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29/05/2007

Navalha - Interesse público

MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br

Renan Calheiros qualificou de "destruição do Estado de direito" a cobertura jornalística que o senador diz considerar invasão à sua privacidade. Calheiros se refere às reportagens sobre a intermediação feita por um lobista de empreiteira para o pagamento de pensão.

A Folha deveria se pronunciar sobre as acusações do presidente do Senado. O jornal está correto, como o jornalismo em geral, em noticiar o caso, revelado pela revista "Veja".

Não há interesse público na vida afetiva do senador e de outros políticos. Há, porém, sobre a origem do dinheiro usado pelo presidente do Congresso para pagar pensão à mãe da filha que teve fora do casamento (ou seria pensão à filha?; o jornal não deixa claro).

A Folha deve seguir tão atenta às indagações que se mantêm no episódio não esclarecido como à preocupação de não expor a criança de menos de três anos de idade a holofotes dispensáveis, não recomendáveis e, às vezes, vetados por lei.

Navalha - Qual mulher?

O quadro "Perguntas sem respostas", na primeira página, indaga: "Por que ele mesmo [Calheiros] não dava o dinheiro à mulher em vez de recorrer ao lobista da Mendes Júnior?".

A jornalista Mônica Veloso, que o jornal tenha informado, não foi nem é a mulher do senador. Ela poderia ser chamada de qualquer modo, menos de "mulher" (talvez o mais elegante fosse "mãe da filha").

O mesmo quadro grafa "criançal" no lugar de "criança".

Chamada frustrante

De fato, às vezes algumas fotografias devem mesmo se impor na primeira página, mesmo que não haja maior importância do assunto (elas são escolhidas pelo aspecto estético ou inusitado). O que ocorreu hoje, contudo, é um exagero.

Texto-legenda de foto aberta em quatro colunas ("Frente a frente") mostra manifestação em uma cidade alemã. Chama para a pág. B7.

Em tal página, onde o leitor esperava encontrar informações que justificassem o destaque na primeira página, o jornal publica... novo texto-legenda, com as mesmas afirmações do TL da primeira.

A foto da capa, registre-se, não tem nada de especial.

Navalha - Velhos tempos

Não sei se seria o caso de publicá-la como a principal foto da edição, no alto da primeira página, como fez o "Estado", mas é uma pena que os leitores da Folha não tenham visto a imagem de Renan Calheiros abraçando seu antigo aliado Fernando Collor de Mello.

Navalha - Painel cortado

A primeira e mais destacada mensagem do Painel do Leitor é a mensagem de assessor de imprensa do prefeito de Uberaba. Deveria estar em Brasil, com declarações entre aspas (e não como carta). No PL, usurpa um espaço que deveria ser dos leitores.

Erramos - Demora excessiva

No dia 11 de maio, o ombudsman encaminhou à Redação a mensagem de um leitor apontando erro em texto da véspera, "CET vai monitorar trânsito no entorno do estádio do Morumbi". Em 14 de maio, enviei observação de outro leitor, sobre erro em reportagem do mesmo dia, "Cartel tinha anuidade e atuação global".

As duas correções só foram publicadas hoje.

Não basta corrigir, é preciso ser mais rápido. O leitor não merece esperar tanto para receber a informação correta.

Navalha - Quórum

A reportagem "'Todos os recursos foram meus', diz senador" (pág. A4) fala de "um plenário lotado em plena segunda-feira", mas não informa se tamanha audiência é comum. Dá a entender que não, mas o leitor não é obrigado a saber. O jornal deveria ser mais claro.

Navalha - verba pública

A Folha publica na pág. A5 nota oficial do governo do Maranhão, devidamente identificada como "informe publicitário". A nota merece atenção jornalística.

É legal e legítimo que o governador do Estado empregue dinheiro público para bancar nota que trata de defesa de pessoa física?

Como governador, Jackson Lago não poderia convocar entrevistas e usar outras formas de divulgação que não onerassem o Estado?

Quanto custou a nota publicada na Folha e no "Globo"? Saiu em outras publicações?

E em relação ao mérito da sua versão? O que o jornal tem a dizer aos leitores? O governador está certo ou apresenta contradições?

Navalha - Manual

Diz o "Manual da Redação" (Publi*Folha*, 2001) no verbete "Regionalismo" (págs. 96 e 97): "Evite palavras e expressões que tenham significado restrito a uma região ou que possam ter significados diversos em diferentes regiões do país". Um exemplo de "regionalismo paulista" elencado pelo "Manual" é a palavra "holerite", que deve ser substituída por "contracheque".

Não é o que ocorre hoje na legenda de fac-símile na pág. A6, na qual se emprega "holerite".

Navalha - Impedido?

