26/06/2007
Desafio à lógica
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br
Títulos na primeira página ("Diretor da Polícia Federal desafia o Ministério Público") e no alto da pág. A4 ("Diretor da PF defende escutas e desafia Ministério Público") empregam o verbo "desafiar" sem que haja desafio algum embutido nas declarações de Paulo Lacerda.
O delegado afirmou que, se a Justiça decidir que o Ministério Público tem atribuições para investigar, este teria que "assumir a responsabilidade pela apuração dos 120 mil inquéritos que tramitam hoje". Trata-se de opinião. Inexiste desafio.
O verbo "desafiar" é jornalisticamente forte, mas só deve ser usado quando faz sentido.
Roriz sem destaque
O novo escândalo no Senado, referente a negócios de Joaquim Roriz, não recebeu atenção na primeira página da Folha. Nem mesmo alto de página em Brasil.
Acho que o jornal erra ao minimizar o caso.
Folha versus Folha
A primeira página (os três quartos disponíveis, em virtude de anúncio) considerou um dos destaques da edição a informação sobre a derrota judicial (provisória, cabe recurso) de Daniella Cicarelli para o YouTube.
A chamada dá a entender que a Folha oferecerá uma boa cobertura. Na pág. C7, a reportagem foi publicada em uma coluna, no pé.
A primeira página transmitiu uma expectativa que não se confirmou, para frustração dos leitores.
Combinação confusa
A primeira página publicou dois títulos para a cobertura do espancamento e roubo de uma empregada doméstica no Rio. O primeiro, "Polícia prende os 5 acusados de agressão a doméstica" é seguido da chamada.
O outro, abaixo, "Pai afirma que jovem podia estar drogado", ficou perdido. Não deixou claro que trata do mesmo assunto acima.
Shopping e shopping
Retratos do Brasil: anúncio sobre o "início da comercialização" de um shopping ocupa 25% da primeira página.
No mesmo espaço, um grande texto-legenda informa que quatro operários morreram quando trabalhavam na construção de outro centro comercial.
Única
Entre aspas no texto, Janice Ascari parece ser a única procuradora Regional da República em São Paulo ("Diretor da PF defende escutas e desafia Ministério Público", pág. A4). É isso mesmo?
Manual - Sem outro lado 1
É boa a reportagem "Gastos do PT com segurança disparam" (pág. A12). Ela expõe a ascensão social de funcionários muito próximos à direção partidária. Mas há problemas.
O jornal compra off, entre aspas, sobre a "mentalidade de aparelho" de José Dirceu. Tal característica teria sido importante para a disparada dos gastos petistas com a segurança. Por que o jornal não tentou ouvir o ex-ministro?
Há referência a Sérgio Gomes da Silva, no texto e no quadro, como "um dos suspeitos pela morte" do prefeito Celso Daniel. Por que é suspeito? Há inquérito em andamento? Silva está indiciado? Se ele foi indiciado no passado, o Ministério Público o acusou? Em caso positivo, como se pronunciou o tribunal do júri? A reportagem não esclarece.
O quadro diz que Freud Godoy foi "inocentado" pela PF. É impressionante que esse tipo de afirmação ainda apareça na Folha. Basta consultar o "Manual da Redação", apostilas sobre o funcionamento da Justiça produzidas pelo jornal, palestras promovidas pelos programas de Treinamento e Qualidade: polícia não julga! Quem julga é a Justiça.
Manual - Sem outro lado 2
O texto "Aparelhamento do Estado é herança de Lula, diz Aécio" (alto da pág. A14) apresenta uma série de afirmações do governador de Minas que miram o presidente da República.
Contrariando os princípios resumidos no "Manual da Redação", o jornal não buscou o "outro lado" de Lula.
Manual - Sem outro lado 3
Texto na pág. A14: "Onda de invasões no Pontal demonstra 'intransigência' do MST, afirma Serra".
Por que a Folha não indagou ao MST o que pensa da afirmação do governador de São Paulo?
Matriz cifrada
A expressão "matriz energética" volta a aparecer hoje, no texto "Brasil pode sofrer apagão já em 2008, diz Adriano Pires" (pág. B2).
Não seria melhor o termo mais jornalístico, e menos de especialistas, "fontes de energia"?
Papel sobrando
A capa de Cotidiano na edição Nacional tem uma fotografia que é um enorme desperdício de papel. Ela mostra o aeroporto Tom Jobim - Galeão. A imagem não tem nenhuma informação, não "diz" nada.
Ao contrário do que afirma a legenda, errada, o que aparece não é uma pista do aeroporto, mas o pátio de estacionamento de aeronaves.
O jornal deveria corrigir.
Sem fotos
Até agora, a Folha não publicou fotografia dos jovens que espancaram no Rio uma empregada doméstica, cuja imagem apareceu ontem e hoje.
O jornal também deveria exibir os agressores.
Temporão
A cobertura do "Estado" sobre a sabatina da Folha com o ministro Temporão afirma que o público reagiu com aplausos e vaias a declarações do ministro da Saúde. Não vi a informação na Folha.
Pode ser falta de atenção minha, mas não consegui saber se a pessoa que vai comprar a pílula do dia seguinte na farmácia precisa apresentar receita ou não.
Entendi que a distribuição do Ministério exige prescrição médica. E que as farmácias vendem o medicamento desde 1999. Mas faltou dizer se o estabelecimento pode e deve exigir receita.
Deu para entender?
Título do alto da pág. D2: "Com tudo em falta, Copa América tem uma sobra".