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Crítica diária

11 de abril de 2001


BERNARDO AJZENBERG


Sem dúvida a notícia mais relevante de hoje está no relatório da ONU sobre a situação dos presídios e delegacias brasileiras, com destaque para a prática de tortura. O assunto é manchete na Folha ("Brasil não cumpre lei antitortura, afirma ONU") e no "JB" ("Brasil cultiva cultura da brutalidade"). O "Globo" deu uma chamada de uma coluna e o "Estado" escondeu o assunto numa pequena "bandeira" ao pé de sua capa.


Folha na onda de Babá

1) Estava evidente pelo menos desde anteontem que a CPI da Sudam tinha reduzidíssima chance de aprovação. A Folha, no entanto, embarcou na onda dessa improvável CPI salvadora. Estava mal-informada, ou melhor, deixou-se levar por dados incertos divulgados pelo deputado Babá (PT-PA). Na segunda-feira, o texto afirma: "O pedido de CPI da Sudam tem mais de 250 assinaturas, mais do que o mínimo necessário para a sua criação". Ontem, terça, a reportagem afirmava: "O PT obteve as assinaturas necessárias para pedir a CPI e as adesões suficientes para votar a proposta em regime de urgência na Câmara...". Hoje o jornal é obrigado a registrar que "o deputado Babá recolheu 263 assinaturas (para tramitação em urgência), mas apenas 242 foram consideradas válidas. Na lista estavam 16 deputados que se licenciaram e 5 assinaturas eram repetidas". Por isso a "urgência" foi arquivada, enterrando, na prática, a comissão. Ora, para falar de modo claro: intencionalmente ou não, o deputado Babá cometeu, objetivamente, um blefe. E a Folha caiu. Na verdade, teria sido simples evitar isso. Bastaria duvidar um pouco dos dados e, pelo menos, atribuir claramente ao deputado as informações. Não foi o que fez o jornal, que, ao contrário, assumiu-as como fato.

2) Ainda no caso Sudam, como um todo, insisto: falta o "outro lado" de Jader Barbalho.

3) Atenção: o "Valor" traz hoje reportagem segundo a qual os desvios na Sudene já se equiparam, em valor, aos apurados na Sudam.


Se deu no NYT, é bom?

O texto "Sem um líder absoluto, China chega ao impasse" (Mundo, pág. A11), traduzido no "The New York Times", é um desastre. Refere-se ao "Ocidente" desse modo genérico e completamente ideologizado; afirma que o presidente Bush, ao contrário dos governantes chineses (atados por uma burocracia heterodoxa), "pode agir de modo unilateral nesse tipo de caso" (conflito diplomático), quando é óbvio que o presidente americano está submetido a inúmeras pressões internas e tem de agir de acordo com o jogo entre elas.

Por fim, um parágrafo ininteligível (falha de tradução?): "Na raiz do problema está o sentimento de que o orgulho nacional foi ferido, o que já ocorreu no passado, entretanto não deve acontecer novamente".


Globalização

O texto "Após uma década de reformas..." (capa de Dinheiro) traz, corretamente, um enfoque diferenciado para o relatório do Bird divulgado ontem sobre a economia mundial. Ressalta um aspecto importante (nos últimos dois anos saiu mais capital do que entrou nos países em desenvolvimento).

Faltou, no entanto, informar os dados globais (PIB mundial, dados sobre poluição etc), para que o leitor tenha a informação completa do relatório. Além disso, não deu para entender o quadro. Os totais de saídas e entradas não aparecem na tabela dos fluxos. Fica uma confusão (ao menos para o leigo) entre os conceitos de "fluxo" e o de "saídas e entradas".


Caiu ou subiu?

O titulo "Pesquisa aponta queda nas vendas nos EUA" (Dinheiro, pág. B3) não bate com o texto, segundo o qual "as vendas no varejo... subiram 0,4% em março". Na verdade, houve um aumento nas vendas menor do que o esperado (que era de 1,4%), mas não uma queda.


Escalação no porto

A celeuma da greve dos estivadores de Santos girou em torno da escalação dos trabalhadores para exercerem suas funções. Mesmo com o fim da greve, o porto ficou ontem mais um dia emperrado por conta disso, como noticia texto à pág. B5 (Dinheiro). Até agora, porém, não foi possível entender qual é, afinal, a dificuldade para se conseguir isso? Como funciona a tal escalação? Por que é tão complicado? A Folha deveria tentar mostrá-lo ao leitor.


Capacidade do gasoduto

Segundo a reportagem "SP tem mais gasolina adulterada..." (Dinheiro, pág. B6), a capacidade diária de transporte do gasoduto Brasil-Bolívia é de 30 milhões de m3. A coluna de Luis Nassif afirma que essa capacidade é de 20 milhões de m3. Qual é o número correto?


Datafolha, Alca, UE

"Acordo com EU traz mais ganhos..." (Dinheiro, pág. B6") mostra estudo da FGV sobre vantagens e desvantagens da opção brasileira entre Alca e União Européia. Não está na hora de o Datafolha fazer uma pesquisa entre empresários brasileiros, inclusive divididos por setor, para ver qual é a sua posição?


Outro lado

Faltou o "outro lado" no texto "ANS determina o bloqueio de bens de 15 ex-diretores da Unimed SP" (Dinheiro, pág. B11). Nenhum deles foi ouvido.


Lixo futuro ou lixo presente?

O texto "Manobra do PT barra comissão sobre o lixo" (Cotidiano, pág. C9) afirma que projeto aprovado cria uma comissão que deverá estudar apenas "alternativas para futuros contratos" e não a situação atual. Já o sobretítulo fala que a proposta aprovada "limita discussão de contratos futuros". Além desse problema, tive de ler o concorrente local, o "Estado", para entender a "manobra" a que se refere o título, pois o texto da Folha não mostra como foram as votações.


Falta de sensibilidade

Um bebê de 5 meses foi atirado pela janela do terceiro andar de um prédio de classe alta (ou média-alta) em Pinheiros. A mãe foi detida pela polícia. Um vizinho assistiu tudo. Um drama, um caso "humano" como esse, que se liga, inclusive, diretamente à classe social de grande parte do leitorado da Folha, mereceu um tratamento absolutamente relatorial, frio, taquigráfico, burocrático ("Mãe é acusada de jogar bebê do 3o andar", Cotidiano, pág. C11). Além disso, não dá para entender por que os nomes estão todos escondidos por trás de iniciais (seria por se tratar de classe "superior" e não de uma família de favelados?) Exemplar é a frase: "O marido de C. e pai da criança morta, E.F., não estava no apartamento quando T. foi jogado da sacada. Ele aparentava estar transtornado". Esse é um típico caso que merecia um texto mais trabalhado, ainda mais tendo sido -até onde pude averiguar-furo da Folha (ou do "Agora", que tem o crédito do texto).


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Em razão do feriado da Semana Santa, a crítica interna não circulará amanhã e na sexta-feira.

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