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07 de março de 2001
RENATA LO PRETE
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O velório
1. Ontem, o concorrente local surpreendeu a Folha com uma entrevista comMário Covas, supostamente a última concedida pelo governador. Hoje, trazentrevista com FHC (pág. 3 do caderno especial). Segundo o jornal, feitaontem de manhã.
2. "Sem Covas, FHC ganha poder na sucessão tucana", diz o título que abre acobertura do "Valor" (pág. A6). Conclusão simples e evidente, mas nãoconsta das análises da Folha.
3. É também o "Valor" o único a observar (pág. A5) que, com Covas morto,desaparece o principal veto à opção Pedro Malan (o "Painel" fez comentáriosemelhante na edição de domingo). É lógico que essa não era a únicadificuldade para viabilizar a candidatura do ministro da Fazenda. Váriassobrevivem. Mas a interpretação não carece de lógica, e funciona comocontraponto ao discurso quase unânime de que a vida de José Serra agoraserá fácil.
4. A Folha tem um comentário diferenciado no artigo de Luiz Felipe deAlencastro. O historiador analisa a trajetória política de Covas,reconhecendo-lhe os méritos sem cair na louvação que tomou conta dessenoticiário. O texto merecia um pouco mais do que o pequeno espaço que lhefoi destinado no pé da página 11 do caderno especial.
5. Não foi ruim a idéia de fazer um longo texto de abertura, que vai dacapa à página 3 do caderno, mas o resultado ficou um tanto confuso do pontode vista da hierarquia das informações. O registro sobre o enterro sóaparece no meio da segunda página, ainda assim sem o horário previsto. Otrecho relativo a FHC vem depois de uma série de itens menos importantes.
6. "O cortejo fúnebre entre o Incor e o Palácio dos Bandeirantes foisaudado pelas ruas com buzinaços, aplausos, lenços e roupas brancas",registra a Primeira Página. No caderno, o leitor encontra descriçãodiferente: "A postura dos paulistanos (durante o cortejo) foi de reverênciasilenciosa. Quase não se ouviam buzinas". O que vale? Além da divergênciade versões, há certo exagero em "reverência silenciosa". Sem dúvida, muitaspessoas se sensibilizaram, mas o "silêncio" se deveu ao fato de que amaioria estava relativamente alheia ao evento e cuidando da própria vida.
7. Trecho da reportagem na página 2 do especial: "Ninguém se arriscava adar declarações formais sobre a crise instalada pelas denúncias de ACM epelas provas que surgem contra o presidente do Senado". Devagar com oandor: o caso do Banpará está crescendo, e sou a primeira a defender queele receba mais atenção do jornal, mas ainda não há (ou pelo menos não veioa público) prova contra Jader Barbalho.
8. Trecho da reportagem na página 3: "FHC, ao lado de Ruth e Lila, rezou o'Pai Nosso' (trocando algumas poucas palavras)". Em seguida: "Na saída, opresidente abraçou o cardeal, em vez de beijar-lhe a mão, como fizeramAlckmin e Maria Lucia." Especialmente no primeiro comentário, tenho aimpressão de que o jornal exagerou, apegando-se a muito pouco na tentativade frisar a ausência de sentimento religioso de FHC. E daí que ele trocou"algumas poucas palavras"? Como se isso não acontecesse também com genteque crê e vai à missa. Há uma linha tênue entre a observação do detalhe e aimplicância.
9. Como amanhã o jornal trará, inevitavelmente, nova fornada de declaraçõescompungidas de políticos a respeito de Covas, seria bom selecionar um poucoe poupar o leitor de coisas como "ele não podia ter feito isso com a gente"(Zulaiê Cobra, pág. 2).
10. Também seria adequado ter algum critério com histórias na linha"testamento de Covas", que agora se multiplicam nos jornais. A nota dacoluna de Mônica Bergamo sobre o conselho que o governador teria dado aWalter Feldman, que busca a presidência da Assembléia Legislativa, não tema menor relevância.
11. "Bate-bocas abalaram a popularidade." Esse título da página 8 é nomínimo impreciso. O próprio texto deixa claro que, muito mais do que osbate-bocas, foram os efeitos das medidas de saneamento das finanças e osmaus resultados na área de segurança os responsáveis pela impopularidade dogoverno Covas nos anos que antecederam sua doença.
12. Pela quantidade de fotos que apresenta, o caderno especial permite umverdadeiro "estudo de caso" sobre a pobreza média das legendas da Folha.ACM "olha o corpo do governador" (pág. 11), o que o leitor pode percebersem necessidade de texto. Covas come pastel, em 1983, "após participar desolenidade" (pág. 6), velha fórmula para preencher espaço sem nenhumainformação. A foto de José Serra (pág. 11) tem como título "Coerência". Apalavra foi retirada de uma frase do ministro sobre Covas, mas quem bate oolho no conjunto imagem-título tem a impressão de que o jornal "dá umaforça" para Serra.
Leia críticas anteriores:
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