19/06/2007
Jornal previsível
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br
Oferecer o melhor resumo possível dos fatos da véspera continua a ser um desafio fundamental do jornal diário. Cabe a ele ordenar e hierarquizar os acontecimentos, ajudando o leitor a entendê-los e a formar juízo.
O jornal não deve, contudo, ignorar a overdose informativa contemporânea. Além da relevância de cada fato, precisa destacar o que tem de exclusivo em informação e análise.
A manchete de hoje, necessariamente, havia de ser sobre o Caso Renan Calheiros. A da Folha: "Relator sai; Senado volta a adiar votação sobre Renan". Como se pode ler na coluna Toda Mídia, durante toda a segunda-feira os meios de comunicação anunciaram e cobriram os fatos que constam da manchete. A saída do relator Epitácio Cafeteira foi divulgada logo cedo.
Quando a força da notícia se impõe ou faltam opções fruto de apuração exclusiva, não constitui equívoco jornalístico estampar o título principal da primeira página com informação batida do dia anterior.
Mas penso que a manchete de hoje, contando o que parte expressiva dos leitores já sabia, não foi a melhor escolha.
A Folha tinha boas reportagens, opções melhores para manchetar. Uma delas, que teve chamada na primeira página da edição Nacional ("Investigação em Alagoas não pede documentação"), mostra a suposta falta de empenho de funcionário do Senado para investigar os negócios do presidente da Casa. A concorrência fez em Maceió coberturas formais e acríticas. A Folha poderia ter elegido essa reportagem para a manchete. Não o fez, e a chamada caiu na edição São Paulo/DF, quando o texto foi publicado em pé de página.
Outra opção mais interessante para a manchete era a reportagem que substituiu, na edição São Paulo ("Laudo vê dados inconsistentes na defesa do senador"), a chamada sobre a ida de um secretário do Senado a Maceió. É um furo importante, como o outro.
A Folha, contudo, preferiu uma manchete previsível, sem o impacto e o espírito crítico das duas alternativas.
Exagero
Além de assinar artigo sobre reforma política na seção Tendências/Debates, o deputado Flávio Dino ainda emplaca
declaração na seção Tiroteio, do Painel, sobre o mesmo tema.
Onde está o lide 1?
A boa reportagem "Senado não investiga compradores de gado" (pág. A4), uma das duas alternativas para a manchete, só começa a contar o que tem de principal na 22ª linha, no terceiro parágrafo. Há reportagens (de jornalismo dito narrativo) em que o lide pode estar até no último parágrafo, mas não era o caso desta, a considerar a maneira como se estrutura.
A chamada de capa da edição Nacional e o título interno, porém, vão direto ao assunto.
Onde está o lide 2?
O título do alto da pág. A6 ("Advogado bate boca com aliados de Renan") não contém a informação principal do texto, expressa em parte da linha-fina: "Pedro Calmon acusa senador de ter pago R$ 9.000 'por fora' a jornalista".
Essa informação rendeu a manchete do "Estado": "Renan exigiu pagar pensão 'por fora', afirma advogado".
Motivo suplementar para evitar o título seria o fato de que bate-bocas no Congresso já se tornaram habituais.
Mais uma pergunta
É boa a reportagem "Em 2 anos, senador comprou 3 fazendas e formou rebanho com mais de mil cabeças", embora não tenha as informações do "Estado" sobre os negócios de Renan Calheiros e seu irmão deputado Olavo.
Até agora, o presidente do Senado afirma que pagou despesas pessoais com recursos oriundos da venda de gado. Ocorre-me outra pergunta: com que recursos o senador comprou o gado? O registro dos seus ganhos sustenta a aquisição de bois, vacas e fazendas?
Manual - A quem de direito
Diz o "Manual da Redação" (Publifolha, 2001) no verbete "furo tomado", na pág. 42: "A Folha não deixa de publicar informação que outro jornal, revista, emissora de rádio ou TV já tenha noticiado com exclusividade. A Folha cita nominalmente o veículo de comunicação que tenha dado um furo importante".
É isso o que faz, acertadamente, o item 1 do quadro "O cerco a Renan" (pág. A6), identificando a revista Veja como autora do furo sobre os pagamentos feitos por um lobista em nome do senador Calheiros.
No item 2, contudo, se escreve: "Fato novo - Surge a notícia de que empresas que seriam clientes de Renan não existem, não compraram gado do senador ou não emitiram recibo das transações".
A notícia "surgiu" no Jornal Nacional, da TV Globo. A Folha deveria dar o crédito.
O lobista que não é
Fez bem o jornal em registrar que Cláudio Gontijo, amigo de Renan Calheiros, negue que atue como lobista ("Lobista da Mendes Júnior diz ter falado de obra com Renan", pág. A7).
