínimo questionável e imprópria para generalização, de que o assassino ama a vítima.

Crime na mídia
1. Embora praticamente sem novidades, a reportagem "Pimenta quis bloquear carreira de Sandra" (pág. C 4) é o que de mais equilibrado a Folha publicou até agora sobre o caso.

2.
Muito se fala do suposto suborno que Sandra Gomide teria recebido para distorcer o noticiário do 'Estado' a favor de uma empresa na compra da Vasp. O texto de ontem menciona a questão no terceiro parágrafo. Alguém já foi dar uma olhada nas reportagens? Seria interessante verificar se elas aparentam ou não encomenda.

Operação resgate
Duas observações sobre a reportagem "À espera do resgate" (Revista da Folha, págs. 4 a 6):
1. Embora se escore também em duas histórias menores, o principal "gancho" da matéria é o caso do submarino, e ele ficou envelhecido. Mais de uma semana atrás já não havia esperança de resgatar ninguém do Kursk.
2. Quando o assunto é desgraça, parece que diminui o compromisso com a precisão. O sublide recupera a história de pai e filho que morreram após cair de um "abismo" no pico do Jaraguá (caíram de uma altura de 30 metros). Um sobrevivente do acidente de trens em Perus, no qual morreram nove pessoas, conta que havia "corpos mutilados por toda parte".


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