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Crítica diária

2 de abril de 2001


BERNARDO AJZENBERG


Os destaques jornalísticos mostram que o fim-de-semana foi politicamente favorável a FHC na mídia. No assunto Alca, o presidente apareceu como defensor brioso dos interesses brasileiros frente aos EUA; a reunião da cúpula do PSDB, como ele desejava, adiou definições de candidatura e definiu uma "ofensiva" para mudar a imagem do governo; a Folha, no domingo, trouxe reportagem que golpeia o combalido dossiê Caribe; e a revista "Época", embora de modo superficial, mostrou como age o pessoal que negocia grampos.


Edição de sábado, 31 de março


Munição comum

"Israel mata 6 palestinos durante protestos" (Mundo, pág. A16) afirma que "...em torno de 50 pessoas ficaram feridas em confrontos contra as tropas de Israel, que chegaram a usar munição comum". Duas observações:

1) "confrontos contra..." é um pleonasmo, certo?

2) "chegaram a usar..." só faria sentido se as tropas tivessem usado armamento não-comum. O mesmo texto registra que a nova Intifada começou em setembro e que Sharon foi eleito premiê em fevereiro. Como não se diz o ano, quem não acompanha de perto o assunto tende a achar que Sharon foi eleito em fevereiro do ano passado (e não deste ano).


Qual é a meta?

Em nenhum momento a reportagem "BC já admite que inflação vai superar meta" (Dinheiro, pág. B1) informa que a meta de 4% tem uma margem de dois pontos para baixo ou para cima. Isso está apenas de passagem em uma retranca menor da pág. B4 ("De olho na meta anual, BC não..."). Se entendo bem, é dado relevante para a configuração de um quadro completo sobre a situação inflação versus meta.


Zoológico

Tudo bem que quanto mais foto no jornal melhor. Mas está exagerada a quantidade de fotos absolutamente frias de ovelhas européias para ilustrar textos sobre febre aftosa, doença da vaca louca etc. A da pág. B10, em Dinheiro, por exemplo, caberia em livros didáticos, talvez, mas não num jornal em tese quente e do porte da Folha.


PT ou prefeitura?

É parcialidade o uso da sigla PT no título "Contra a lei, PT vai desviar verba de multa" (Cotidiano, pág. C1). Leitores reclamam, e com razão. Não dá para confundir a administração com o partido. O problema se repete na edição de domingo (ontem), também em Cotidiano, com o título "PT se diz impotente contra quebradeira" (pág. C3). Um leitor pergunta: "...então quem se encontrou com o presidente americano? Foi o PSDB?"


Edição de domingo, 1 de abril


Falso e ponto final

1) Soa estranho o tom peremptório da reportagem "Extrato de US$ 352,9 mi é falso, diz banco na Suíça" (Brasil, pág. A4). O título, como se vê, tenta atenuar, mas o texto se esforça claramente para enterrar qualquer possibilidade de que a informação dada pelo banco não seja a definitiva. Por que o banco não poderia estar mentindo? O leitor da Folha aprendeu com os próprios repórteres do jornal a duvidar de tudo...

2) No quadro à mesma página, "carimbos" mostram o que é "verdadeiro", "falso" e "não comprovado" dentre os documentos do dossiê. Faltou o "carimbo" referente ao documento da "criação oficial da empresa" CH,J&T. Ele é o quê?


Didatismo

Faltou explicar o que são "matas ciliares" no texto "Serviços ambientais ganham o mercado" (Ciência, pág. A22).


Coloquialismo

Dois títulos me parecem extrapolar o uso de coloquialismo no jornal: "Pacote argentino dá um tranco no Brasil (Dinheiro, pág. B1) e "Aplicação em boi gordo pode ir para o brejo" (Folhainvest, pág. B10, edição de hoje, segunda-feira).


Eduardo Jorge

"Estado" e "Veja" noticiam que o ex-assessor de FHC decidiu processar Schelb e Luiz Francisco depois de ler semana passada as páginas das investigações feitas pelos procuradores. Não vi isso na Folha.


Legenda pobre

Na foto da capa de Esporte, Barrichello segura no ar o que parece ser a direção do carro. É uma foto diferente. No mínimo por esse motivo, a legenda, em vez de ser qualitativa ("O brasileiro... que, com uma Ferrari, é a maior esperança para encobrir problemas extrapista na semana pré-GP") deveria descrever o que ele tem na mão.


Teste ou gozação?

É boa a pauta da revista, "Pega na mentira". Mas o teste sugerido ao leitor ("Quando você mente?") não é, na verdade, um teste. É uma brincadeira. Como a revista frequentemente cria pautas que podem contemplar também um lado jocoso, seria importante que, na edição, uma coisa (séria) ficasse claramente diferenciada de outra (divertimento) para o leitor.


Edição de segunda-feira, 2 de abril


Frieza versus calor

"GP das barbeiragens", "GP maluco" -assim o caderno de Esporte trata em títulos a corrida de ontem. A Primeira Página, no entanto, traz uma chamada fria e protocolar. O "clima" da corrida deveria estar refletido na capa do jornal.


Banco Nacional?

A retranca "Tucanos querem limpar imagem" (Brasil, pág. A5) afirma a certa altura: "Para Gregori, o fato de o presidente Fernando Henrique Cardoso ter permitido a intervenção no banco Nacional é prova de que o PSDB está credenciado a se intitular o "partido da ética"." Pergunto: que intervenção é essa? Quando aconteceu? De que se trata? O texto não explica nada.


Vai para Haia ou não vai?

O material sobre a prisão de Milosevic (Mundo, pág. A10) noticia que o ex-ditador iugoslavo só poderá ser extraditado para julgamento por crime de guerra em tribunal internacional se o parlamento votar uma lei que possibilite a deportação. Faltou informar o leitor, então, sobre a composição política do parlamento, ou seja, sobre quais possibilidades concretas existem de isso (a extradição, a partir de nova lei) de fato ocorrer.


De olho no leitor

1) Faltou um mapa para localizar o túnel encontrado pela polícia perto do Complexo do Carandiru (Cotidiano, pág. C3).

2) Ilustrada traz na capa dicas de filmes que merecem ser vistos na mostra "É Tudo Verdade", que começa hoje. Não há, porém, nenhum serviço (onde, quando, preço etc).


Fundos derivativos

O quadro sobre os ganhos das diversas formas de aplicação (capa do Folhainvest) registra -0,38% para os fundos derivativos. No texto, o percentual dos mesmos fundos é -0,27%. Qual é o correto?


Fundamentalistas versus grafistas

"Analistas dizem que mercado deve cair mais" (Folhainvest, pág. B5) traz projeção pessimista de analistas "grafistas" em relação à aplicação em ações. Já a retranca "Cenário indefinido aumenta o risco de ações", embaixo, é uma espécie de "outro lado": a visão dos "fundamentalistas". Por isso, seu título, em vez de alimentar, como faz, a idéia antibolsas, deveria relativizá-la. Algo do tipo: "Quadro não é tão negro, afirma diretor".


Registro

Muito barulho se fez no início da semana passada com a internação de ACM no hospital Aliança, de Salvador. Segundo Ricardo Boechat, hoje no "Globo", o senador esteve sábado último no Incor para "exames de rotina". Terá sido apenas isso?

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