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Crítica diária
São Paulo, 27 de outubro de 2000

RENATA LO PRETE

Cada uma para um lado, as manchetes tratam de desdobramentos do mesmo assunto destacado ontem: reajustes. Folha e "JB" se concentram nos 11,98% do Judiciário. A primeira abre com declaração de FHC (possível corte de verbas para esse poder como forma de viabilizar o aumento). Para o jornal do Rio, o aumento ameaça a elevação do salário mínimo. O "Globo" abre com cálculo do impacto que teria a mudança no Imposto de Renda sugerida pelo presidente ("prejudicaria contribuinte que ganha menos"). E o "Estado" traduz todas as correções à vista como "ataque de R$ 16,7 bi aos cofres públicos").

Eleições
Nem mesmo os perfis bem escritos de Marta e Maluf (págs. A12 e A13) conseguem ofuscar o grande equívoco do Folha Eleições de hoje: a apresentação diminuta e escondida do caso do falso sequestro seguido de assassinato levado ao ar no programa do Ratinho e em seguida utilizado, durante vários dias, na campanha de TV de Maluf. Sabe-se agora que foi um suicídio.

Quem viu a propaganda, assistiu ao apresentador se enrolando em explicações ontem e hoje lê a reportagem detalhada do "Estado" (pág. H1) percebe que se trata de uma grande história, até mesmo pela reação intempestiva do candidato ao ser interpelado sobre o assunto. A Folha, no entanto, optou por confinar o episódio a um módulo 200 em pé de página (A11), abrindo seu noticiário eleitoral com uma reportagem cem por cento previsível a respeito de pichações na reta final da campanha (pág. A10).

Sei dos cuidados que o jornal, com razão, costuma tomar em casos de suicídio, mas era perfeitamente possível preservar o morto sem deixar de dar à história o destaque que merecia. Bastava centrar o relato no que de fato interessa: a constatação da fraude e a investigação de sua origem. O irônico é que a associação Maluf-Ratinho foi antecipada pela Folha em reportagem anteontem. O que era para ser um ponto do jornal neste segundo turno acabou virando bola levantada para o concorrente cortar. A edição de hoje certamente não vai contribuir para a serenar os ânimos de leitores que enxergam viés malufista no noticiário do jornal.

Registrado o mais importante, seguem observações pontuais sobre a edição de hoje:
1. Está mal feito o serviço do encontro desta noite na Rede Globo (pág.
A11). Na edição Nacional, faz sentido dedicar a arte à lista das cidades em que haverá debate. Na São Paulo, entretanto, seriam muito mais úteis as informações que estão no quadro do "Estado" (pág. H2) e que não aparecem nem mesmo na reportagem da Folha: quem será o mediador (Carlos Nascimento), quantos serão os blocos (5), qual será o esquema de pergunta-resposta-réplica-tréplica (30s, 1min30s, 30s e 30s, respectivamente) e o que está proibido (exibir documentos para as câmeras).
2. Detalhe de edição. Sobretítulo do perfil de Maluf: "Estilo de campanha permite que candidato do PPB se diga um perueiro entre perueiros e um crítico do transporte clandestino e inadequado entre os empresários". Sobretítulo do perfil de Marta: "Candidata do PT ouve nas ruas militantes cantarem música com refrão 'trabalhadores no poder' e elogia 'riqueza, dinamismo e sensibilidade' do empresariado". Entendo que se pretendeu estabelecer diálogo entre os dois enunciados, ambos baseados na idéia de contradição. O problema é que a aproximação é para lá de forçada. Enquanto o sobretítulo de Maluf resume à perfeição uma história que ocupa quase metade de seu perfil, o de Marta pinça um caso relatado no texto e não traduz sua idéia central: a de que a candidata tem pavio curto e que, tanto na periferia quanto na universidade, não pensa duas vezes antes de dizer o contrário do que o interlocutor gostaria de ouvir.
3. "Rivais travam duelo de acusações", diz na pág. A14 um enunciado que serve para qualquer uma das eleições em curso, assim como para passadas e futuras. O caráter genérico de títulos como esse é acentuado pelo fato de que, para facilitar a edição, o nome da cidade em questão fica sempre escondido no "chapéu".


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