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Crítica diária

19 de abril de 2001


BERNARDO AJZENBERG


Com exceção do "JB", as capas dos jornais hoje ficaram dentro do previsível para quem assistiu aos telejornais ou acompanhou o noticiário pela internet ontem. Folha: "Juro cai nos EUA e sobe no Brasil"; "Globo": "Juros caem nos EUA mas voltam a subir no Brasil"; "Estado": "Taxa de juros cai nos EUA e sobe no Brasil". O "JB", em rara capa monotemática, traz o grande furo do dia: depoimento exclusivo e contundente da ex-diretora do Prodasen Regina Borges.


Painel violado

1) A entrevista de Regina Borges ao "JB" confirma o que de essencial já se havia noticiado, mas acrescenta elementos e detalhes que podem servir para que a questão não se limite ao confronto entre a palavra do senador e a palavra da funcionária. Ponto para a "nova gestão" do jornal.

2) A Folha não informa nada sobre o encontro (dois, na verdade, segundo o "Estado") ocorrido entre FHC e Arruda ontem. Deixou de trazer algo que o "Globo" mostra: a contundência que FHC teria demonstrado a Arruda em reunião no sentido de que o melhor seria ele se afastar da função. "A informação é que o presidente não teria deixado a Arruda outra saída a não ser abandonar o cargo", diz o diário carioca. Em vez de se aprofundar no que teria ocorrido no(s) encontro(s) entre os dois, a Folha mostrou apenas a versão evidentemente inverossímil do senador: "Arruda afirma que recebeu total apoio" (Brasil, pág. A4), diz o título da única retranca que trata dessa reunião.

3) Não vi na "Folha" a informação de que ACM já foi advertido formalmente uma vez (está no "JB"), fato que complica a sua situação no processo de cassação.


Um grande "laranjão"?

A julgar pela dimensão de suas contas, revelada hoje em "Empresa de Borges movimentou R$ 209 mi" (Brasil, pág. A10), o empresário amigo de Jader Barbalho mais parece um "laranja" de grande porte. Essa talvez seja a meta a perseguir, pois, se é "laranja", é "laranja" de alguém. A propósito, o texto dessa reportagem explica bem, afinal, os cálculos para se chegar a quanto foi desviado por ele da Sudam (que são, em síntese, "mais de R$ 100 milhões"). O jornal deveria aproveitar a oportunidade para uniformizar esse dado, já que na mesma página outras duas "versões" são dadas ("cerca de R$ 100 milhões" e "R$ 100 milhões").


Sudene (ainda) na moita

Soa cômica, em meio à alta temperatura do noticiário de crise política (Senado e Sudam), a retranca "Sudene prevê seca severa este ano" (Brasil, pág. A12). Não causaria esse efeito se fosse editada com o material sobre energia elétrica, em Dinheiro, cuja manchete de página é "Racionamento no Nordeste é inevitável" (pág. B14).


EUA versus China

Ao pé da reportagem "Fracassa encontro entre EUA e China" (Mundo, pág. A15), o texto, da "Reuters", informa que o embaixador americano em Pequim, Joseph Prueher, será trocado por um amigo do presidente Bush. O curioso, aqui, embora o texto não diga, é que o tal embaixador foi elogiadíssimo pela Casa Branca na condução da crise dos choques entre aviões. Qual o motivo, então, da troca? Vale a pena ir atrás.


Juro menor ainda

Afirma o jornal que a taxa de 4,5% para os juros básicos decidida ontem pelo banco central dos EUA (Fed) é a mais baixa desde os 4,75% de outubro de 98. A julgar pelo gráfico de evolução que o próprio jornal traz (Dinheiro, pág. B5), na verdade pelo menos desde dezembro de 96 não havia uma taxa tão baixa. Se se voltar mais no tempo (o gráfico pára por aí), o fenômeno talvez se mostre ainda mais interessante.

Nesse ponto, algo parece contraditório. A arte da capa do caderno afirma que "o nível de utilização da capacidade na indústria ainda é o menor em oito anos". Enquanto isso, ao pé de sua análise, texto do "Financial Times" (pág. B5) diz que a economia americana "continua operando perto dos seus limites de capacidade". Como ficamos?


O quer quer Cavallo, afinal?

Dinheiro republica hoje arte didática sobre "A proposta de Cavallo para a cesta de moedas". Ela se baseia na cotação do euro a US$ 0,89, e mostra como na prática haveria desvalorização do peso. Ocorre que o ministro argentino tem dito que o mecanismo só valerá quando o euro for igual ao dólar. De duas uma: ou Cavallo está querendo enganar todo mundo (e o jornal precisaria revelar isso), ou a Folha ainda não explicou bem, afinal, o que ele pretende. Como ficariam as coisas para o peso no caso da paridade 1 a 1 entre essas duas moedas? O que mudaria? Falta mostrar isso.


Os municípios e o IBGE

O editor de Cotidiano, Nilson de Oliveira, por intermédio da SR, envia a seguinte contestação à nota "Foco equivocado" da crítica de ontem:

"1) Se o ombudsman procurar ler atentamente a edição de 7 de janeiro, verificará que a ampliação do processo de favelização das áreas urbanas do país já era de conhecimento do leitor da Folha. Naquela oportunidade, o jornal, em sua manchete, afirmou: "Brasil ganha 717 favelas em 9 anos, revela IBGE".

2) A reportagem exclusiva que serviu à manchete baseava-se no confronto de dados do Censo 2000 (contagem populacional) com os de 1991.

Todos os municípios do país participam desse estudo. Isso significa informações mais atualizadas e mais precisas do que as divulgadas pelo IBGE na última terça-feira, elaboradas a partir de questionários respondidos por 4.529 prefeitos em 1998 (existem 5.506 municípios no país).

3) Se o ombudsman recorrer ao Banco de Dados, verificará que o tema foi amplamente discutido na edição de 7 de janeiro.

4) A única falha na reportagem da última quarta-feira foi não ter feito referência a esse assunto. De qualquer forma, esses dados não são os mais relevantes do levantamento. A novidade da pesquisa concluída em 1999 é justamente a reproduzida na capa de Cotidiano, ou seja, que a maioria das prefeituras brasileiras (que vivem chorando a falta de verbas) ignoram a cobrança do IPTU.

5)Em resumo, o problema não é de "foco equivocado" ou de "leitura desfocada". Talvez seja falta de memória recente da produção do jornal".

Penso o seguinte:

1) A edição de 7 de janeiro ocorreu nada menos que 100 edições atrás. Usá-la como argumento para dizer que o dado da favelização já é conhecido do leitor da Folha é negar o esforço que o jornal faz há anos e anos no sentido justamente de sempre trazer à lembrança do leitor fatos que contextualizem, inclusive historicamente, uma notícia. O leitor tende a não se lembrar ou a desconhecer fatos que para os jornalistas possam parecer elementares.

2) a edição do dia 7 de janeiro mostra o crescimento do número de favelas, mas não traz, como o dado novo do IBGE (omitido ontem pela Folha), a porcentagem de cidades que possuem favelas no país (cerca de 30%). É irrelevante? Para o governo federal esse dado pode não ser tão "útil" quanto a informação de que os municípios é que não cumprem com suas atribuições (no caso o IPTU), mas talvez não seja esse o melhor raciocínio jornalístico.

3) ainda há tempo de corrigir, no jornal, a "única falha" admitida pelo editor, conforme o item 4 de sua contestação.

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