05/06/2007
Quatro dias
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br
As observações abaixo se referem às quatro últimas edições do jornal, de sábado a hoje, terça-feira. Alguns comentários, temáticos, abordam mais de uma edição.
Edição de sábado 2 de junho
Venezuela, sim
O noticiário dos últimos dias comprova o acerto da Folha em instalar um correspondente em Caracas.
Na sexta, a presença do repórter na Venezuela contribuiu para que o jornal tivesse a informação, e desse o devido destaque na primeira página da Edição São Paulo, sobre a afirmação de Hugo Chávez a respeito do Senado "papagaio".
No fim de semana, o correspondente deu uma lição sobre lugar de repórter, seja no Brasil ou no estrangeiro: na rua. Seu testemunho ocular foi importante ao contar, no sábado, o protesto proibido pelo governo na véspera. No domingo, ao relatar o apoio estatal à manifestação a favor do presidente.
Faz parte da tradição crítica da Folha seja no governo FHC, no governo Lula e em outros governos a atenção ao emprego de recursos públicos em atos partidários. A edição de domingo mostra que também é possível promover tal fiscalização em outro país, o que seria difícil (dependeria de noticiário e de versão alheios) ou impossível estando em casa, no escritório ou no hotel.
Venezuela, não
A primeira página do sábado trouxe em seu alto a foto de três recatadas funcionárias da RCTV em protesto anti-Chávez.
No domingo, em meio a tantas fotografias possíveis do ato pró-governo, o jornal escolheu a de duas mulheres de biquíni (ou algo menos que isso) em cima de uma caminhonete.
A comparação dá a impressão de simpatia com os manifestantes contrários ao presidente e de antipatia com os favoráveis.
É direito da Folha ter opinião. É bom que o jornal a manifeste. Mas nos espaços próprios.
Violência e publicidade
Duas das três páginas da reportagem especial sobre a violência no Rio foram retalhadas por um anúncio inusitado que tornou tortuosa a leitura.
A publicidade é instrumento de sobrevivência do jornal e, nunca é demais ressaltar, é requisito à sua independência. O que não significa aceitar ou propor anúncios com formatos esdrúxulos, que invadem textos e quadros.
Ironia: em meio aos relatos sobre pobreza, barbárie e violência, espalhou-se o original anúncio sobre um novo e elegante condomínio. No contraste involuntário, a cara do Brasil.
Violência e jornalismo
As três páginas do caderno Cotidiano 2 sobre a violência no Rio são muito informativas e densas, com ambição jornalística que deveria ser mais assídua.
Há um problema: depois de ler a íntegra, tive a impressão de que a temperatura ficou baixa.
Talvez o mais interessante fosse destacar, em vez do balanço global das ações do governo na segurança pública, o "território liberado" que traficantes de drogas impuseram na Vila Cruzeiro.
Violência - Erramos
A reportagem "Polícia de Cabral privilegia ação de confronto" (pág. Especial C1) diz, como a legenda de fotografia na mesma página, que a operação no complexo do Alemão resultou em 55 feridos. O quadro, contudo, afirma que os feridos foram 58.
Quadro no alto da pág. Especial C2 ("O Complexo do Alemão") tem uma fotografia sem crédito. Creio que o jornal deveria informar a autoria. É do Google?
O texto "Ação tem mais efeito colateral que resultado" (pág. Especial C2) afirma que o jornalista Tim Lopes foi assassinado quando produzia "reportagem sobre a venda de drogas". Eu pensava que a reportagem investigava bailes funk e prostituição _sob controle de traficantes, é verdade, mas a matéria não focava a venda de drogas.
O mesmo texto diz que o soldado Wilson Lopes, do Bope, foi morto em 3 de maio. Na mesma página, a reportagem "Ex-militares de elite treinavam traficantes, suspeita polícia" afirma que a data correta é 2 de maio. Na cronologia da página seguinte, volta a ser 3 de maio.
Confronto na PF
O texto "Diretor de presídio federal se demite" (pág. Especial C6) não informa que Ronaldo Urbano, ex-diretor da penitenciária de Catanduvas, é delegado da Polícia Federal (talvez já aposentado).
A informação é relevante para contextualizar a notícia. É possível que a penitenciária seja um dos fronts da atual guerra interna da PF.
Furo
O furo do "Globo" sobre uma nova "lista do bicho", com dinheiro de acordo com a interpretação da PF destinado a políticos, ressalta a pouca atenção que a Folha deu à Operação Hurricane (Furacão) depois das notícias da hora divulgadas pelos investigadores.
Se tivesse acompanhado os passos do processo, talvez o jornal tivesse acesso ao papel (a lista) que foi entregue à juíza responsável pelo caso.
