São Paulo, 23 de outubro
de 2000
RENATA LO PRETE
Faltou consertar
A primeira nota do "Erramos" informa que, por falha de edição, o horóscopo publicado na Ilustrada é relativo a amanhã. Certo, mas onde está o de hoje? Se descobriu o erro na pré-rodagem, o jornal deveria ter incluído a seção correta no produto principal, para contornar o prejuízo ao leitor. Não é serviço que se possa recuperar no dia seguinte.
Eleições 1
1. "Padres pedem voto para Marta em missa." A manchete do Folha Eleições (pág. A7) saiu do mesmo freezer de onde o jornal tira, periodicamente, o enunciado "Mercado teme Lula". Somente quem não faz a menor idéia do que se passa nas igrejas da periferia pode considerar notícia o fato de que "a missa da paróquia Santo Antônio, na Brasilândia, tem elementos típicos de uma atividade política". É SEMPRE assim, especialmente em períodos de eleição, ainda mais em uma que tem como finalistas uma candidata do PT e Paulo Maluf. O jornal se surpreende com a pregação porque ela "contraria orientação da arquidiocese", mas a própria arquidiocese avisa que não vê motivo para tomar nenhuma atitude. Aparentemente, só a Folha não sabe que a orientação, sobretudo desta vez, é pró-forma.
2. Detalhe: nos pingue-pongues espelhados com os candidatos de Curitiba (pág. A 10), apenas o de Cássio Taniguchi informa a idade do entrevistado.
Campanha nos EUA
"'Post' pede votos para Al Gore, e o 'Times' faz campanha para Hillary", diz o título da seção "Multimídia" (pág. A 13). O enunciado pode dar a impressão de que cada jornal fez uma coisa, quando ambos fizeram exatamente a mesma, bem menos pirotécnica do que sugere o título: manifestaram apoio em editorial. Três problemas na matéria:
1. O texto não esclarece que recomendar candidato em editorial é rotina na imprensa dos EUA.
2. O resumo nem de longe espelha as ressalvas feitas pelo "NYT" ao escolher Hillary. A Folha registra apenas que o jornal reconheceu "o direito (do eleitor) de ser cético" em relação a alguém que "nunca vivera, trabalhara nem fora eleita" no Estado. Entre outras coisas, o "Times" disse esperar que Hillary não leve a "má reputação ética" da administração Clinton para o Senado.
3. Por fim, há erro de verdade em afirmar que o jornal "criticou" o adversário de Hillary, Rick Lazio, pela "entrada tardia" na campanha. Pelo contrário, o editorial fez alguns elogios a Lazio, entre eles o de "não reclamar" por ter chegado à disputa apenas depois da desistência de Rudolph Giuliani.
Duplo vexame
Foi erro de avaliação da Primeira Página destacar, no título da chamada de esportes, apenas a derrota do Palmeiras para a Ponte Preta. Ainda que o placar (5 a 1) tenha sido pior que o da derrota do Corinthians para o Fluminense (3 a 1), sem dúvida a notícia era o duplo vexame paulista na rodada, novo capítulo na péssima fase atravessada pelas duas equipes.
De qualquer jeito
Está mal amarrada a reportagem de capa do Folhateen, sobre quatro jovens da periferia que, a convite do jornal, visitaram a avenida Paulista pela primeira vez, depois de receber, em sua casa no Jardim Santo André, a visita de três adolescentes de classe média. Alguns pontos:
1. Não é dito como foi feita a "viagem de 48 km" até a Paulista. De ônibus?
No carro da Folha?
2. O texto dá detalhes sobre a vida escolar dos "maurícios", mas não informa nem a série em que estão, se estão, os irmãos Costa.
3. Apesar das fotos, nenhum dos personagens tem "rosto", individualidade. O leitor termina a matéria sem entender direito quem é quem.
