14/05/2007
Será que avisou?
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br
Com título em três linhas e três colunas, no alto de página ímpar (A17), a Folha anunciou na edição do sábado (12 de maio): "Lula afirma que já avisou o papa de que TV pública será laica".
Não é o que parece dizer a reportagem, que cita declaração do presidente: "'Eu já disse pro papa [Bento 16] ontem [anteontem] que o Brasil é um país laico. E a nossa televisão será laica. Ela respeitará tudo e todos', disse".
O que o texto dá a entender é que o presidente contou ter dito ao papa que "o Brasil é um país laico".
E não que tratou da TV pública na conversa.
Se o título estiver errado, como aparenta, é preciso corrigir.
(Essa crítica trata das três últimas edições da Folha.)
Edição de sábado, 12 de maio
O nome do santo
O jornal não informa, pelo menos explicitamente, como deve ser chamado o primeiro santo nascido no Brasil.
Na pág. A8, diz que frei Galvão foi "canonizado como Santo Antônio de Sant'Anna Galvão". A fórmula se repete na pág. A10. É assim que ele deve ser tratado?
Ou seria "Santo Frei Galvão"? Ou "São Frei Galvão"? Os fiéis podem escolher o tratamento que quiserem?
No "Globo", o colunista Jorge Bastos Moreno escreve "São Galvão".
João de Deus
A Folha noticia público no Campo de Marte inferior ao esperado pelos organizadores da visita do papa. Já reportara assistência de 10% da prevista do lado de fora do Pacaembu. Na segunda-feira, contaria ter ocorrido a mesma coisa na missa em Aparecida.
Nas vésperas da chegada de Bento 16, o jornal apostou na comparação com o impacto das viagens de João Paulo 2º ao Brasil. Faltou um balanço após o embarque de Bento 16 de volta para Roma.
'Apenas' milionário
O texto "Sarkozy quer socialista na chancelaria" (pág. A28) afirma que o patrimônio declarado do presidente eleito da França é de "R$ 5.400 milhões".
O correto é R$ 5,4 milhões.
Artigos
Para o leitor não-iniciado, faz pouca diferença. Mas aos mais atentos pode incomodar. O texto "Papa sobe tom, ataca mídia e exige obediência e castidade" (pág. A4) trata a Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe como "o" Celam (o correto é "a").
Na linha-fina da capa de Dinheiro se lê "o Petros", quando a reportagem emprega forma consagrada, "a" Petros.
A batalha da praça da Sé
Fez bem o jornal em ouvir o secretário Carlos Augusto Calil sobre o quebra-quebra no domingo anterior, durante show dos Racionais. É melhor publicar tarde do que não publicar.
A reportagem, contudo, não esclarece o que de fato deu início à baderna na praça da Sé.
Hoje (segunda) a coordenação de imprensa da Secretaria da Segurança procurou o ombudsman para informar que tem à disposição do jornal um vídeo (distribuído na semana passada) mostrando cenas que ajudam a esclarecer o tumulto.
Edição de domingo, 13 de maio
Só deu ele
Folha, "Estado" e "Globo" publicam artigo ou entrevista com o teólogo Leonardo Boff.
Frade, não frei
A reportagem "Traficantes vão ter que se explicar a Deus, diz Bento 16" (pág. A4) volta a cometer erro corrigido por Erramos na semana passada. Refere-se ao "frei alemão Hans Stapel", quando o certo é "frade alemão".
Minoria gigantesca
Há uma informação estranha no texto e na linha-fina da reportagem "Igrejas do papa e da América Latina se opõem em encontro". Afirma-se que a igreja Católica da região intervém "no debate público em defesa principalmente das minorias".
As tais minorias, pelo que se lê, são os pobres. Tudo bem que os estatísticos conseguem fabricar qualquer verdade, mas, que eu saiba, os pobres na América Latina não são o que se pode qualificar de "minoria", muito pelo contrário.
Números
Acertadamente, a reportagem única da pág. A9 deixou para o meio do texto a informação sobre o número de presentes. O título, contudo, elegeu o dado secundário: "37 mil acompanham oração em Aparecida".
Crédito
O crédito de foto na pág. A25 é "Marcelo Carnaval/Reuters". Pelo menos até poucos dias atrás, quando teve declarações publicadas pela Folha, Carnaval era repórter fotográfico do "Globo".
Edição de segunda, 14 de maio
Enviada especial
A Folha traz o melhor bastidor do duelo Massa x Alonso no GP da Espanha de Fórmula 1. Não foi um evento qualquer: o brasileiro encostou nos líderes do campeonato, e o inglês Hamilton bateu novos recordes. Mais: como salientou a cobertura, os espectadores que assistiam à corrida pela TV Globo não puderam acompanhar ao vivo sua parte final porque a emissora interrompeu a transmissão para exibir a missa do papa em Aparecida (como a Folha já alertara que iria ocorrer).
Figurinhas
Folha e "Estado" dão a mesma foto de Massa na primeira página.
3 a 0
Com três artigos críticos ao papa na pág. A2, a Folha dá a impressão, que se estendeu por outras páginas, de ser mais dura em relação à pregação de Bento 16 do que aparentou nos dias anteriores.
Mensagem cifrada
A reportagem "Papa expõe 'preocupação' com governos latinos" (pág. A4) afirma: "Disse o papa, sem citar nomes ou países: 'Há motivos de preocupação diante de formas de governo autoritárias ou sujeitas a certas ideologias que se acreditavam superadas [na América Latina e no Caribe]'".
Por que o jornal não informou a que países Bento 16 se referiu, mesmo sem explicitar? Não significa subscrever as opiniões do papa, mas de prestar um serviço aos leitores. Seria exagero falar de Venezuela, Bolívia, Equador e Cuba ou pelo menos de um ou dois desses países?
Em forma
O "Estado" publica reportagem interessante, "O segredo da boa forma de Bento".
Nem tanto
Está errada informação do infográfico da pág. A12 sobre a presença de fiéis na cerimônia com o papa no Pacaembu. Diz que eram esperadas 150 mil pessoas, mas só compareceram 15 mil. Pelo que li na Folha, esses números dizem respeito ao lado de fora do estádio. Dentro dele, dezenas de milhares de jovens estiveram com o chefe da Igreja Católica.
Sem equilíbrio
O texto da capa de Cotidiano, "Universidade só pode mudar gastos com decreto de Serra" (C1) traz informação relevante e é equilibrado, ouvindo partes antagônicas.
Ocorre que a pág. C3 desequilibra a cobertura, com uma grande entrevista do secretário do Ensino Superior de SP, José Aristodemo Pinotti.
Faltou um pingue-pongue com alguém que pense diferente de Pinotti.
Também faltou o outro lado com, pelo menos, os estudantes da USP que ocupam a reitoria. Eles são criticados pelo secretário.
Aula de checagem
Na boa capa da Ilustrada, o escritor Paulo Coelho contou o que ocorreu entre a apuração e a edição de reportagem da revista The New Yorker de checagem de tudo [das informações] demorou mais de duas semanas. Ligaram para todo mundo, me perguntavam detalhes de que nem me lembrava ('É verdade que comeram penne al pesto no tal dia?')."