São
Paulo, 26 de outubro de 2000
RENATA LO PRETE
Até onde erramos
1. Quem leu as duas notas de abertura do "Painel S/A" de ontem percebe, a partir do "erramos" de hoje, que a informação, embora contivesse sugestão indireta de atos ilícitos e nomes de pessoas que poderiam tê-los praticado, não foi cruzada antes de sair no jornal.
2. Quem leu a nota "Francesa fala de fenomenologia e Fernando Pessoa" na Ilustrada de sábado percebe, a partir do "erramos" de hoje, que o jornal não tinha a menor idéia de quem era o sujeito da notícia, a ponto de ignorar que se tratava de um homem.
Filha esquecida
Legenda na pág. A4 menciona FHC, Ruth e os netos Pedro e Julia, mas não diz que é Beatriz, filha do presidente, quem aparece de mãos dadas com a menina na foto. Espaço havia: deu até para escrever "presidente Fernando Henrique Cardoso".
Toque interrompido
"Recife viveu nos últimos dois dias uma espécie de toque de recolher ao cair da noite devido à greve dos policiais militares", informa texto na pág. A6. Nenhuma referência à multidão que foi ao estádio, ontem à noite, ver o Sport surrar o Corinthians.
Segundo Esporte (pág. D3), o governador estava lá.
Quem está certo?
Está mal parada a história dos militares brasileiros que seriam julgados na Itália por participação na Operação Condor. Na esteira da manchete do "JB" de ontem, a Folha afirma (pág. A8) que isso deve acontecer, em matéria cuja única fonte citada fala pelo lado dos parentes de desaparecidos. A chamada de capa vai além, assegurando no título que haverá julgamento. Equanto isso, o "Globo" (pág. 14) ouviu na Itália que o procurador ainda está reunindo provas e que a notícia da abertura do processo é "falsa".
Eleições
1. Estão ótimas as entrevistas com Maluf e Marta (págs. A12 e A13, respectivamente). São a melhor (e em alguns trechos a mais divertida) leitura do jornal de hoje. Minhas duas observações, portanto, dizem respeito apenas a detalhes de acabamento: a) é um pouco estranho que a assinatura dos dois autores apareça na abertura do segundo pingue-pongue, e não do primeiro; b) entendo o jogo que se pretendeu fazer com as imagens dos dois candidatos, mas, pela mão da aliança, dá para perceber que a foto de Marta está invertida.
2. O "Valor" informa (pág. A9) que Antônio Ermírio de Moraes decidiu votar em branco. Como a Folha noticiou a crítica veemente do empresário a Paulo Maluf depois do primeiro turno, em texto que sinalizava a possibilidade de Ermírio escolher Marta, seria adequado registrar o desfecho da história.
Outras palavras
Chamada na Primeira Página assume que Alberto Fujimori "não encontrou" Vladimiro Montesinos, apesar de ter mobilizado Exército, polícia e cães farejadores para capturar seu ex-braço-direito.
Mais cauteloso, o texto interno (pág. A19) registra que Fujimori "declarou" não ter conseguido localizar Montesinos.
Fora do sistema
Um leitor estranha que as duas ilustrações do Sistema Solar apresentadas em Ciência (pág. A20) não incluam a Terra. Sou informada de que isso ocorreu devido a limitações de escala. Ainda assim, penso que a incompreensão do leitor é bastante justificada.
Garnero demais
Ontem, Mario Garnero ganhou espaço na Primeira Página para avisar que não mais sairá do papel o seu Maharishi São Paulo Tower, projeto polêmico que a Folha tratou de maneira promocional e nada pluralista em reportagem no ano passado.
Hoje, o empresário volta à capa para tratar do mesmo assunto, agora acusando a prefeitura, sem prova ou mesmo outra fonte que o corrobore, de ter pedido propina para viabilizar a construção da pirâmide. Ainda que qualquer relato sobre corrupção municipal pareça crível, é bola demais para Garnero.
Acabamento
Nas páginas da Folha, publicidade é separada do noticiário por meio de fios. A regra não foi seguida na capa do Equilíbrio. O resultado é que o anúncio da Natura no pé da capa parece chamada para alguma reportagem dentro do caderno.
Leia críticas anteriores:
25/10/2000
24/10/2000
23/10/2000
20/10/2000
19/10/2000
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