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Crítica diária
São Paulo, 30 de agosto de 2000

RENATA LO PRETE

Eleições
Duas observações sobre a reportagem "Presidente revê estratégia de apoio a tucanos" (pág. A 10):
1. O texto recorda que, inicialmente, a idéia de FHC era manter-se afastado, "especialmente nesta fase de baixa popularidade". Primeiro, trata-se de algo mais duradouro do que uma "fase". E, mais importante, há instituto dizendo que a situação melhorou, o que o texto não registra.
2. A matéria não esclarece como fica, à luz da suposta decisão presidencial, algo que o próprio jornal repetiu vezes sem conta: o fato de que a associação com a imagem de FHC traria prejuízo eleitoral aos candidatos tucanos.

Outras palavras
Dois problemas menores na chamada de capa "Clinton chega à Colômbia sob forte segurança":
1. O aspecto destacado no enunciado ("forte segurança") já foi objeto de vários títulos nos últimos dias. E ninguém imagina que o presidente dos EUA pudesse chegar à Colômbia em outras condições.
2. "O Brasil admitiu ser preciso aumentar a vigilância na fronteira com a Colômbia", diz a última das três frases da chamada. Da maneira como foi construído o texto, pode-se ter a impressão de que o motivo para o reforço da vigilância é a visita de Clinton. Não é.

Sem continuidade
Ontem, o jornal destacou em chamada de capa e na manchete de Mundo que a torre de 540 metros de altura incendiada em Moscou corria o risco de desabar. Hoje, o espaço dedicado ao assunto é ocupado por um side do "Independent" ("Sem TV, russos lotam locadoras em busca de filmes"). Não há uma linha para esclarecer se o perigo sobrevive, foi descartado ou nunca existiu.

Crime na mídia
1. "E-mails e gravações não contêm ameaças", diz o título que abre a página C 4. Sem dúvida é relevante esclarecer o que há no material retirado do apartamento de Sandra Gomide, mas é questionável a opção de transformar essa informação em manchete da cobertura, entre outras coisas porque ela, sozinha, não derruba a tese de que Pimenta Neves vinha perseguindo a ex-namorada, ao contrário do que sugere a última frase do segundo parágrafo da reportagem. O lide contrasta vivamente com o do "Globo", que do mesmo Instituto de Criminalística retirou informação ausente do noticiário da Folha, a de que Pimenta Neves usou balas especiais, de maior impacto do que as comuns, para matar Sandra.
2. Tendo a achar que a imagem do "Globo", em que o corpo aparece de frente, é mais forte do que a publicada pela Folha.

Por uma posição
Segundo a Folha, o obscuro australiano que pôs Gustavo Kuerten para fora do Aberto dos EUA na primeira rodada do torneio ocupa o 96º lugar no ranking mundial. O "Globo" fala em 97º. Quem está certo?

Faltou explicar
O pingue-pongue com Clint Eastwood, capa da Ilustrada, está bem acima da média dos que o jornal costuma publicar a propósito do lançamento de filmes. Mas faltou esclarecer, no abre, se a Folha participou da entrevista ou apenas a reproduziu.

Réplica
Abaixo, considerações de Marcos Guterman, editor interino de Mundo, sobre a crítica interna de ontem.
"Não entendi o objetivo do item 'Injeção revisitada'. O 'Times' publicou 'a verdade' sobre o episódio três dias depois de a Folha relatar o desmentido da mãe, texto que mereceu, inclusive, chamada de capa. O 'Times' errou seguidas vezes nesse episódio. Primeiro ao ignorar o desmentido quando ele foi feito; segundo ao publicá-lo como grande novidade três dias depois; terceiro, ao tratar como 'verdade' declarações que podem ter sido resultado de pressões de autoridades russas sobre a mãe do marinheiro, como sugere o 'Le Monde' hoje.
A repórter do 'Times' também admite essa possibilidade, para em seguida descartá-la, simplesmente porque, em um julgamento absolutamente pessoal, considerou autênticas as declarações que obteve.
" Se o editor interino não entendeu, explico.
Embora a Folha tenha publicado o desmentido no sábado (com destaque interno muito inferior ao da notícia da véspera, diga-se), a entrevista do 'Times' merecia registro porque:
a) apresentava a versão da mãe do marinheiro do Kursk de forma muito mais completa;
b) saiu no próprio jornal que dera curso à "teoria KGB". É o tipo da história em que dificilmente teremos certeza sobre o que aconteceu, mas, se usa "verdade", entre aspas, para se referir às declarações da mãe, o editor-interino tem de fazer o mesmo com a outra versão, a que foi veiculada com alarde pela Folha.
Se a repórter baseou-se em "julgamento absolutamente pessoal" para acreditar na mãe, ele não se baseia em mais do que isso para crer que esta pode ter sucumbido às "pressões das autoridades russas". A repórter, pelo menos, teve a chance e de conversar com a personagem da notícia.


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