São Paulo, 04 de outubro
de 2000
RENATA LO PRETE
Eleições
1. Legenda na Primeira Página informa que foram retiradas "cerca de 600 toneladas" de material de propaganda eleitoral das ruas de São Paulo. O leitor vai à reportagem na tentativa de descobrir o significado desse número. Em vão. O texto empilha outros (457 caminhões de coleta, 554 viagens, 433.830 faixas, 4.055 funcionários da prefeitura envolvidos na operação), mas não oferece nenhuma referência para avaliar se a sujeira é maior, menor ou igual à de outras eleições. O volume "era muito maior do que a prefeitura estimava", diz o secretário das Administrações Regionais. Quanto a prefeitura estimava? Nem isso é esclarecido. Ou seja, a capa de Cotidiano foi feita com uma foto e um punhado de declarações de Arnaldo Faria de Sá.
2. Ainda sobre essa matéria, ela não permite entender por que a Justiça considerou que a retirada do material de propaganda do petista José Mentor causaria "dano de difícil reparo" à candidatura. A eleição para a Câmara já passou.
3. No final de sua coluna na página A 2, Fernando Rodrigues registra ter errado "de forma indesculpável os percentuais de votação de Maluf na cidade de São Paulo em 98". Não vejo por que a falha em si seria indesculpável. O jornalista acreditava na solidez dos números quando os utilizou. É chato, mas acontece. A nota, no entanto, tem o mesmo problema do "erramos" de ontem: restringe-se aos números, sem reconhecer que o raciocínio do artigo foi comprometido pelo equívoco. "Sobre Maluf ter sobrevivido politicamente ao ir para o segundo turno, nada a reparar", diz o jornalista. "Trata-se de um fato." Certo, mas o texto de segunda-feira foi além desse diagnóstico. Seu título: "Maluf sobreviveu. E cresceu". Na verdade encolheu, como mostra o jornal em nova incursão no assunto (pág. 4 do caderno Eleições).
4. "ACM sugere reforma ministerial como resposta a avanço eleitoral da oposição." É longa demais a manchete do Eleições. Sei que se trata de título previsto no projeto gráfico, mas fica evidente que foi preciso enrolar para preencher o espaço.
5. Ainda sobre enunciados, continua a haver total redundância entre o da capa e o da pág. 3 ("ACM pede mudança no ministério de FHC").
6. Mantenho a avaliação de que a Folha está subestimando a temperatura e a importância da eleição no Rio de Janeiro. Hoje, o material sobre o assunto está escondido abaixo da dobra na penúltima página do caderno.
Faltou a foto
O custo da nova embaixada brasileira em Berlim promete desempenhar, na atual visita de FHC à Alemanha, o mesmo papel de pedra no sapato presidencial que os gastos com a Exposição de Hannover representaram na viagem anterior.
Se o assunto é a embaixada, a Folha deveria ter feito como os outros jornais, ilustrando sua reportagem (pág. A 6) com foto das instalações.
Gore x Bush
Alguns itens mal explicados dificultam a compreensão da matéria "Bush e Gore fazem debate equilibrado" (pág. A 11) por quem não assistiu ao encontro pela TV e/ou não lê com regularidade o noticiário sobre a eleição nos EUA. Exemplos:
1. Bush "brincou dizendo que sabia que Gore havia inventado a Internet".
Poucos leitores da Folha saberão que esse é um bordão do candidato republicano, resposta às frequentes referências de Gore à rede mundial de computadores. Bush disse que "estava vendo que ele (Gore) criou também a calculadora". O texto não explica que o comentário diz respeito à grande quantidade de números despejada por Gore sobre Bush. Em mais de uma oportunidade o governador do Texas questionou esses dados, mas não chegou a rebatê-los, saindo-se com a tirada da calculadora.
2. O trecho sobre a RU-486 ("O governador condenou a aprovação da pílula abortiva") dá impressão de que Bush foi duro a esse respeito. Na realidade, de olho no voto das mulheres indecisas, foi mais brando do que costuma ser. Disse que "abortos precisam ser mais raros na América". Sua posição histórica sobre o assunto é que abortos deveriam ser simplesmente ilegais.
Leia críticas anteriores:
03/10/2000
02/10/2000
28/09/2000
27/09/2000
26/09/2000
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