30/05/2007
Folha versus Folha
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br
Uma das funções essenciais de um jornal é hierarquizar as notícias para o leitor.
Hoje, o segundo título de maior destaque da primeira página afirma: "Renan reconhece que não pode provar pagamentos". No pé da chamada se conta que o PSOL protocolou representação contra Calheiros e que dois senadores pediram o afastamento do presidente da Casa.
Já em Brasil a chamada da primeira é relegada ao pé da pág. A4. Aqui, o destaque ("Senadores pressionam Renan e caso vai ao Conselho de Ética") é para informação que está no fim da chamada da capa.
Afinal, para a Folha, qual foi a notícia mais relevante de ontem no Caso Renan? A opção da primeira página ou a da editoria Brasil?
Título versus texto
É insustentável o título da primeira página "Mangabeira Unger move ação contra fundos estatais".
O que a chamada afirma, corretamente, é que a ação é contra a Brasil Telecom. É evidente que se deve informar que fundos de pensão estatais estão entre os principais acionistas da empresa. Mas uma coisa é uma ação contra a empresa, outra contra os fundos.
O jornal deveria corrigir.
A propósito da revelação da Folha (pág. B2), faltou lembrar que Mangabeira afirmou que adiaria a posse no governo para cuidar de afazeres acadêmicos. Como se vê, havia mais um motivo.
Greves, opinião e informação
A Folha vai melhor como espaço plural de opinião sobre a mobilização nas universidades estaduais paulistas do que no noticiário. É interessante o artigo do secretário Aloysio Nunes Ferreira em Tendências/Debates. O pé biográfico ficaria mais rico se contasse que ele foi dirigente estudantil na USP nos anos 1960.
Ao sustentar que não há novidades de peso nos decretos do governo Serra, o secretário se refere a "jornalistas que não se deram ao trabalho de conferir o que iam escrever". O que a Folha tem a dizer aos seus leitores? Aloysio está certo? Ou há mudança de qualidade nos novos decretos, em comparação com os de anos anteriores?
O jornal fará muito bem se oferecer o mesmo espaço para quem discorda do secretário, como tem feito.
Coincidência: no mesmo dia em que Aloysio escreve artigo na Folha, o "Globo" publica pingue-pongue com ele.
Leitora versus jornal
Em carta publicada no Painel do Leitor, a estudante Julia Alves afirma que não é invasora da reitoria da USP. No domingo, ela apareceu em foto de primeira página, acompanhando a chamada "Quem são os invasores da reitoria da USP".
A repórter responde dizendo que a estudante foi apresentada como "participante do movimento". Não reconhece erro do jornal.
Ora, se a primeira página sugeriu que a aluna de economia era invasora da reitoria, e ela nega, por que insistir?
A Folha deveria corrigir a informação implícita na chamada dominical.
Na contramão
A principal reportagem da Folha sobre a Operação Navalha e o Caso Renan vai na contramão do que se lê em outros jornais ("Senadores pressionam Renan e caso vai ao Conselho de Ética"). O jornal prefere destacar a representação do PSOL (que, salvo engano da memória traiçoeira, tem apenas um senador) e as palavras de outros dois senadores.
O "Globo" aponta um acordão. A Folha não tem a informação do jornal carioca, sobre um almoço de "cardeais" do Senado que resolveram bancar Renan Calheiros.
O jornal diz que, "apesar disso, o clima geral entre os senadores ainda era de apoio a Renan". Por que secundarizar tal informação?
Até agora, o mais evidente não é que (três) "senadores pressionam Renan", mas que o sustentam. Se vão conseguir, é outra questão.
Defesa omitida
O senador Almeida Lima discursou ontem negando ter recebido presente da empreiteira Gautama. Embora a reportagem da Folha não dissesse que os presentes tinham sido entregues, o jornal tinha o dever de publicar hoje a versão do parlamentar, apresentada publicamente. Surpreende que não o tenha feito.
