Ombudsman Folha   Folha Online
 
16/05/2007

Sem resposta aos leitores

MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br

O Painel do Leitor publica carta do deputado Dr. Rosinha com declarações que deveriam constar das páginas de Brasil, e não do espaço de manifestação dos leitores. Esse é um vício que se tornou tão corriqueiro como as reclamações contra ele feitas por sucessivos ombudsmans.

Outro problema é ausência de resposta da Redação ao missivista, atitude que deixa os leitores sem saber quem tem razão.

O deputado diz que, "diferentemente do que afirmou o texto 'Brasil perde em 1ª votação do Parlamento' (Brasil, 9/5), todas as decisões tomadas nas duas primeiras sessões do Parlamento do Mercosul, ocorridas na semana passada em Montevidéu, foram unânimes".

Ou seja: em votação unânime, pode haver perdedor subjetivo, mas não perdedor no sentido mais usual, matemático e jornalístico da palavra.

A carta não recebeu resposta da Redação. Era o caso de reafirmar a reportagem ou corrigir a informação.

O que se constata, revisitando a edição de 9 de maio, é que o texto não ampara o título sobre "votação". O texto afirma que "prevaleceu" posição rejeitada pelo Brasil, mas não relata ter havido votação com o país em minoria.

A não ser que divergências tenham ido a voto o que a reportagem não informou, o jornal deveria, creio, corrigir o título em Erramos.

Lula, o pauteiro

É boa a edição da entrevista coletiva do presidente, mas merece reflexão o efeito obtido por Lula com sua rejeição a entrevistas dessa natureza: ele levou os jornais a concederem um espaço enorme a declarações que, se fossem mais freqüentes as coletivas, não ocupariam tanto espaço. De certo modo, o jornalismo virou presa da agenda e da estratégia de comunicação e marketing do Planalto, o que é ruim (como seria em relação a qualquer outro governo). Com sinceridade, não sei se poderia ser muito diferente.

Faltam grevistas

A cobertura se limita a citar como a primeira página a greve no Ibama. Mas há outros funcionários públicos parados, como no Banco Central e no Ministério da Cultura.

Outra história

É de alto nível jornalístico a análise "Lula canta êxito econômico cem anos atrasado" (pág. A6). Pena que o jornal não tenha conseguido fazer o mesmo em relação a outras passagens da entrevista presidencial.

Lula afirmou que queriam "linchar" Oswaldo Cruz quando o cientista "criou o remédio para combater a febre amarela". Como se sabe, a Revolta da Vacina se opôs à vacinação obrigatória contra a varíola.

Também era recomendável publicar declarações do presidente, em outras quadras históricas, sobre as paralisações de servidores públicos. Ajudaria a contextualizar sua mudança de posição.

Critérios

Sei que a informação foi publicada ontem, mas o jornal deveria, na ampla cobertura da entrevista de Lula, informar hoje o critério para a escolha dos veículos que puderam fazer perguntas.

Juridiquês

A reportagem "Delegado da PF acusa pilotos e controle de tráfego em CPI" (pág. A7) fala em "crime culposo", "atentado culposo" e "homicídio culposo" (esta expressão consta também da linha-fina).

O leitor não é obrigado a saber o que é "culposo". A ausência da informação involuntária, não-proposital, sem dolo prejudica a compreensão da matéria.

Dorothy Stang

A boa cobertura sobre o julgamento de mais um acusado pela morte de Dorothy Stang estimula a curiosidade para saber como estão os conflitos agrários na área onde a missionária atuava. Vale reportagem.

Polícias

É boa a cobertura da crise na Colômbia, mas há ausência de informação que prejudica o entendimento: o que são, naquele país, a Polícia Nacional e a Polícia Judicial? Quais são suas funções? Quais são suas equivalentes no Brasil?

O leitor não é obrigado a saber.

