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Crítica diária

15 de março de 2001


BERNARDO AJZENBERG


Apelo de FHC por trégua entre seus presidenciáveis, depoimento dos procuradores no Senado, Luiz Estevão na prisão e turbulências nos mercados -esses os assuntos predominantes nas capas dos jornais hoje. Folha e "JB" destacaram, ainda, os dados da FGV sobre evolução das despesas dos brasileiros com habitação.

Primeira Página

1) Ao contrário do que diz a legenda, Luiz Estevão não está lendo nenhum livro na foto, mas sim uma folha de papel. "Globo" e "Estado" trazem fotos nas quais ele de fato está a ler (ou finge ler, que seja) a obra mencionada.

2) O gráfico mais adequado para ilustrar a "caixa" sobre os gastos dos brasileiros teria sido o da evolução entre 92/93 e o dado mais recente. É o que propicia o título da chamada. Nem no material interno isso foi feito. Há também uma imprecisão: o que subiu não foi a despesa com habitação e sim o peso dessa despesa no conjunto das despesas dos brasileiros. Preciosismo?

3) A demissão do presidente do INSS, por seu significado político na crise atual da base governista, deveria estar na Primeira Página.

Mudança de clima?

O abre da pág. A10 (Brasil) de ontem era "Governo recua na demissão de carlistas". O texto, refletindo apuração de bastidor, passava ao leitor a idéia de que para não perder votos no Congresso FHC suspendera a "caça" aos aliados de ACM. "O clima agora é outro", afirma o texto. Hoje a retranca "Ministro demite carlista do INSS" (pág. A6), além de desmentir essa avaliação ao noticiar a demissão de Crésio Rolim do INSS, afirma que outro carlista (Firmino Sampaio, da Eletrobrás) recebeu aceno de que deve permanecer no cargo "por mais algum tempo". "Valor" e "Globo" dão como certa a disposição do Planalto de demiti-lo. Vamos acompanhar.

Lide perdido

"Cúpula do PMDB não sabe como enfrentar acusações contra Jader" (Brasil, pág. A6) é uma antinotícia. Um lide possível, creio, estaria no sexto parágrafo, segundo o qual Jader confirmou que houve acordo com o PSDB em relação à presidência da Comissão de Assuntos Econômicos, acordo esse que vinha sendo negado, como diz o texto, por Renan Calheiros.

Soco na cela

Segundo o "Globo", Luiz Estevão socou seu colega de cela José Eduardo Teixeira Ferraz durante a madrugada. Teria sido esse o motivo do sangramento do nariz do dono da Incal. No seu texto-legenda (pág. A12), a Folha apenas informa que o homem foi levado a um hospital para tratar de sangramento no nariz. A verificar. (Registre-se que só a Folha deu a foto).

Fotos

Além da foto "ineficiente" de Luiz Estevão mencionada no início desta crítica, registre-se que o "Globo" traz inéditas e quentes de Ricardo Sérgio e que sua foto do procurador Luiz Francisco em depoimento no Senado é bem melhor do que a burocrática foto da Folha.

"Termos alienígenas"

1) A propósito da coluna de hoje de Celso Pinto (pág. A11), "O teste do câmbio ficou mais difícil", o leitor Laércio Zanini comenta em e-mail que ficou "boiando" ao ler termos como "steady state" ou "hedge" sem tradução ou explicação.

2) Por coincidência ou não, pela primeira vez li no jornal um texto que mostra com didatismo inteligente e clareza o que é o "hedge": "Empresas pagam até..." (Dinheiro, pág. B3).

Mundo

1) Dar apenas uma Panorâmica (pág. A20) me parece subestimação da notícia de que tropas iugoslavas voltaram a tomar posições no Kosovo.

2) Vale a pena perder alguns minutos e comparar ao menos trechos do mesmo texto do "New York Times" publicado na Folha (pág. A18) e no "Globo" (pág. 42) sobre o apoio da população a Bush. A tradução da Folha é mais literal (no mau sentido do termo). Problema de tradução (ou erro de português mesmo) parece ser também o uso da palavra "contingência" em vez de "contingente" na retranca "Libaneses protestam..." (pág. A22), para se referir ao grupo de militares e policiais que supostamente pretendiam evitar distúrbios em Beirute.

3) A retranca "Zapatistas e parlamentares entram num impasse" (pág. A21), além de ter esse título fraco, refere-se à marcha liderada pelo subcomandante Marcos (presumo eu por ter acompanhado a cobertura) simplesmente como "a marcha", sem explicar em nenhum momento do que se está falando.

Didatismo

1) Não custava muito ter colocado entre parênteses depois do nome os anos de nascimento e morte de Sigmund Freud em "Memória pode ser... (Ciência, pág. A23);

2) Exemplar o material sobre clonagem humana, à pág. A24.

3) Quadro em Esporte (pág. D2) avança muito na elucidação de como vai ficar a questão do passe no país. Ainda assim fiquei com uma dúvida que poderia ser resolvida numa edição mais próxima da data de entrada em vigor do novo sistema: o que é a "taxa de transferência"? O que um clube pagaria a outro para ter um jogador?

4) A propósito do "código de represália" contra rebelados (Cotidiano, pág. C1), não seria o caso de mostrar ao leitor quais são, afinal, os deveres e os direitos dos presos?

Sísifo

A Panorâmica "Gasolina no posto deverá..." (Dinheiro, pág. B6) incorre em erro primário ao escrever que "o preço da gasolina deverá ficar entre 3,2% e 3,7% mais barato...". Como afirma a pág. 123 do Manual da Redação (nova edição), "baratas ou caras são as mercadorias". O preço ou é alto ou é baixo.

Outro lado

O dossiê do BNDES sobre a situação financeira dos municípios (Cotidiano, pág. C11) tem tom oficioso. O estudo foi divulgado ontem justamente quando ocorria em Brasília o Congresso Brasileiro de Municípios (registrado em retranca à pág. C-12 para a qual, aliás, o dossiê não faz remissão na edição SP). Alguém desse Congresso deveria ter sido ouvido para rebater à apreciação do BNDES de que as cidades "reclamam de barriga cheia".

Acertos na CBF

Louvável a ousadia contida na análise "Acordo também pode ser útil às finanças de Pelé" (Esporte, pág. D1), mostrando os interesses empresariais do ex-jogador.

Ainda sobre CBF: a coluna de Ricardo Boechat ("Globo", pág. 20) informa que a AmBev vai assinar contrato de US$ 10 milhões com a seleção brasileira. Confere?

Enigma

Confesso que não entendi o título SHARON STONE em nota de hoje na coluna Mônica Bérgamo.

Enfermeiro da morte

Todos os grande diários menos a Folha deram ontem o caso da revisão da pena do auxiliar de enfermagem do Rio Edson Izidoro. O jornal deveria ter recuperado isso hoje. Seu leitor continua sem saber dessa informação referente a um caso de grande importância jornalística.

Serviço

Na retranca "Rezende discute..." (Ilustrada, pág. E5), o texto afirma que a exposição de Gustavo Rezende começa hoje. Já a ficha diz que é amanhã.

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