São Paulo, 19 de outubro
de 2000
RENATA LO PRETE
Tudo ontem
É detalhe de texto, mas chama atenção o
número de chamadas da Primeira Página
que usa a palavra "ontem" sem a menor necessidade:
"o mercado financeiro internacional viveu ontem um dia
de grande instabilidade", o governo realizou ontem mudança
na legislação", "o Supremo Tribunal
Federal restabeleceu ontem a permissão de registro de
armas", "israelenses e palestinos começaram
ontem a cumprir o acordo". Não custa lembrar que,
por definição, tudo o que se registra na capa
do jornal aconteceu ontem. As exceções é
que necessitam de esclarecimento.
O câncer
de Covas
Duas observações sobre o noticiário a
respeito do estado de saúde de Mário Covas:
1. Mostrou-se correta a informação, antecipada
ontem pelo "Painel", de que o governador tem novo
câncer ("Recebi o resultado pela Folha.
Não acho esse um assunto para dar furo", diz ele
hoje na pág. A 8).
2. Convém esperar pela manifestação
oficial dos médicos, mas, a julgar pela reportagem
de hoje, a nota do "Painel" errou ao afirmar que
o novo tumor está localizado no intestino (parece haver
falha também na coluna "Brasília"
de hoje, que fala em "biopsia no estômago").
O câncer estaria na região da pélvis,
a mesma do anterior.
3. A matéria do "Globo" (pág.
10) é a mais "dura" com o paciente, destacando
a opinião de um urologista que estima em 15% as chances
de cura em casos dessa natureza.
No
Amapá
Está mal explicada, tanto na edição de
ontem quando na de hoje (pág. A 5), a situação
jurídica no Amapá. Pelo que me conta a Redação,
a bola estaria com
a Assembléia Legislativa, que, diante da decisão
anterior do STF anulando o processo contra o governador, teria
de percorrer novas etapas para validar sua decisão
de afastar João Capiberibe.
Isso não fica claro nas matérias. A retranca
de apoio "Advogados contestam decisão da Assembléia",
em tese destinada a esclarecer a questão, limita-se
a dizer três vezes que os entrevistados consideraram
o afastamento uma "aberração".
Eleições
1. Termômetro: são muitos os protestos
de leitores contra a foto de Marta Suplicy ensandecida na
capa da Folha.
2. "PSDB não quer ver Marta no interior",
diz a manchete do Folha Eleições (pág.
A 9). Sobretítulo: "Ministro tucano critica atuação
da petista em Campinas". Como critica, se ela está
fazendo campanha para o candidato do PT? A matéria
não tem sentido, especialmente com tanto destaque.
Dá a entender que Marta estaria traindo algum combinado
com os tucanos ao reforçar a campanha de petistas no
interior. Até onde sei, não existe nada a esse
respeito.
Mercado
nervoso
Para um "lidão", que em tese deveria resumir
o noticiário, é vago demais o texto da capa
de Dinheiro a respeito do tumulto nos mercados, mesmo levando
em conta que a seu lado existe uma arte.
Os parágrafos
iniciais da reportagem na pág. B 5 são mais
esclarecedores do
que o "lidão".
"Dois
pesos"
É piada a tentativa do jornal de pegar no pé
da Arquidiocese do Rio de Janeiro a propósito do veto
à gravação, em suas igrejas, do casamento
dos personagens da novela das 8. Segundo a seção
"Outro Canal" (pág. E 10), trata-se de um
caso de "dois pesos", pois "na vida real",
a atriz Isabel Fillardis, igualmente grávida, casou-se
na semana passada na "tradicional" Candelária.
Pode-se considerar o veto justificado ou tolo, mas é
evidente que ele não foi decidido apenas porque "Camila"
está grávida (além de corriqueiras na
"vida real", cerimônias com-barriga em igrejas
já apareceram em várias novelas).
O problema da arquidiocese é com a novela como um todo:
filha rouba o namorado da mãe, filha fica grávida
no dia seguinte, mãe mente sobre o pai da filha, ladrão
mata personagem inútil durante assalto a posto de gasolina
etc.
Leia críticas anteriores:
18/10/2000
17/10/2000
16/10/2000
11/10/2000
10/10/2000
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