A reportagem "Governistas falam em caso encerrado; oposição é cautelosa" (pág. A6) informa que o corregedor do Senado, Romeu Tuma, afirmou: "Senti que ele [Calheiros] tem documentos que comprovam que falou a verdade".

Tal declaração não pode resultar no impedimento de Tuma, firmando opinião antes de analisar o caso? O que outros senadores têm a dizer? Depois de tantas manifestações na semana passada sobre supostos "abusos" da Polícia Federal, eles consideram natural o corregedor antecipar a posição antes de conhecer os documentos?

Navalha - PF, a pauteira

É bom que a Folha tenha informações exclusivas, como hoje ("PF tem conversa de Renan com investigado por fraude", pág. A8).

O problema é que, até agora, o jornal tem se limitado quase somente a disputar a primazia na divulgação das investigações da Polícia Federal (as reportagens sobre o suposto esquema na Prefeitura de Mauá são boa exceção).

Seria importante a Folha avançar, investindo em apuração autônoma. A "Veja" deu um furo retumbante, sobre Renan Calheiros. O "Globo" está em Alagoas investigando o patrimônio do senador.

Navalha - Diz-que-diz

Hoje obra de colecionadores, o "Manual da Redação" de 1987 (leio a segunda edição, revista e ampliada) afirmava no verbete "Telefone" (pág. 123): "Um trabalho jornalístico que puder ser bem realizado por telefone prescinde do contato pessoal entre o jornalista e a fonte de informação".

Anti-jornalística e avessa à boa metodologia da reportagem, a orientação não sobreviveu nas edições seguintes. É claro que tudo que puder ser apurado em loco assim deve ser. O telefone apenas substitui mal a condição ideal de testemunha ocular.

O texto "Primo acusa senador de fazer manobra para ficar com fazendas" (pág. A8) parece uma típica peça da reportagem por telefone. Reúne declarações, sem esclarecer quais as informações e versões corretas.

Em vez de buscar documentos e investigar as fazendas, o jornal se contenta com o declaratório. Ainda é tempo de viajar a Alagoas.

Navalha - Foto errada

O que faz a fotografia da ministra Dilma Rousseff acompanhando a reportagem "PF tem conversa de Renan com investigado por fraude" (pág. A8)? Está certo que a ministra é citada, mas parece impróprio publicar sua imagem nesse espaço.

Navalha - Cifras contraditórias

O quadro "Atuação da Gautama" (págs. A8 e A9) afirma que, "segundo a PF, o então ministro Silas Rondeau teria recebido R$ 100 mil [...]".

Já o texto "STJ intima governadores do Maranhão e de Alagoas" (pág. A10) informa que "Rondeau saiu do ministério envolvido na investigação da PF pelo recebimento de R$ 10 mil em propina".

Qual a informação correta: R$ 10 mil ou R$ 100 mil? Se uma está certa, a outra está errada.

Navalha - Lista contraditória

O mesmo quadro citado acima diz que "a PF tem lista de congressistas elaborada a partir de papéis apreendidos na Gautama, mas que ainda não foi revelada".

Na pág. A10 se lê o texto intitulado "Lista de brindes da Gautama tem 225 nomes".

Seria a tal "lista de congressistas" "ainda não revelada"?

Em caso positivo, o quadro erra duas vezes ao falar em lista "ainda não revelada". A revista "Carta Capital" trouxe reportagem sobre o documento.

Navalha - No rastro das revistas

A Folha traz na pág. A9 o texto "Depois da Navalha, PF volta a investigar licitações na Bahia". O assunto (a Operação Octopus) foi capa da revista "Isto é".

A revelação sobre o "Caso Renan" foi capa da Veja.

Na pág. A10, o texto "Lista de brindes da Gautama tem 225 nomes" aborda furo de capa da revista "Carta Capital".

O jornal faz bem em não esconder informações dos leitores, mas seria melhor que também produzisse mais furos próprios.

Navalha - A lista

Não entendi por que o jornal não ouviu o "outro lado" com os políticos que supostamente seriam presenteados por brindes da empreiteira Gautama. É uma falha grave.

Também não entendi a ausência do nome de jornalistas que constariam da lista. A "Carta Capital" publica o de dois. A Folha não os identificou? Ou não considera que eles sejam objeto de interesse jornalístico?

Navalha - Sem decisão

Ao contrário do que diz o título "Vice-presidente do STF decide manter preso dono da Gautama" (pág. A6 da edição de ontem, segunda), o ministro Gilmar Mendes não havia tomado nenhuma decisão. Como informou a reportagem, o vice do Supremo "resolveu adiar a decisão sobre o habeas corpus para libertar o empresário Zuleido Veras".

Uma coisa é não se pronunciar sobre habeas corpus, outra é decidir manter preso.