Edição de domingo 3 de junho
Espelho meu - Empreiteiras
Folha e "Estado" publicaram reportagens parecidas sobre as contribuições de empreiteiras a parlamentares, candidatos e partidos. Manchete do "Estado": "Orçamento está nas mãos de financiados por empreiteiras". Segundo título em importância na primeira página da Folha : "Empreiteiras bancaram 55% do Congresso".
Considerei a cobertura da Folha mais completa. Ela permite identificar, bem como a do concorrente, o maior obstáculo à instalação de uma CPI no Congresso sobre obras e verbas públicas.
Por isso, está errada a linha-fina (pág. A10) "Estilo conciliador do presidente do Senado explica a falta de disposição dos colegas para abrir um processo contra ele". O buraco é mais embaixo. Como informa a boa reportagem "Atencioso, Renan diluiu inimizades na Casa", o estilo "ajuda" a explicar.
Espelho meu - A convite
O governo da China convidou, e Folha e "Estado" aceitaram o convite para viajar ao país.
Ambos os jornais publicaram reportagens, em duas páginas, com chamada na primeira.
É o tipo de coincidência desagradável. Parece que o governo chinês é que pauta os jornais. De certo modo, pautou mesmo.
Em viagens desse tipo, é comum que os anfitriões obriguem os convidados a se locomover em bloco. Esse é mais um motivo para tentar evitar a mais impressionante coincidência dominical: o enviado do "Estado" fez uma foto que saiu na primeira página. A enviada da " Folha ", uma que saiu internamente (pág. A24).
Analisando o cenário e os personagens, descobre-se que ambos estavam no mesmo local, lado a lado.
Mesmo em coberturas complexas, ou ainda mais nelas, se deve buscar o diferencial jornalístico.
Ditadura
É de alto nível a reportagem feita pela Folha na China. Não fica nada a dever aos melhores padrões da imprensa internacional.
Um porém: por que o texto não chama o regime chinês de ditadura? Lê-se o eufemismo "autoritarismo chinês". Trata-se, isso sim, de ditadura de partido único. Os partidos com denominações diferentes, ao contrário do que diz o ministro entrevistado, são completamente subordinados ao Partido Comunista. No conteúdo, o regime é de partido único. Em vários países da velha ordem do Leste Europeu, também havia outras agremiações partidárias, que não impediam que houvesse, essencialmente, regimes ditatoriais de partido único.
Chamada fantasma
Pela terceira vez em poucas semanas, os leitores da Edição Nacional de domingo (concluída às 20h47 da véspera) receberam a primeira página com chamada para informações que não constam do jornal a eles entregue.
Diz a chamada de Cotidiano: "Moro só - Seis solteiros que fazem da casa a sua melhor companhia". Na página indicada, a C9, foram publicados os perfis de dois solteiros, e não seis.
De novo, o erro se refere à chamada para o conteúdo integral da "Revista da Folha", que não chega aos leitores da Edição Nacional. Eles recebem apenas um fragmento, em Cotidiano, do que sai na íntegra na revista.
O pior é que no pé da página interna há uma remissão para a leitura de "mais casos" na internet. Acontece que a primeira página informou que os seis perfis estariam no papel.
A continuidade dos erros na primeira página, anunciando o que não existe no jornal, é um desrespeito ao leitor.
Exemplar
Ao citar a origem de furos do fim de semana "Veja", "Época", "Isto É" e "Globo", a Folha foi de uma transparência exemplar. Deveria inspirar outras publicações.
O nome do delegado
Os dois textos da pág. A16, sobre a "lista do bicho" no Rio, chamam um delegado da Polícia Federal tanto de "Jorge Furtado" (como o cineasta) como "Flávio Furtado". Qual o correto?
Venezuela - Por quê
Novamente o jornal deixa de publicar as alegações do governo Chávez para a não-renovação da concessão da RCTV. É um dever da Folha contemplar as mais diferentes versões e opiniões, contribuindo para que o leitor tire suas próprias conclusões.
Já escrevi nesta crítica minha opinião sobre o fechamento da emissora. Não é por isso que proporei que se deixe de informar o papel da RCTV no golpe de anos atrás, bem como os argumentos dos seus proprietários e do governo.
Cena de cinema
A capa de Dinheiro e a pág. B6 estampam fotos de policiais federais fazendo mira com suas armas. Na página interna, um agente (ou delegado?) segura uma pistola que deveria estar no coldre.
A reportagem não informa em que situações de combate foram registradas as imagens.
Se as fotografias foram produzidas como parece, a Folha deveria informar na legenda: "Policiais posam...".
Infra
Algumas informações não são novas, mas o jornal fez bem em amarrá-las e mostrar que "Falta de infra-estrutura freia crescimento", como afirma a manchete.
Alhos com bugalhos
Diz a linha-fina da pág. C4: "Confrontos após ocupação da PM no Alemão mataram 17 pessoas em um mês; operação da ONU fez 27 vítimas em três anos".
