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Crítica diária

09 de março de 2001


RENATA LO PRETE


Fora de foco

Por merecedor de registro que seja o protesto dos perueiros, foto de ônibus incendiado o jornal já deu várias. Poderá dar outras tantas, sem dúvida, mas a imagem do dia não era essa, e sim o desabamento do palanque em que estavam ACM e cerca de 120 pessoas em Jequié.

Seja pelo que o acidente simboliza, seja pelo inusitado da cena (o mundaréu de gente vindo abaixo de uma só vez, junto com toda a estrutura do palanque), a imagem deveria estar na capa do jornal, não escondida, em PB, no pé da página A-6.

Inocência

1. "PFL demonstra unidade e evita críticas a ACM", afirma título na página A-5. O lide acrescenta que o partido "sinalizou para o Palácio do Planalto que não vai perder espaço na aliança que dá sustentação parlamentar ao governo". Duas observações: a) mesmo indicando os dois novos ministros, o PFL já perdeu algum espaço na aliança, o que pode não ser irreversível, mas é fato; b) é ingênuo interpretar como sinal de "unidade" a decisão de permanecer no governo e ao mesmo tempo deixar ACM livre para atirar.

2. "Inocêncio estuda permanecer líder", diz título na página A-6. Inteiramente apoiada em declarações do deputado, que ontem esteve com FHC, a matéria deixa a impressão de que Inocêncio hesita, analisando um apelo do presidente. No entanto, sinais aos montes, já registrados no próprio jornal, dão conta de que "permanecer líder" é tudo o que Inocêncio quer neste momento.

3. O mesmo texto diz que a "nova linha independente" do PFL é comandada por ACM "e também integrada por Inocêncio". De novo, o relato contrasta com noticiário recente da própria Folha, segundo o qual o surto de rebeldia de Inocêncio acabou logo depois das eleições na Câmara.

Hierarquia

Ainda que se deva relativizar a declaração de Geraldo Alckmin sobre a escolha do candidato tucano para 2002 ("seria uma discussão extemporânea falar sobre isso"), a posição do novo governador seria mais relevante, como título da matéria da pág. A-10, do que "Alckmin afirma que vai manter secretários de Covas". Como nota o "Painel", ele não poderia afirmar outra coisa neste momento.

Interpretações

É curioso observar a gradação dos títulos feitos a partir das declarações do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho. Como enunciado semelhante ao do "Jornal Nacional" de ontem, a Folha adota o enfoque mais otimista ("Herbert possui 50% de chance de voltar a andar"). Assim como o "JB", o "Estado" fica no meio termo ("Herbert está paraplégico, mas pode voltar a andar"). O "Globo" diz apenas que o cantor "está paraplégico". E a manchete da Folha Online destaca que ele ficará "pelo menos" um ano sem andar.

Acredite se quiser

Título na edição nacional de Cotidiano (pág. C-4): "Descascar alho é atividade comum em MG".

Trocando as bolas

Nota na coluna de Mônica Bergamo diz que ACM fará novas acusações domingo, "no programa do SBT 'Passando a Limpo'". Da Record, certo?

Obrigada

A crítica de hoje é a última assinada por mim. A de segunda-feira já será feita por Bernardo Ajzenberg, a quem desejo um bom "ombudsmanato". Agradeço à Redação pela paciência com um serviço necessariamente incômodo, e pela contribuição para o clima de mútuo respeito que, apesar das divergências, acredito ter predominado nesses três anos. Bom jornal para todos.

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