"Previdência de Serra"

A aprovação pela Assembléia de SP do "principal projeto da reforma previdenciária do Estado" não mereceu nem alto de página. A informação merecia não só mais destaque interno, como chamada na primeira página.

O que muda? O texto não explica, embora cite a "implantação de um gestor único de previdência" ("Previdência de Serra é aprovada; projetos devem reduzir benefícios", pág. A11).

Se o placar foi de 62 a favor da proposta do governo a 26, quem votou contra? A reportagem só diz que "o PT informou que votará com o governo", referência a dois projetos complementares. É preciso buscar outras coberturas para entender o embate de ontem.

Parece estranho tratar deputados originários da Polícia Militar como "militares". Eles são "policiais militares". "Militares" são os integrantes das Forças Armadas.

O leitor não foi informado sobre os argumentos a favor e contra o projeto aprovado ontem.

Papel sobrando

Título de Dinheiro (pág. B7): "Na Itália, Dilma vai discutir trem-bala para ligar SP a Rio".

Título de Cotidiano (pág. C7): "União anuncia edital para trem-bala de SP ao Rio".

Os textos tratam do mesmo assunto e repetem informações.

Juridiquês

O leitor da Folha segue a receber informações com terminologia jurídica que ele não é obrigado a conhecer.

Um exemplo é o texto "Pai que esqueceu bebê em carro é denunciado por homicídio" (pág. C6).

O que é "homicídio culposo". É sem intenção? Por que não explicar?

O que é "suspensão condicional do processo"? É o contrário de "suspensão incondicional"?

O texto publica trechos da acusação e afirma não ter encontrado o pai. O pai não tem advogado? Quem o defende no processo? A Folha procurou o representante do acusado? Se procurou e não encontrou, deveria ter informado. Ouvir "especialista" em defesa não basta.

Acabou a greve?

A cobertura sobre a mobilização nas universidades estaduais paulistas não informa se ainda há greve de parte dos estudantes, funcionários e professores. Hoje, parece que o confronto se resume à ocupação da reitoria da USP e da vice-diretoria da Unesp em Franca.

Se há greve, quantos estão parados? Qual o total de membros das três categorias? Os estudantes não têm 17 reivindicações? Só uma foi discutida ontem com o secretário da Justiça?

A reportagem afirma que mil estudantes se reuniram em assembléia. Quem disse? O repórter contou? Ou o número é dos organizadores? Se for, é preciso relatar.

A propósito, quantos alunos a USP têm? Mil representam uma fração pequena ou grande do total?

Se "os alunos afirmaram que os decretos do governador José Serra (PSDB) contêm outras inconstitucionalidades", quais são elas?

Os leitores da Folha receberam informações insuficientes para saber como estava a situação ontem na USP, na Unicamp e na Unesp.

Numeralha

Não há por que duvidar de que haja estudantes demais para espaço de menos em prédio que "abriga os departamentos de Geografia e História da USP".

Mas é difícil aceitar tal passagem: "Alunos ainda relatam que têm de ficar espremidos nas salas. São apenas 22 classes para acomodar 2.300 alunos, média de 104 alunos por sala".

A reportagem aceita passivamente tal raciocínio.

Para ele ser verdadeiro, todos os alunos deveriam estar lá ao mesmo tempo, todas as aulas deveriam ocorrer simultaneamente, os professores precisariam se dividir entre turmas (no caso dos que dão aulas para mais de uma).

Ou seja: a média é uma invenção aritmética com propósito político. O jornal não deveria se submeter a ela.

Sugestão: acompanhar a aula para 120 alunos, relatada por um professor. É possível que exista. Tal absurdo a concentração de tanta gente merece ser exposto pela Folha.

Greve federal

O jornal não informa ("Servidores das federais iniciam paralisação", pág. C8) a dimensão da greve.

Nem a avaliação dos grevistas sobre a adesão, nem a do governo, nem apuração própria.

Dobradinha

A Folha acertou ontem em destacar, na cobertura do GP de Mônaco da Fórmula 1, a controvérsia sobre a possível intervenção da Mc Laren na colocação de seus dois pilotos. As suítes da concorrência hoje mostram a correção do jornal, que secundarizou o declaratório dos pilotos.

Campus - Data errada

A cronologia "Entenda o caso" (pág. C2 da edição de sábado) parece ter um erro: não faz sentido a data 1º de janeiro como o dia em que "reitores reclamam e Serra tira Pinotti da presidência do Cruesp". Se as outras datas da cronologia estiverem certas, o mais provável é que, em vez de 1º de janeiro, o correto seja 1º de março.

Agenda

Participo hoje a partir das 16h do seminário "O jornalismo investigativo e a história recente do país". A promoção é do CPDOC, no auditório da FGV no centro do Rio.


     
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