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São
Paulo,30 de outubro de 2000
RENATA LO PRETE
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Eleições
Descontada a diferença de prioridade entre os jornais de São
Paulo e do Rio, estão muito semelhantes em informação
e análise as edições dos principais diários sobre a votação
de ontem. São pontuais, portanto, os seguintes comentários
a respeito do Folha Eleiçoes, que no geral me parece
correto:
1. O jornal anda abusando de títulos como o que abre
o caderno: "Os Eleitos". Batida, a idéia não funciona
nem como notícia nem como sacada. Outro exemplo: "Como Marta
venceu" (pág. A5). Aqui o problema é mais grave. O enunciado
não tem nenhuma relaçao com o texto que o acompanha,
um relato do sábado da candidata entremeado por bastidores da
campanha. Na melhor das hipóteses, pode-se dizer que o título
dialoga com a arte colocada nessa página (resultados da votação
discriminados pelas zonas eleitorais de São Paulo). Mas:
a) essa nao é a função primeira de uma manchete; b) a
arte está fora de lugar, porque trata de questão nem
sequer mencionada na reportagem. Fica a impressão de
que o "Como Marta venceu" foi escolhido apenas por caber no
molde de títulos recentes do caderno ("O que diz Marta"/"O que
diz Maluf", "Marta em açao"/"Maluf em açao"). É piloto automático.
2. Por falar no quadro da pág. A5, um erro e uma dúvida:
a) a sigla PPB aparece sob o nome de Marta; b) não é
explicado o que significam os pontos em azul dentro do mapa
da cidade (o jornal diz apenas que na região pontilhada,
dentro da área azul, houve situaçao próxima de empate). A leitura
imediata é a de que seriam áreas em que Maluf venceu, mas isso
não bate com os números ao lado.
3. Para um caderno de conteúdo quase todo previsto, o
de hoje não impressiona sob o aspecto visual. Suas páginas,
especialmente as que reúnem resultados de várias cidades, estão
quase tão congestionadas quanto as do dia-a-dia. Também
a edição de fotos, apesar da quantidade, nao chama atenção.
Um pequeno exemplo. A reportagem sobre o sábado de Marta narra
seu encontro com uma eleitora (fã da candidata e de Adriane
Galisteu) que seguiu o carro do casal Suplicy, pediu que parassem,
implorou um beijo etc. Pois bem. A única imagem da matéria da
Folha é uma foto qualquer dessa moça, sem Marta. A foto
do "Estado" (pág. H2) é o abraço das duas.
4. Tenho a impressão de que merecia mais do que
uma referencia perdida no meio da reportagem da pág. A3 o fato
de que Lula não compareceu a comemoração petista
em Sao Paulo.
5. Detalhe: nao há FHC no caderno. Os outros jornais trazem
a imagem e a resposta tucana do presidente aos repórteres que
lhe perguntaram em quem havia votado.
6. Além da vitória do PT e do tropeço do PFL no segundo turno,
merecia registro a forte tendencia de reeleição dos atuais
prefeitos. Sei que esse aspecto foi abordado depois do primeiro
turno, mas hoje, com o quadro completo, o jornal traz apenas
o selo "reeleito" ao lado de alguns dos nomes na arte da pág.
A9, sem quantificar os resultados. O "Globo" faz isso na pág.
24.
Edição de domingo
1. Foi positivo antecipar perfis e entrevistas dos candidatos
de São Paulo, em vez de deixar tudo para o dia da votação,
como fez o "Estado". Mas também é verdade que quase só havia
pesquisa para ler no Folha Eleiçoes de ontem.
2. Ficou bom o jogo das fotos de Marta e de Maluf na
Primeira Página, bem mais criativo do que a capa do concorrente
local.
3. Em contrapartida, o enunciado da manchete ("Marta
deve ser eleita prefeita hoje") soou bastante anticlimático
para um cenário de 16 pontos de diferença. Se por razão
de segurança não era possível cravar, então era
melhor ter ficado nos números propriamente ditos. Para piorar,
o título praticamente se repete na capa do caderno ("Marta deve
vencer em SP") e na pág. A7 ("Diferença cai, mas Marta deve
ser eleita").
4. Em pleno dia eleição, havia bem pouca cor no
caderno. Para contornar a limitação, a eleição
paulistana acabou jogada no meio do caderno, depois de outras
menos importantes.
5. Entendo que a apuração foi feita antes, mas
ficou estranho ter uma página inteira sobre Lula (A18) em que
não há nenhuma referencia ao caso Pelotas.
6. Extemporânea a pauta de Imóveis ("Veja propostas de
Marta e Maluf para habitação"). Além de escapar um pouco
a vocação do caderno, ela não fez o menor sentido
no dia da eleição, quando todos já sabiam quem ia vencer.
Eleiçao nos EUA
Vai mal a cobertura da Folha sobre a eleição nos
EUA. O jornal nao utiliza como deveria seus dois correspondentes
no país, ao mesmo tempo em que escolhe sem muito critério os
textos de diários estrangeiros que traduz. "Grupos pró-aborto
criticam Bush", diz hoje o título de reportagem traduzida do
"New York Times" (pág. A10). Nao há novidade nisso. Eles são
contra Bush desde sempre. Para o leitor de lá até faz sentido
(a reportagem fala da diferença de percepção entre esses
militantes e o eleitor comum a respeito do que Bush, se eleito,
faria sobre a questão). Mas para o leitor da Folha
é quase um calhau. Ontem foi a vez do "Independent", jornal
que, apesar de já ter sido bem melhor, não falta nas
edições de Mundo. A matéria tratava da resistencia de
Gore em aceitar a ajuda de Clinton na campanha e do temor de
que isso possa lhe custar a eleição. Mais interessante
do que a história dos grupos pró-aborto, sem dúvida. O problema
é que as mesmas informações saíram há dez dias no "New
York Times". Há cerca de uma semana, o "Valor" também abordou
o assunto.
Leia críticas anteriores:
27/10/2000
26/10/2000
25/10/2000
24/10/2000
23/10/2000
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