No entanto o texto não diz como Gontijo se qualificou e apresentou no Senado. É uma informação importante, que os leitores não receberam.
Onde está W?
A reportagem "Caso Waldomiro pode ter elo no exterior" (pág. A8) estimula a curiosidade: o que faz e do que vive hoje Waldomiro Diniz, ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil?
Sedução, palavra feminina
Não vi na cobertura da Folha a declaração do senador Gilvan Borges sobre a sedução das mulheres (peço desculpas caso não tenha reparado; considero a edição São Paulo/DF fechada às 23h23). A frase dá idéia do nível dos debates de ontem no Senado.
Língua de gente
Merece entusiasmados aplausos o emprego da expressão "não telefonou de volta" em "Denúncia sobre a Xeque-Mate é adiada" (pág. A8). Como sabem os leitores, a Folha se habituou a usar o estranho "não retornou" para informar que pessoa ou instituição procurada para o "outro lado" não telefonou de volta.
Governador fotogênico
É difícil entender o que faz a fotografia do governador José Serra encimando o texto "PT decide por meio-termo entre lista fechada e aberta" (pág. A11; a propósito, título é bom, melhor que as variantes com o adjetivo "flexível").
Serra é citado pela primeira vez na 44ª linha, do total de 59. A notícia principal era sobre a decisão e o embate interno do PT. O presidente do partido, Ricardo Berzoini, tem declaração publicada. Mas a foto foi do governador de São Paulo.
Foto divulgação
A fotografia de Serra tem o crédito "Divulgação", o que permite suspeitar que a Folha cubra sem fotógrafo próprio as atividades do governador do Estado onde o jornal é editado.
Se for isso mesmo, o procedimento pode ter conseqüências ruins para os leitores: os serviços de divulgação do governo tendem a distribuir somente imagens nas quais pensam que o governante sai bem.
Se houver uma imagem indesejada, como a da ministra Marta Suplicy na semana passada (a Folha fez bem em publicar), o jornal não a receberá do Palácio dos Bandeirantes.
Se ocorreu o que parece, a Folha deveria repensar a prática e escalar sempre repórteres-fotográficos seus na cobertura do governador.
Forever
O texto "Mc Cartney e Ringo irão se reunir para lembrar Lennon" (pág. A12) omite a informação de que a homenagem será também para George Harrison. A informação cabia no espaço disponível.
Depois, são citadas as senhoras Yoko Ono e Olívia Harrison. O leitor não é obrigado a saber quem são elas.
Prática da dependência
O pequeno texto "País se prepara para agressão, diz Fidel Castro" (pág. A13) tem crédito "Da Redação", acrescido no pé: "Com agências internacionais".
Se o texto só publicou declarações que saíram no diário oficial "Granma", à disposição na internet, com uma breve contextualização, qual foi o papel das agências internacionais (mais de uma!) em sua elaboração?
Bastaria acessar o site do jornal, destacar as informações principais e informar em que momento político o pronunciamento de Fidel Castro ocorre.
O jornal depende demais das agências noticiosas. Mesmo quando, aparentemente, não precisa delas, bebe naquelas fontes assim mesmo.
Folha versus Folha
A primeira página destaca apenas uma informação de Ciência ("Em manuscrito, Isaac Newton prevê apocalipse a partir de 2060").
Em Ciência, a informação principal, no alto da pág. A16, é "Aquecimento adianta primavera ártica", e não o assunto preferido pela primeira página.
O leitor fica sem saber o que, de acordo com a avaliação da Folha, é mais importante ou interessante.
Álcool na bomba
É muito boa a reportagem da capa de Dinheiro, "Distribuição concentrada encarece álcool". O jornal faria bem se continuasse a acompanhar com especial atenção o preço do combustível nos postos, informação de interesse de muitos leitores.
Para iniciados
O texto "BB alcança a liderança do mercado" (pág. B2) trata de crédito consignado. O leitor não tem obrigação de saber o que isso significa. Cabe ao jornal explicar.
Pensamento único
Tem tom oficialista, quase de press release, o texto "Sem reforma, déficit do INSS pode triplicar" (pág. B4).
O problema começa com o emprego do verbo "poder" em título. Como se sabe, tudo ou quase "pode". Verbo com "poder" costuma ser jornalisticamente muito fraco.
O texto apresenta só a visão do governo, no caso projeções do Ministério da Previdência Social. Não ouviu quem tem opiniões e interesses diferentes.
O estudo "pode" até estar correto, mas funciona mais como instrumento de pressão contra os aposentados, se não confrontado com fontes que divirjam.