Edição de domingo, 22 de outubro
Para não entender
Segundo parágrafo da chamada de capa "Maior parte da Amazônia não serve à agropecuária":
"O rendimento da extração planejada de madeira na área é de 71%, contra 4,2% da pecuária, e sugere também a criação de 700 mil km2 de florestas para uso econômico". Quem sugere? O rendimento?
Eleições 2
1. A reportagem "Célio não consegue o apoio de partidos" (pág. A10), que abriu o Folha Eleições de ontem, vai do princípio ao fim sem informar quais são os percentuais de intenções de voto dos dois candidatos em Belo Horizonte.
2. Abre da pág. A 13: "Lula define até março se disputa a Presidência". A afirmação não vale nada, assim como a garantia, supostamente dada por Marta Suplicy e Tarso Genro à direção do PT, de que, "se forem eleitos no próximo domingo, deverão governar até o fim do mandato".
Erramos
Quatro leitores, um deles professor de parasitologia, apontam erro de informação na reportagem "Falta de higiene espalha cisticercose" (pág. C7). Quadro afirma que as fezes do porco transmitem a doença, o que não é verdade. São outras três as formas de contaminação.
Escolher escola
Observações sobre o caderno Colégios:
1. Das 16 páginas, 8 estão fechadas com anúncios. Descontada a capa, sobram 7 para o serviço anunciado pelo jornal ("Escolha a escola certa para seu filho"). Em formato tablóide, não é muita coisa.
2. O principal item do caderno é o tabelão de 31 escolas que ocupa as páginas centrais. Elas foram escolhidas por quatro especialistas e por "cinco escolas tradicionais de São Paulo", automaticamente incluídas no quadro, explica o jornal. Ainda que as cinco sejam de fato tradicionais, não parece fazer sentido, por questão de princípio, que escolas escolham escolas. Por que o jornal, em vez disso, não ampliou e diversificou o leque de especialistas consultados?
Edição de sábado, 21 de outubro
Eleições 3
"Folha e Cultura cancelam debate depois de desistência de petista", diz título na pág. A14. No meio do texto, o PT afirma que a candidata jamais concordou em participar desse encontro. O último parágrafo menciona reunião em que o jornal e a emissora TV informaram aos partidos, antes do primeiro turno, "a intenção de realizarem em conjunto um debate com os dois postulantes que chegassem ao segundo. Todos haviam concordado". Concordado com quê? Com a intenção? Em participar? Em matéria logo abaixo, Marta acusa o jornal de não relatar direito o que aconteceu. Vários leitores também acusam. Na melhor da hipóteses, faltou clareza às explicações da Folha. Na pior, o jornal manipulou o título a seu favor.
Ficar de olho
Cotidiano publicou no sábado (pág. C 10) a história de uma menina de nove meses que morreu de traumatismo craniano depois de 12 passagens por hospitais em menos de dois meses. A partir de denúncia do Centro de Referência da Criança, a polícia apura as suspeitas de: a) agressões praticadas pela mãe; b) negligência dos médicos. Hoje o "Jornal da Tarde" traz entrevista com o pai (pág. 14A), que rejeita a hipótese "a". A credibilidade do depoimento é enfraquecida pelo fato de que ele não vivia mais com a moça e nem mesmo conheceu a filha. De todo modo, trata-se de um "outro lado". Não está na Folha. É o tipo de caso que, uma vez noticiado, o jornal tem de acompanhar até o fim, seja qual for a conclusão. Ainda que a matéria de sábado tenha tomado cuidados, não há dúvida de que a mãe saiu dela com a inscrição de "culpada" na testa.
Calendário
Tenho a impressão de que não confere o ano de lançamento de "The Power and the Kingdom" informado na capa da Ilustrada de sábado. A confiar no que diz meu exemplar, o livro de Gay Talese é de 1971, não de 1969.
Leia críticas anteriores:
20/10/2000
19/10/2000
18/10/2000
17/10/2000
16/10/2000
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