O primeiro número é a soma dos contendores das duas trincheiras e de quem não é alinhado O segundo considera somente uma barricada. Ignora as mortes de civis, corretamente citadas na reportagem.
Na contramão
É saboroso o perfil "Miss Brasil tem cílios postiços e seios de verdade" (pág. C15).
Pelo telefone
A reportagem "Por privacidade, dupla deixa praia e se tranca em CT" (pág. D7) tem uma característica que a prejudica: trata de detalhes de treinamento que ocorre em Fortaleza, mas a repórter apurou tudo da Redação. Uma pena. Se ela fosse ao local, a matéria poderia ficar muito, muito melhor.
Cem anos de solidão
O "Estado" fez um belíssimo caderno sobre os 40 anos do romance de García Márquez, inclusive com enviado especial a Aracataca, cidade natal do escritor colombiano.
Edição de segunda 4 de junho
Harvard, Cambridge
Ao contrário do que diz texto do alto do pág. A7 ("De volta, Alckmin diz que será soldado contra governo Lula"), a Universidade Harvard fica em Cambridge, não em Boston.
Levantando a bola
A entrevista com o presidente do Conar foi oportuna. O jornal, porém, deu a impressão de não ter se preparado como deveria.
Pergunta do pingue-pongue: "Como é a restrição à publicidade de bebidas em outros países?".
Ora, a Folha deveria saber. De posse de informações, as confrontaria com a situação brasileira e pediria comentários ao entrevistado, Gilberto Leifert.
Outro exemplo: "A propaganda de bebidas aumenta o consumo?".
Aqui, deveriam ser buscados estudos que pudessem questionar as opiniões do entrevistado.
O presidente do Conar não tem do que reclamar da Folha. Os leitores talvez tenham.
Pela TV
Sigo sem entender que critério permite ao texto sobre um jogo (no caso, de basquete), assistido pela TV e sem interpretação mais original, ser assinado pelo redator.
Foi o que ocorreu em "'Chato', Varejão está na final da NBA" (pág. D5). Imagino que as várias declarações tenham sido colhidas das agências internacionais, citadas no pé, ou de material de divulgação.
Edição de terça 5 de junho
O irmão de Lula
O jornal tem o desafio de descobrir que atitudes não os possíveis crimes, mas os atos específicos do irmão mais velho do presidente da República levaram ao indício de Vavá.
Mesmo com as informações ignoradas, os fatos conhecidos validam a decisão de levar o irmão de Lula à manchete.
Factóide
Depois de fazer mira com arma da Polícia Militar, o governador Serra, agora com o prefeito Kassab, ganha a primeira página da Folha usando máscara de oxigênio em evento dedicado ao combate à poluição.
Não identifico relevância na imagem para ganhar tanto destaque.
Mais show
Após (erradamente) dar espaço reduzido às agressões verbais de Clodovil Hernandes contra uma deputada, o jornal tem passado a noticiar detalhes irrelevantes sobre sua atividade na Câmara. É o caso do texto-legenda de hoje, mostrando o parlamentar a desenhar um modelito.
Prioridades
É normal, e isso ocorre cada vez mais, que material produzido por um braço de empresa jornalística também seja usado por outro do mesmo grupo.
Não entendi, entretanto, por que repórteres da Folha não cuidaram da notícia considerada a mais importante do dia em Cotidiano, estampada em sua capa, "Greve de perueiros pode afetar 3 milhões hoje". São profissionais do "Agora" que assinam a matéria.
Creio que os repórteres da Folha devam ser destacados para as pautas que a Folha julga prioritárias. Assim como, suponho, o "Agora" escale repórteres da sua Redação para tocar as pautas de maior apelo.
O tratamento jornalístico de uma notícia na Folha não é o mesmo do existente no "Agora". São publicações de perfis diferentes.
O espectro da Escola Base
A Folha está certíssima em não publicar a identidade do médico preso em Goiás sob suspeita de abusar sexualmente de crianças.
Pode ser que a suspeita se confirme. Se não se confirmar, o jornal não expôs o nome do preso, que outras publicações divulgaram, junto com a fotografia, sem restrições.
As greves - Lide no pé
Está escondida quase no pé a informação mais importante da reportagem "'Ninguém agüenta mais' a invasão na USP, diz Serra" (pág. C10). Ontem, a assembléia de professores da USP aprovou o "indicativo" de fim de greve. Eis a notícia quente, não mais uma declaração do governador.
As greves - O que falta
No balanço da cobertura da Folha sobre a mobilização nas universidades paulistas destaca-se a ausência de reportagens sobre os bastidores do governo estadual. Colunistas do jornal apontaram inépcia política em Serra. Os leitores ganhariam se soubessem quem teve a idéia dos decretos, quem os redigiu, se o governador e o secretário Pinotti foram pegos de surpresa pelas greves ou já esperavam a reação, como os diversos grupos tucanos agiram etc.