Amanhã e depois as manchetes deverão voltar para a novela no Congresso, mas
hoje cada um atira para um lado. O "Estado" abre com o anúncio
governamental da ampliação do bolsa-escola. A Folha, com o efeito da
inadimplência sobre os juros do varejo. O "Globo", com Canadá ("Brasil
pára de importar US$ 200 milhões"). O "JB" traz um balanço da apreensão de
armas no Rio, e, assim como o "Estado", compensa o pouco destaque dado
ontem ao Genoma com uma caixa sobre o assunto no alto da capa.
Contar melhor -
1. Texto-legenda no alto da Primeira Página informa que os favelados
protestaram "contra o sumiço de homem baleado socorrido pela polícia". No
caso, "levado" teria sido melhor do que "socorrido" porque, de acordo com a
reportagem interna (pág. C6), existe a possibilidade de o homem ter sido
atingido pela própria polícia.
2. "Moradores de uma favela de São Paulo bloquearam duas pistas da marginal
Tietê e enfrentaram a tropa de choque em protesto" etc. Assim começa o
texto de Cotidiano. Apenas no sétimo parágrafo é dito qual é a favela e
onde fica (estamos falando da edição que circula na cidade). O fato de
haver um mapa na página não elimina a obrigação de informar o básico no
lide.
Estica-e-puxa -
É claro que a Folha tem de acompanhar bem as eleições na Câmara e no
Senado, mas qualquer um que se dê ao trabalho de ler a cobertura
extensivamente percebe que o jornal está enchendo linguiça. Na edição de
hoje, nem de longe há notícia suficiente para sustentar os quatro abres de
página dedicados ao assunto (A4 a A7). São vários tipos de enrolação:
1. Mesma informação em textos diferentes. A nota "Sacrifício doméstico", do
"Painel", diz o mesmo que o abre da página A7 ("Pefelistas podem optar por
solução caseira"). A nota "Antes tarde..." redunda com o que é relatado na
matéria "FHC não dá aval à articulação do PFL" (pág. A7).
2. Informação repetida no mesmo texto. O lide da matéria "FHC não dá
aval..." diz que "a fita com neopeemedebistas sugerindo vantagens
econômicas para ingressar no partido deu (a FHC) mais motivos para manter a
neutralidade oficial na disputa". DOIS parágrafos adiante está escrito que
"para o governo, o acirramento da disputa, cujo último lance foi a gravação
mostrando deputados sugerindo que trataram de vantagens econômicas para
trocar o PFL pelo PMDB, serve de pretexto para afastar FHC ainda mais das
batalhas entre o PFL e a aliança PMDB-PSDB".
3. Entusiasmo com novidades que o jornal está cansado de saber que não
darão em nada. É o caso da manchete de ontem ("PFL tenta adiar eleição;
PMDB quer afastar ACM").
Dúvida: o abre da pág. A6 diz que "nas contas do PFL, Fogaça poderia chegar
aos 40 votos, contra os 35 esperados para um nome do próprio partido". 35
para um nome do PFL? Não bate com as contas que o jornal publicou antes.
Trocando as letras -
A cidade de Vladivostok aparece como "Valdivostok" na matéria "Corrupção
tira aquecimento de russos no pior inverno em 50 anos" (pág. A10).
Outras palavras -
Segundo a matéria "Partidos de Sharon e Barak fazem acordo" (pág. A11), o
premiê eleito "precisa superar suas diferenças em relação às propostas de
paz dos trabalhistas para formar um governo até o fim de março e evitar
eleições gerais". Não é assim. Sharon vem de uma vitória para lá de
convincente nas urnas. Por mais complicado que seja o xadrez da formação de
seu governo, as propostas de paz dos trabalhistas não vão predominar neste
momento.
Diário oficial -
Está bem que o jornal cuidou de incluir, no noticiário sobre a ampliação do
bolsa-escola, uma retranca mostrando o uso eleitoral que será feito do
cartão magnético com os símbolos do governo FHC e do MEC. O texto principal
de Cotidiano, no entanto, segue o padrão de todos os anúncios nessa área.
Um trecho que diz tudo: "Até o final de 2000, o MEC não pretendia incluir
cidades maiores. Mas o ministério descobriu que haveria recursos para
todos".
Para não dizer que o governo federal é o único agraciado com esse gênero de
matéria, tem exatamente o mesmo tom o abre da pág. C3 ("Prefeitura quer
fundo único contra pobreza"). Neste caso, nem mesmo são favas contadas. "A
prefeitura pretende", "Márcio Pochmann disse que a intenção é" etc. A Folha
não dizia (pág. 42 do "Manual") que projeto oficial é algo a ser noticiado
com distanciamento e algum senso crítico?
Em tempo -
1. Um surfista me procura para dizer que a onda mostrada na capa do
Folhateen é do Taiti, não do Havaí, como informou a legenda.
2. Outro leitor observa que o fundo Bradesco FAQ Macro foi classificado
como de alto risco na pág. B4 do Folhainvest de ontem e como de baixíssimo
risco na pág. B7 da mesma edição.
3. A editora 7 Letras avisa que está desatualizado o seu telefone
publicado, no sábado, em texto sobre o livro "No shopping". Os números
corretos são (21) 540-0037 e 540-0130.
A crítica interna é de responsabilidade da ombudsman Renata Lo Prete.
Circula diariamente na Redação da Folha e na Empresa Folha da Manhã S.A.
Leia críticas anteriores:
12/02/2001
09/02/2001
08/02/2001
07/02/2001