Kassab, o esquecido

A reportagem "Metrópoles querem agir antes no clima" (pág. A12) relata uma reunião de prefeitos de todo o mundo realizada em Nova York. Registra declarações dos prefeitos de Nova York, Londres, Rio de Janeiro e Curitiba. Mas não ouve o prefeito Gilberto Kassab, de São Paulo, cidade onde a Folha é editada. Kassab, como o texto informa e também se lê em Cotidiano, compareceu ao evento. Ele não tinha nada a dizer?

Barreira psicológica

Trecho da reportagem "Dólar cai abaixo de R$ 2 pela 1ª vez em seis anos" (pág. B1): "Como acontece nos dias de rompimento de barreiras psicológicas, houve até boatos de quebra de bancos e corretoras [...]".

Trecho da coluna de opinião "Bolsa Miami, real forte" (pág. B4): "Chegou o dia da 'barreira psicológica', do 'teste da taxa de câmbio defendida pelo Banco Central' e outras cascatas".

Jornal é para o leitor

Faltam informações fundamentais, mesmo que não conclusivas, no texto "Petrobras despeja poluentes no canal de São Sebastião".

Os relatórios sobre qualidade ambiental de SP foram noticiados sem esclarecer aos leitores quais são as conseqüências práticas para as suas vidas.

O lançamento de resíduos de amônia e boro no canal de São Sebastião implica recomendar mudança de hábitos a banhistas, pescadores e consumidores de peixes e frutos do mar?

A Cetesb diz que a amônia é tóxico "bastante restritivo à vida dos peixes". A Petrobras "afasta a possibilidade de contaminação de organismos marinhos por amônia ou boro".

O jornal deixa de prestar um serviço aos leitores ao se contentar com as duas posições. Deveria ouvir cientistas (inclusive médicos) não alinhados às duas instituições para orientar os leitores sobre eventuais perigos.

Química

Como lembra um leitor, o boro é um elemento químico não-metálico. No alto da pág. C3 se lê que se trata de "metal pesado".

Serra, o pauteiro

Rendeu amplo espaço nos jornais o gesto do governador José Serra de segurar e fazer mira com uma arma da Polícia Militar.

Na Folha, foi a fotografia de maior destaque na primeira página. Na pág. C7, com mais uma foto, a atitude rendeu título ("Serra empunha fuzil em evento de homenagem a PMs").

Na minha opinião, a informação principal eram a liberação de verba e a homenagem ao grupo de elite da PM, não o factóide imagético produzido pelo governador.

Como a Folha considerou a imagem mais forte, deveria ter informado com mais riqueza. Os leitores ficaram sem saber: se o fuzil estava carregado; se, estando carregado, estava travado (se é que há trava em fuzil); se, descarregada, a arma estava preparada para a performance; para quem o governador apontou (o "Estado" diz que foi para uma fotógrafa do jornal). Mais: penso que a Folha deveria repercutir o gesto do governador de brincar com arma de fogo.

Os pilotos

A reportagem "Bimotor cai, mata dois e interdita a Dutra por 2h" (pág. C8) não informa se o empresário-piloto era experiente, quantas horas tinha de vôo e anos de licença para voar, o tempo de fabricação do avião, se a manutenção tinha registros em dia.

Diz que, "se [os dois tripulantes] tivessem tentado aterrissar, o choque seria mais leve, e os estragos menores". O jornal não deveria ser tão assertivo: os pilotos podem ter tentado aterrissar, sem sucesso, com o avião em pane e descontrolado.

Repeteco

Repito o assumido clichê empregado pelo repórter: é "saborosa" a entrevista na capa da Ilustrada sobre o repórter que foi parar na cozinha.

Só amanhã

O título principal da cobertura sobre o Festival de Cannes é "Brasil começa sua participação lateral em Cannes" (pág. E3). No texto, descobre-se que começa amanhã.

Detalhe: a retranca "Quatro curtas nacionais disputam prêmios no festival", na mesma página, tem a remissão "leia à esquerda". O correto seria "leia à direita".

Por pouco

Título de ontem da capa da Ilustrada: "Cannes, 60".

Título de hoje da capa do "Caderno 2", do "Estado": "Cannes 60".

A diferença: uma vírgula.


     
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