04/07/2007
Inferno aéreo (Folha versus Folha)
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br
A Folha ofereceu hoje, com larga vantagem, a melhor cobertura sobre o inferno nos aeroportos em pleno mês de férias.
A cobertura bem-sucedida teve, contudo, problemas.
O mais grave ocorreu na edição Nacional (concluída às 21h05). A manchete ("Governo e empresas entram em atrito sobre crise aérea") não tratou de nenhum dos três títulos internos de alto de página, mas de um texto editado em uma mísera coluna de Cotidiano ("Empresas aéreas não aceitam fazer mudanças").
Na edição São Paulo (0h03), o módulo 100 foi promovido a retranca principal da capa de Cotidiano. A manchete foi mantida.
Mais uma vez, os leitores (no caso, os da edição Nacional) ficaram sem saber que avaliação jornalística está correta: a que escolheu a manchete do jornal ou a que considerou, em Cotidiano, o assunto secundário.
A hora das empresas
A manchete e a capa de Cotidiano (na edição São Paulo, "Empresas aéreas e governo entram em atrito") dão às empresas aéreas a devida atenção. A crise sem fim não tem apenas um culpado, mas vários, entre os quais as empresas.
Duas observações sobre a reportagem.
Primeira: está errado dizer (na abertura) que os atrasos foram "provocados por um nevoeiro que fechou o aeroporto de Cumbica". É evidente que o nevoeiro contribuiu, foi decisivo, mas a bagunça tem razões diversas.
Segunda: o advogado do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias diz que, "se o governo determinar que os aviões devem voar cinco horas por dia em vez de 14, a conseqüência é que vai ter avião parado e o preço da passagem vai quintuplicar".
Quando o jornal ouve uma declaração dessa natureza, tem que pedir ao advogado para detalhar a projeção-ameaça. Se ele disser que não tem como explicar na hora, a Folha deve informar aos leitores que pediu explicação e que o representante do sindicato afirmou não ter como esclarecer de pronto.
Caso contrário, o jornal serve de espaço acrítico para afirmações cujo propósito pode ser pressionar uma das partes (o governo) na disputa de interesses.
Mais: a Folha deveria entrevistar consultores, sindicatos de trabalhadores do setor aéreo, organizações do governo e de defesa dos consumidores para saber se é possível haver impacto tão grande no preço dos bilhetes.
Aparentemente, o advogado blefou, e a Folha limitou-se a divulgar o blefe.
Apurações
A manchete da Folha: "Governo e empresas entram em atrito sobre crise aérea".
Linha-fina sob a manchete de "O Globo": "Governo e empresas do setor trocam acusações sobre motivos da crise".
Abertura de texto de "O Estado de S. Paulo": "A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e as companhias aéreas decidiram em reunião ontem trabalhar em conjunto para combater o caos aéreo".
Assassinato no Expresso Oriente
Assim como um crime pode ter vários autores, o caos nos aeroportos tem muitos motivos (e responsáveis). O jornal desconsiderou alguns importantes.
Não vi na cobertura a palavra "overbooking". A venda de mais passagens do que a capacidade dos aviões foi citada (é o tema principal) na coluna de Elio Gaspari em Brasil. Não em Cotidiano.
No quadro "Problemas de Cumbica" (pág. C3) o "overbooking" também foi ignorado. Não existe mais essa prática na aviação civil?
Outro problema não abordado: a escassez de informações aos passageiros, culpa às vezes da empresa, às vezes da Infraero e muitas vezes de ambas.
Também não identifiquei nenhuma referência às diversas posições de check-in vazias nos aeroportos. As empresas poupam ao manter menos atendentes que o necessário, e as filas crescem.
E os controladores? Não têm nenhuma responsabilidade pela atual situação? Se for isso mesmo, o jornal deveria dizer. Em alguns momentos da crise dos últimos meses, eles pareceram servir de bode expiatório (em outros, aparentemente, foram mesmo os protagonistas da crise).
Cobrança
A Folha registrou na reportagem "Nevoeiro fecha Cumbica por seis horas" (pág. C3) que uma família teve que dormir no aeroporto porque a American Airlines adiou um vôo em mais de 24 horas. A empresa teria dito que não havia hotéis com leitos disponíveis perto do aeroporto.
Seria recomendável indagar por que a AA não transportou os passageiros para hotéis distantes.
O texto informou: "A Folha não conseguiu contato com a empresa aérea".
Como assim? Não havia ninguém em posição de check-in? Nem em balcão de venda de ingressos? Nem no telefone de atendimento da companhia? Nem na assessoria de imprensa? Nem no e-mail do Brasil? Nem no e-mail nos EUA? Nem em seus escritórios dos EUA?
O jornal deve se esforçar para ouvir as empresas aéreas. Elas têm o direito de se pronunciar. Os leitores, de conhecer suas versões.
Em terra
É boa a reportagem "Grupo se recusa a sair de vôo que não decolou" e, especialmente, o depoimento do repórter-fotográfico Raimundo Paccó, "'Pensei que ocorreria uma briga'" (pág. C4).
À Babenco
Bem sacado título do texto-legenda da primeira página, com imagem dos passageiros no avião da TAM que acabou não decolando: "Passageiros da Agonia".
