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Crítica diária

4 de abril de 2001


BERNARDO AJZENBERG


As apostas dos principais diários hoje são todas diferentes. A Folha privilegia a alta do dólar ("Perdas nos EUA levam dólar a mais um recorde"). O "Estado" dá como manchete "Corte do Judiciário fica R$ 33 milhões abaixo do pedido". O "Globo" destaca operação do governo contra alteração nas tabelas do IR: "Governo impede correção do IR com ameaça de corte de verbas". Já o "JB" dá duas manchetes cujos sujeitos são um só: "Governo já tem um plano para o racionamento de energia elétrica" e "Governo legalizará casa de favela".


Vitrine

Como vitrine do jornal, a Primeira Página de hoje deixa a desejar em termos de capricho no texto. O texto-legenda "Arma biológica" traz dois "ques" num único período de modo totalmente dispensável. O mesmo descuido aparece na chamada "Plataforma acidentada não foi fiscalizada", a qual repete o verbo "passar", também num só período: "A plataforma P-36 da Petrobrás, que afundou na bacia de Campos (RJ), não passou por fiscalização da Agência Nacional do Petróleo desde que passou a operar".


"Pastel"

Aparentemente há um "pastel" no quarto parágrafo da retranca "Fala de FHC inclui meias verdades" (Brasil, pág. A4): "Os números telefônicos relacionados nos extratos bancários (?) da companhia telefônica dizem respeito a quatro linhas fixas e outras cinco celulares, no período de 95 a 98". Números telefônicos em extratos bancários? Alguma coisa está estranha aí.


Judiciário x Executivo

Ao tentar explicar a divergência entre o governo e o Judiciário no corte de verbas com vistas a cumprir a LRF, o texto "Judiciário anuncia corte de R$ 45,5 milhões em gastos" (Brasil, pág. A6) cria confusão. Afirma que, diferentemente da área econômica, o Judiciário fez cálculos considerando o orçamento do Executivo já emendado (portanto, maior do que o original) e que isso alterou a proporcionalidade. Como? De que modo isso tem a ver com o número agora definido para corte? Não deu para entender.


Bases? Que bases?

O senador Suplicy "está promovendo uma consulta às bases durante este mês" para definir se mantém ou não sua pré-candidatura a presidente. É o que se lê em "Lula deve mudar comportamento..." (Brasil, pág. A7). Além de ser um jargão indesejável, trata-se obviamente de uma inverdade. Correto seria escrever algo na linha do que fez o "Globo", segundo o qual o senador "pretende fazer uma consulta informal a segmentos do partido". São coisas bem diferentes.


Números conflitantes

A retranca principal da reportagem sobre a invasão da fazenda Renascença pelo MST (Brasil, pág. A8) informa que, segundo a PM, o número de acampados vai de 200 a 250 e que, segundo o MST, esse total é de 600. Na sub-retranca "Arsenal do MST tem pedras e cobras", sem se referir aos outros números, a repórter noticia que os invasores são "cerca de 400". Foi mesmo possível contar?

Outro detalhe: ora se diz que a área invadida fica "a pelo menos 150 metros da cerca...", ora que fica "a pouco mais de 100 m...". Os textos continuam a se referir ao Incra sem decifrar o nome. Puro descaso.


Avião na China

Mundo traz na pág. A9 uma arte mostrando como é por dentro o avião de espionagem dos EUA retido na China. É a mesma arte publicada no "Estado". Algumas diferenças:

1) Ao contrário do concorrente, a Folha não dá o crédito ("Graphic News").

2) O compartimento que a Folha afirma ser uma "cabine com assentos e beliches retráteis" é, na arte do concorrente, a cozinha.

3) Segundo a Folha, o comprimento da aeronave é 32,3 m; pelo concorrente, é 31,7 m.

Enquanto isso, o texto de abre ("Bush diz que...) repete de modo prolixo em duas oportunidades que a China exige dos EUA admissão de "total responsabilidade" pelo incidente e que só libertará os tripulantes do avião após um pedido de desculpas de Bush.


Cavallo recuou ou não?

O texto "Ajuda à Argentina tem limite..." (Dinheiro, pág. B4) afirma: "Segundo reportagem publicada pela Folha ontem, Cavallo estaria disposto a rever quais produtos terão a alíquota reduzida". Ora, por que toda essa cautela e esse tom genérico? A reportagem de ontem foi bem enfática e precisa: o governo argentino recuou e "vai voltar atrás na decisão de incluir bens de informática em sua lista de materiais...". Esse foi, aliás, um furo da Folha ontem. Estava errado?


Prejuízo do UOL

Apesar da publicação de balanço com quatro páginas hoje, não vi na Folha nenhum registro jornalístico sobre os resultados do UOL em 2000. Segundo nota publicada ontem pelo "Estado", houve prejuízo de "mais de R$ 100 milhões". Confere?


Quarta empresa...

Interessante a reportagem de capa de Dinheiro sobre falhas na questão do sigilo bancário por causa da terceirização. Na arte, notei um pequeno erro. No item 5, fala-se de uma "quarta" empresa, quando na verdade se trata da "terceira" empresa na cadeia da compensação. O nome "terceirização" vem de se passar para "terceiros" determinado serviço, e não de se usar uma terceira empresa. Certo?


De olho no leitor

"Dólar bate recorde com quedas nas Bolsas" (Dinheiro, pág. B11). Aqui e na chamada da manchete do jornal, não dá para entender a relação entre uma coisa e outra. Por que a queda nas Bolsas americanas faz aumentar o dólar? Pelo senso comum, não deveria ser o contrário, já que essa queda refletiria uma perda de "poder" da economia americana? Faltou mostrar como as coisas acontecem.


TV digital

A reportagem "Novela da TV digital..." (Ilustrada, pág. E4) revela o recuo da Globo e o estágio da discussão sobre a implementação da TV digital no país. A polêmica se dá em torno do padrão tecnológico a ser definido. Vejo dois problemas:

1) Não fica claro qual é a diferença entre os padrões;

2) ouvem-se no box os americanos e os europeus, mas não se traz o "outro lado" do padrão japonês, considerado preferido pelas emissoras, segundo a própria reportagem.

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