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18 de abril de 2001
BERNARDO AJZENBERG
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Como não poderia deixar de ser, o depoimento de ex-diretora do Prodasen envolvendo ACM e o senador José Roberto Arruda na violação do painel de votação do Senado é a manchete dos principais jornais. Na comparação das capas de hoje, o que mais chama a atenção, no entanto, é a ausência, na Folha, de chamada para o relatório do IBGE sobre municípios (está timidamente na capa da edição Nacional, e não há nada na da edição SP).
Como procurarei expor abaixo, isso não ocorreu por acaso.
A violação
Agrava-se a crise no Senado. Jader ganhou respiro, mas por um dia. Tudo indica que, a partir de agora, com o nome de Arruda em cena, o cerco vai se fechar mais próximo do Planalto/FHC. Cinco observações sobre a cobertura:
1) A inclusão do senador Arruda na questão da violação do painel não deveria surpreender ninguém. A "Isto É" antecipou -e com destaque-- esse envolvimento na sua penúltima edição. A ex-diretora do Prodasen, segundo a revista, foi nomeada por ACM por indicação de Arruda e de César Borges (afilhado político do senador baiano). Ninguém -nem a Folha-foi atrás;
2) Não dá para entender nada do item 4 do texto "ACM e tucano planejaram violação, diz ex-diretora" (Brasil, pág. A5). Ao contrário de todo o noticiário e dos três itens iniciais, ele afirma que os funcionários "Regina e Ledur negaram à comissão do Senado qualquer tipo de violação" e sua participação no caso. Mas tudo não está baseado nos depoimentos, principalmente dela?
3) Faltou ouvir o cassado Luiz Estevão, bem como mostrar ao leitor como ficam as chances de este ser reintegrado ao Senado caso se confirme definitivamente a violação do sigilo da votação que o cassou;
4) Como ficam, também, as chances de cassação, agora, dos mandatos de ACM e de Arruda? Seria isso cabível se comprovada a falta de decoro parlamentar por parte dos dois? Qual seria o processo regimental para tanto?
5) E as possíveis punições para os funcionários do próprio Prodasen envolvidos na execução do plano? Quais poderiam ser?
Defasagem de edição
Ao mesmo tempo em que a retranca "Polícia prende empresário ligado a Jader" (Brasil, pág. A7) registra a prisão de José Osmar Borges, outra retranca ("Dois escritórios de lobby...", Brasil, pág. A8) ainda o traz como foragido. A mesma defasagem aparece na retranca "Juiz bloqueia bens..." (pág. A8), que, sobre o empresário, diz apenas que ele "teve sua prisão preventiva decretada esta semana". Não teria sido possível consertar esses erros irritantes, ao menos na edição SP?
Outro problema: o "Estado" traz foto de José Osmar sendo preso em Cuiabá.
Por que a Folha não tem essa foto, sendo ele um dos personagens mais destacados no noticiário do caso Sudam?
Ainda sobre Jader: ao contrário do que afirma o senador, o relatório do BC sobre o Banpará a ser encaminhado ao procurador-geral Geraldo Brindeiro cita, sim, seu nome e o de sua mulher. Li apenas no "Globo".
Sudene na moita
A Folha deve ter tirado alguma lição do caso Sudam, cujo rombo bilionário e crescente surpreendeu. A matéria "Corregedora recebe denúncia contra Finor" (Brasil, pág. A8) traz números impressionantes de desvio no âmbito da Sudene. A CPI, diz o texto, já constatou desvio de R$1,4 bi. Esse caso pode chegar a Tasso Jereissati, passando por ACM e outros políticos bem próximos do Planalto. Por que está tão reduzido o noticiário a respeito dele?
Acabamento desleixado
O que vem a ser a vinheta ilustrativa da retranca "Cúpula das Américas" (Brasil, pág. A11)? É o logotipo desse encontro, que começa daqui a dois dias? É um selo ou algo do gênero? Solto, sem crédito nem explicações, parece obra do acaso.
Endógena ou exógena
O editorial "Cesta diagonal" e a coluna de Luis Nassif relacionam a proposta argentina de introdução do euro na cesta cambial com a política adotada anos atrás no BC. O primeiro, porém, a chama de "banda cambial endógena"; o segundo, de "banda cambial exógena". Qual é o certo?
Irmão? Tio? Primo?
A Folha anuncia que o ministro Marco Aurélio de Mello será eleito hoje presidente do STF. Ao traçar seu perfil polêmico, afirma que ele tem parentesco com o ex-presidente Fernando Collor. Qual é o parentesco? Não se informa. O texto também não informa, aliás, quem estará deixando o cargo.
Sem charme 1
A proibição do Merthiolate (Cotidiano, pág. C1) é histórica. Como diz a retranca "Saiba quais são os substitutos..." (à mesma pág.), "quase não há armário de banheiro que não contenha um vidro de Merthiolate". Então, por que a Folha não convocou um de seus vários colunistas literatos para fazer uma pequena crônica sobre isso? É em ocasiões como essa que o jornal pode apresentar algo mais criativo e saboroso para o leitor.
Sem charme 2
A separação do casal Suplicy ainda rende, e a Folha não está sabendo cuidar bem dela. Hoje, o "Globo" traz declarações do franco-argentino Luis Favre, que teria sido um dos motivos da crise do casal -personagem este, diga-se, "descoberto" pela Folha. O "Agora" também traz texto sobre ele. Bacana a foto da Folha com o presente dado pela senadora Heloísa Helena a Eduardo, mas é bem insuficiente.
Foco equivocado
Os principais jornais abrem o material sobre os dados do IBGE relativos aos municípios do país com o impressionante dado de que cerca de 30% das cidades brasileiras possuem favelas. Esse número nem sequer consta da reportagem da Folha a respeito do trabalho, em Cotidiano. O jornal destaca a falta de cinemas, museus etc e a ausência de IPTU em vários municípios.
Parece-me evidente que não poderiam ser esses os pontos principais de um relatório tão amplo, que mereceu nada menos do que cinco páginas do "Globo". Só pode ser por isso -leitura desfocada-- que a Primeira Página ignorou o assunto na edição SP. O ideal, dada a amplitude da pesquisa, seria voltar a falar dela e de aspectos que ficaram ausentes na edição de hoje.
Leia críticas anteriores:
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16/04/2001
11/04/2001
10/04/2001
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