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Crítica diária
São Paulo, 06 de setembro de 2000

RENATA LO PRETE

Faltou explicar 1
Título de reportagem na pág. A 4: "Oposição deve deixar subcomissão" (do caso EJ). Sobretítulo: "Para senadores contrários ao governo, faltam poderes de investigação". Como sempre faltaram, a matéria precisava ter explicado por que a decisão foi tomada agora".

Faltou explicar 2
1.
De acordo com a reportagem "Indústria dribla previsão e cresce mais" (capa de Dinheiro), "o bom desempenho vem até postergando a confirmação de uma previsão técnica segundo a qual, a partir do segundo semestre, o ritmo de crescimento cairia por conta do efeito estatístico gerado por uma base de comparação elevada". Entendo o que se quis dizer, mas acho que muitos leitores poderão achar a frase confusa.
2. Ao longo da matéria, apresentam-se motivos do crescimento dos setores de bens de consumo duráveis, de capital e intermediários. No entanto, a informação de que "os bens de consumo não-duráveis vêm sendo a nota destoante no aumento da produção" não está acompanhada de nenhuma explicação.

Sintonia fina
Nada contra apontar problemas e/ou contradições no documento divulgado ontem pelo Vaticano. A questão é que a reportagem "Igreja reafirma 'superioridade' católica o faz de maneira enviesada (pág. A 13). Parece mais preocupada em desqualificar as posições do cardeal Joseph Ratzinger do que em mostrar ao leitor por que o documento foi feito e quais são suas implicações.

Usos e costumes
Ao registrar que George W. Bush chamou um repórter do "New York Times" de "major league asshole", boa parte dos jornais americanos não transcreveu a palavra, limitando-se a um "a...". Mais liberal, a Folha diz que o candidato republicano chamou o jornalista de "cuzão de primeira classe" (pág. A 13). O "Estado" registra "cretino". O problema é que nenhuma das duas traduções capta bem o sentido do termo em inglês. "Asshole" certamente não equivale a "cretino", e tem significado um tanto mais leve do que o sugerido pela Folha. Se era para ser informal, "bundão" estava de bom tamanho.

Quem diz
Segundo reportagem que abre a pág. C 7, o ministro Paulo Renato, além de pedir ao Conselho Nacional de Educação o fechamento de dois cursos de direito, recomendou a renovação do reconhecimento de outros quatro e de seis cursos de administração, "pois eles", diz o jornal, "já apresentam condições para oferecer ensino de boa qualidade". A Folha não sabe se essa afirmação procede. Portanto, ela deveria ter sido deixada na boca do ministro.

Sem outro lado
Faltou ouvir a prefeitura na reportagem "Membros do Teatro Municipal protestam em frente à Câmara" (pág. C 7), sobre o ato que pretendeu interromper a tramitação do projeto que transforma a casa em fundação de direito privado.

Tudo por dinheiro
Penso que a manchete de Esporte ("Kuerten abre mão do ouro por dinheiro") passa do ponto ao assumir que o tenista resolveu desistir da Olimpíada para não perder dinheiro. Suponhamos que Kuerten tivesse decidido ir aos Jogos, com o uniforme oficial da Olympikus, e, por conta disso, perdesse o patrocínio da Diadora. Alguém duvida que, no atual estágio de sua carreira, no dia seguinte o brasileiro estaria sob nova marca, ganhando mais dinheiro? Kuerten diz ter escolhido por lealdade ao patrocinador que acreditou nele quando não havia mais ninguém por perto.
Podemos nos empolgar ou não com essa explicação. Podemos também analisar a conduta da Diadora e do COB no episódio, para ver se alguém poderia ter feito alguma coisa diferente no meio do caminho. O que não podemos fazer é comprar a versão de que Kuerten é o vilão da história. É essa a mensagem do título.
São muito frequentes as manifestações de leitores que consideram persecutório o tratamento dispensado pela Folha a Gustavo Kuerten. Nem sempre elas têm fundamento, mas seria um erro do jornal jogá-las todas na vala comum do "choro de torcedor", perdendo a oportunidade de refletir sobre críticas procedentes.



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