Do jeito que foram publicadas, as projeções ministeriais caberiam mais em espaço de opinião que no noticioso.
Repeteco
Tem também tom oficialesco o texto abaixo, "Previdência quer atendimento mais rápido" (pág. B4). Um press release não teria teor muito diferente.
Faltou dizer
Parece mesmo um negócio de monta o da Embraer, que recebeu encomendas de US$ 3,1 bilhões.
O jornal não informa, contudo, a capacidade dos aviões vendidos, o E-Jet 190 e o E-Jet 170. É informação obrigatória nesse tipo de notícia.
Pauta
O texto "Pescador quer prazo para se adaptar a regra para lagosta" (pág. B13) é um estimulante convite para apuração: como vivem hoje os pescadores? Qual o impacto das novas regras nas suas vidas? Como se discute a combinação da defesa dos cardumes com a necessidade de sobrevivência dos trabalhadores?
O tema rende reportagem das boas.
Uma gravidez
É boa a suíte "Fechamento de bingo irregular leva 9 meses", na capa de Cotidiano. Faz bem o jornal em seguir atento a um caso relevante e revelado por ele.
Frase do dia 1
"Definitivamente, a República Federativa do Brasil vai dar lugar à República Federativa dos Bancos no Brasil".
É da colunista Maria Inês Dolci, na pág. C2. As informações sobre projetos pró-bancos e anti-consumidores merecem atenção da Folha e destaque em suas páginas.
Manual - Mão boba
Estão errados título e texto na pág. C4, sobre o furto dos braços de estátua de Pelé ("Em Salvador, estátua de bronze de Pelé tem braços roubados").
Como diz o "Manual" no verbete "furto/roubo" (pág. 158), o que houve foi um furto.
Faltou dizer que a taça Jules Rimet original foi furtada no Rio e conta-se derretida.
Repórter-fotográfica
São muito boas e contêm informação importante as fotos (uma na primeira página) mostrando o teto do Masp avariado.
Dois pesos
Falta equilíbrio ao texto "Marta volta à Prefeitura de SP para discutir projetos com Kassab e elogia prefeito" (pág. C8).
Por que, ao informar incorretamente, a ministra "deu mostras de que não conhece os trâmites do assunto no governo", e Kassab, ao errar nome de rua, "cometeu um ato falho"?
O tratamento diferente permite a conclusão subliminar: Marta é ignorante e Kassab, não; o prefeito apenas se enganou.
Fashion paper
Chamou a atenção a aparente contradição entre duas passagens do texto "Huis Clos define novo verão com coleção 'surf noir'" (pág. C9).
Primeiro, se lê que um desfile foi "marcado por coleções bastante realistas e conectadas ao uso prático da roupa".
Depois, sobre a coleção: "A imagem é a de uma mulher que anda por uma metrópole e deseja estar perto da praia".
Tudo bem que texto sobre moda não deve carecer de criatividade. Mas deveria manter certa lógica. "Mulher que anda por uma metrópole e deseja estar perto da praia", no que diz respeito à moda, é algo "realista"?
Ainda corintianos?
Não tenho acompanhado com a atenção de outrora o Campeonato Brasileiro, mas me detive no texto de hoje sobre o mais popular clube paulista ("'Abandonados' de Itaquera voltam se Carpegiani quiser", pág D1).
Entre os seis citados como de retorno possível ao time do Corinthians (estariam treinando no clube), estão o lateral-direito Tamandaré, o volante Daniel e o atacante Jean Carlos.
Eu pensava que o primeiro tinha se transferido para o Sport, o segundo para o Náutico e o terceiro para o Fluminense.
Mas posso estar enganado.
Panorâmica
A fotografia da pág. D3 é um bom exemplo de como a imagem pode ser não apenas complemento informativo, mas informação principal: aberta em seis colunas, a foto permite ver como é o tal treinamento em campo reduzido tratado no texto "Como técnico, Dunga clona Parreira".
Frase do dia 2
Na boa (tanto a reportagem como o comentário) capa da Ilustrada dedicada ao fracasso de audiência da série televisiva "A Pedra do Reino", lê-se a frase do diretor Boninho: "[...] Arte e inovação não caminham juntas na televisão".
Niemeyer, 99 (ou 60)
Fazia algum tempo que eu estava para comentar o que me parece um excesso de notícias sobre Oscar Niemeyer na Folha.
A reportagem "Cem é sacanagem, pô! Eu tenho 60!" (pág. E2) prova que, com talento, é possível fazer uma ótima cobertura de evento em que o protagonista é alguém que parecia arroz de festa nas páginas do jornal. Parabéns.