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Crítica diária

21 de março de 2001


BERNARDO AJZENBERG


Nada imprevisto nos destaques de hoje: afundamento da P-36 (manchete da Folha, "Globo" e "JB"), assunção de Cavallo na Argentina (manchete do "Estado") e saída de Herbert Vianna do hospital. "Estado" entra na questão do lixo paulistano. "Globo" dá sequência à série sobre a LBV.

Esquizofrenia

1) Caso Herbert Vianna, corretamente destacado com foto na Primeira Página, recebeu uma tripa horizontal na pág. C8 (na edição Nacional o destaque dentro foi maior);

2) Chamada sobre o caso Alexandre recebeu uma tripa vertical na pág. C9.

3) Furo da capa de Esporte ("Clube dos 13 encobriu irregularidade na JH") não teve nenhuma menção na capa do jornal.

Tendências? Debates?

Diz o cabeçalho na pág. A3 que a publicação de artigos "obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo". Os artigos de hoje estão muito distantes disso. "Por ruas mais civilizadas" é uma propaganda disfarçada da prefeitura do PT; "Eu acuso", de Ricardo Sérgio, pode ser tudo, menos algo próximo do que o cabeçalho prega. A propósito desse último texto, a notícia que ele traz, de ter ingressado com queixa-crime contra ACM, consta do Painel (pág. A4).

Equidade

A demissão do foneticista Ricardo Molina da Unicamp semanas atrás foi noticiada com destaque pelo jornal (em três ou quatro módulos, se não me falha a memória). A ordem da Justiça (liminar) para que ele seja reintegrado saiu hoje num colunão.

Amadorismo

Entendo muito pouco de máquina fotográfica, mas os olhos vermelhos das moças em foto da pág. A6 sugerem amadorismo.

Sudene e/ou Sudam

"Pressionado, governo recua..." (Brasil, pág. A6) afirma que o governo voltou atrás a respeito da extinção das autarquias. O texto não se aprofunda em relação à Sudam, o que me faz ter dúvida se o recuo não se deu apenas no caso da Sudene. A reportagem do "Estado" sobre o assunto vai nessa linha. A conferir. A propósito: até para não ficarmos prisioneiros da guerra ACM/Jader, não seria o caso de uma apuração a fundo, pelo jornal, das irregularidades na Sudene também?

Lobby da Calha Norte

O registro de que o repórter viajou a convite do governo, embora importante, não compensa, em "Defesa da fronteira..." (Brasil, pág. A12), a aparência de uso do jornal por uma espécie de lobby do ministro da Defesa, Geraldo Quintão, em sua batalha por mais verba. Esse efeito fica mais reforçado pelo fato de que no domingo a Folha publicou reportagem praticamente igual à de hoje. Não fosse o tal convite, teria a Folha dado todo esse destaque ao assunto?

Sobrando papel

Mais da metade da retranca "Iranianos comemoram Ano Novo..." (Mundo, pág. A15) se dedica a dar detalhes dos rituais de festejo da data. Se fosse uma retranca de apoio em alguma reportagem especial ampla sobre o assunto, ainda vai. Mas aqui há uma evidente desproporcionalidade.

Naufrágio na Petrobrás

Duas observações sobre a cobertura, que no conjunto me pareceu no mesmo nível que a dos concorrentes:

1) Não vi no jornal a informação de que Reischtul irá depor sobre o assunto no Senado na próxima terça-feira (noticia o "Globo");

2) Detalhe: acho precipitado o jornal assumir a versão de que todos os funcionários mortos faziam parte da brigada de incêndio que tentava apagar as chamas após a primeira explosão ("Petroleiros planejam...", pág. C4). Já li que parentes contestam essa informação.

Lixo

Em "Líder do PT agora apóia criação de CPI" (Cotidiano, pág. C9), o lide não me parece ser esse que virou título. A notícia, acredito, está nos dois questionamentos feitos pelo vereador Salim Curiati: a) por que a prefeitura contratou novas empresas sob urgência em vez de utilizar o cadastro de empresas já existente e, segundo ele, em vigor? b) a empresa Construrban, contratada pela prefeitura, não recolhe ISS desde novembro do ano passado.

Argentina

1) Nenhuma retranca em Dinheiro, nem mesmo aquela dedicada ao seu perfil, traz a idade do novo ministro da Economia, Cavallo;

2) O título "Volta de ministro não impede greve" (pág. B1) não bate com o texto da notícia. Este, no final, afirma: "O que pode esvaziar a greve de hoje é (a) ausência da CGT oficial", que se acertou, segundo o texto, com o ministro. E então?

Criatividade demais

O título "Feiras têxteis mostram músculos no setor" (Dinheiro, pág. B11) é, no mínimo, bem esquisito.

Não custa explicar

A retranca "'Napster' ainda é opção..." (Informática, pág. F3) ensina a escapar do bloqueio imposto pela Napster ao acesso de alguns usuários do programa. Para o leitor não-especializado no assunto (como este ombudsman), a sensação é de que a Folha está estimulando a prática de pirataria ou contravenção na rede. É isso mesmo? Se não, se não existe nada de irregular ou ilegal nisso, faltou deixar claro no texto.

Igreja e Estado?

A reportagem de capa da Ilustrada, centrada na "polêmica" sobre a campanha publicitária do Festival de Teatro de Curitiba, simplesmente não mostra como é a tal campanha. Por sorte, há na contracapa do caderno um anúncio do mesmo festival. Vendo-o se entende o que está em questão --e que uma frase jogada entre aspas no lide do texto é da famigerada campanha. Estranho caso, este, em que o comercial esclarece o editorial.

Por falar em esclarecimento...

1) Edney Cielici Dias, do Programa de Qualidade, esclarece que, apesar de o Aurélio não registrar a palavra "revogamento", como apontei ontem, ela é dada como legítima pelo "Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa'' e considerada sinônimo de "revogação" pelo dicionário etmológico "De Morais". Acrescenta que a palavra é de uso corrente no meio jurídico.

2) Em resposta à dúvida exposta na crítica de segunda-feira (19), Cláudia Antunes, coordenadora de reportagem da sucursal do Rio, explica que "estruturas esbeltas" são estruturas de "diâmetro muito grande e espessura relativamente pequena". Como ela diz, o próprio entrevistado afirmava isso na entrevista, mas na edição do texto não ficou claro que se tratava de uma explicação para o termo.

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