O senador enviou mensagem ao ombudsman na manhã de ontem. O protesto sobre a inclusão do seu nome foi encaminhado cedo à Redação. Por que não houve registro da sua versão?
A Folha introduziu e consagrou no jornalismo brasileiro o direito ao "outro lado". Deveria reafirmá-lo a cada dia.
Para entender o caso
São muito bons o texto e os quadros da pág. A6, "Governo e Congresso sujeitam Orçamento ao jogo do poder". Informam, ensinam, esclarecem. Boa inspiração para o jornal.
Aposentado punido
Pode ser falha minha, mas não consegui entender um aspecto fundamental da reportagem "Ministra do STJ afasta número 2 da PF", que fundamenta a manchete do jornal: a determinação atinge um delegado que é aposentado. Ele exerce a função de secretário de Segurança da Bahia. O afastamento é de suas "funções públicas". Isso implica deixar a secretaria? Se implica, por que não afirmar explicitamente?
Disputa na PF
Há poucas semanas esta crítica diária chamou a atenção para a disputa na Polícia Federal em torno da sucessão de Paulo Lacerda. Hoje, a coluna "Toda Mídia" cita texto do jornalista Bob Fernandes sobre o tema, no Terra.
A Folha deveria investigar o que se passa.
A grande pauteira
Seguem as transcrições de gravações feitas pela Polícia Federal. As interceptações revelam um painel interessante sobre as relações entre o público e o privado. No atacado, porém, o jornal publica muitas transcrições que não provam nada, como hoje ("Empresário elogia acusado de ser mensaleiro"). Ao ler o título, é razoável pensar: e daí?
Conta pela metade
A Folha informa que o governo do Maranhão gastou R$ 342,5 mil para publicar anúncios em jornais.
O "Globo" diz que o total é de R$ 637,5 mil, incluindo jornais e emissoras de TV.
Por que a Folha não considerou mídia eletrônica na sua conta?
Foto perdida
O ministro Franklin Martins não é citado na boa reportagem "Lula decide gastar R$ 350 mi por ano com televisão pública" (pág. A8). Por que, então, uma foto sua acompanha o texto? O leitor não é obrigado a saber.
O texto fala em um "auxiliar presidencial" como fonte em off. A escolha da fotografia pode levar leitores a relacionar a fonte oculta à imagem ao lado.
Venezuela
A reportagem "Chávez ameaça TV e ataca estudantes" (pág. A9) não informa quais foram as alegações do governo da Venezuela para não renovar a concessão da RCTV, atitude que provoca onda de protestos.
Para ter idéia da evolução do cenário político no país, é preciso saber se as manifestações anti-Chávez estão crescendo em número de participantes ou não. O "Estado" diz que sim. Na Folha, não encontrei resposta.
O jornal fez bem em ir à rua ouvir os manifestantes. Não vi, contudo, entrevista com os estudantes pró-Chávez que desfilaram ontem, só com os oposicionistas.
Foi correto destacar o silêncio de Lula sobre a não renovação da licença da RCTV. Faltou, no entanto, lembrar os casos em que o presidente se sentiu à vontade para falar da política interna de vários países.
Merece mais atenção o texto ao qual o PT aderiu, comparando a RCTV à TV Globo. Há sugestão de imitar no Brasil o gesto anti-democrático do presidente venezuelano?
Ciclotimia
É difícil entender que importância jornalística a Folha reconhece na cobertura da mobilização nas universidades paulistas. A edição de hoje, depois de um dia em que as manifestações se expandiram por todo o Estado, ocupa apenas uma coluna, em parte inferior de página.
Sugestão de leitura
A quem interessar, o "La Nación" traz hoje um texto do jornalista argentino Tomás Eloy Martínez sobre os 40 anos de "Cem Anos de Solidão".
Está, com acesso livre, em www.lanacion.com.ar
Em tempo
O cartum "Brasília Freak Show", de Angeli, valeu a edição de ontem. Mostra o "homem probo" apresentado em um "circo de aberrações".