Notícia
É da maior relevância a reportagem "Chefe do Cindacta-4, em Manaus, admite que controladores monitoravam vôos em excesso" (pág. C6).
A afirmação ocorreu em audiência da CPI do Apagão Aéreo. "Foi a primeira vez que um oficial reconheceu que os centros de controle não respeitavam uma regra internacional."
Pelo que vale como notícia instantânea e também pelo relevo histórico, o texto merecia estar no alto da página (o que não ocorreu) e constar da chamada na primeira página.
A volta dos que não foram (leis que não pegam)
O quadro "O vai e vem do processo" (pág. A4) cita dois senadores como membros do PFL. O jornal orienta a Redação a nomear como DEM o velho partido.
Folha versus Folha
Diz o texto "Ausente, Renan tentou controlar reunião da Mesa" (pág. A5): "Como a votação [sobre devolver o processo de cassação para o Conselho de Ética] deveria ser aberta, o presidente do Senado teria ficado com medo de perder no plenário".
Na mesma página, em "'Não arredarei o pé da presidência', afirma senador", informa-se: "O ex-senador Luiz Otávio (PA) chegou a ir ao seu encontro [de Renan Calheiros] com a informação de que a Mesa havia deliberado mandar o caso para o plenário decidir _uma das hipóteses desejadas por Renan".
Afinal, Calheiros queria ou não que a votação fosse a plenário? O jornal apresentou dois relatos conflitantes.
Boiada
É boa a reportagem "Gado engorda rendimentos de senador" (pág. A7, sobre o presidente do Conselho de Ética do Senado, Leomar Quintanilha).
Serra e a CPI
A reportagem "PSDB tenta barrar CPI da Habitação na Assembléia de SP" (pág. A11) deveria informar quantas Comissões Parlamentares de Inquérito há em curso. É um dado importante, já que os opositores da comissão falam em "ordem cronológica" dos pedidos de criação de CPIs como obstáculo à sua instalação.
Foi criada a CPI da Nossa Caixa? Que fim levou?
Creio que o título deveria citar o governador Serra. Sua posição anti-CPI tem mais importância jornalística do que os esforços do PSDB para fazer em SP o que condena em Brasília.
Geografia
A Folha prestaria um serviço aos leitores se informasse em que país fica "Islamabad", a cidade cenário do texto "Confronto com grupo pró-Taleban deixa 12 mortos em Islamabad" (pág. A14).
Indústria
Linha-fina sob o título "Indústria freia em maio, diz Ipea", na pág. B5: "Produção, a ser divulgada hoje pelo IBGE, deve registrar 2ª queda seguida de 0,1% sobre o mês anterior".
Pelo que entendi dos resultados anunciados hoje de manhã, a Folha estava mal informada. Não houve queda de 0,1%, mas aumento de 1,3%.
Título do "Estado", que apostou no sentido oposto ao escolhido pela Folha: "Analistas vêem indústria em aceleração".
Tradução
Sei que faz parte da tradição dos setoristas de Fórmula 1 da imprensa brasileira, mas é estranho tratar as equipes da F-1 como "times", a tradução literal do inglês ("Ferrari denuncia 'espião da McLaren'", pág. D1).
O mesmo texto traduz como "evidência" o que é "prova" ("foi aí que as evidências foram encontradas").
Papel sobrando
Nos menos de três meses como ombudsman, uma das reclamações recorrentes dos leitores foi relativa à ausência de informações sobre esportes de seu interesse e sobre seus clubes de coração. A Redação muitas vezes justifica com a falta de espaço.
É por isso que impressiona a publicação, às vésperas do Pan, do texto de alto de página "Sotaque carioca domina a Vila" (pág. D3).
Ora, se o Pan é no Rio, o sotaque vai ser gaúcho?
Mas não se trata disso, e sim do crescimento de 12% para 16% da participação de atletas cariocas em comparação com a delegação nacional que foi à última Olimpíada.
Ocorre que, se o critério for esse, o sotaque majoritário será paulistano (19%). Mesmo os paulistanos, com menos de um em cada cinco atletas (desconsiderando o arredondamento), não impõem "domínio" algum.
Há uma estatística sem importância: "A cidade [Rio] terá uma representação no Pan 247% maior, bem acima do crescimento geral e da capital paulista, ambos abaixo dos 200%".
Os números comparam alhos com bugalhos: a delegação olímpica é muito menor que a do Pan, competição com índice técnico muitíssimo mais baixo, à qual podem comparecer mais atletas brasileiros sem expressão internacional.
O tema, batido, das jovens atletas que deixam as suas casas para passar alguns dias na Vila Olímpica também não merecia o destaque que a Folha lhe deu. A não ser que houvesse histórias saborosas para contar. Não foi o caso, pelo contrário.
Vai pegar
A Folha publicou críticas de Neguinho da Beija-Flor sobre a escolha de um roqueiro (são dois, na verdade) para compor o Hino do Pan, mas não ouviu Arnaldo Antunes.
Nei Lopes "apontou uma gafe" na letra, porém o jornal não deu palavra aos compositores.
Foi um erro.
Aposta: com pinta de jingle, o samba-hino do Pan será cantado nas arenas esportivas. Desde que o divulguem.
O jornal fez bem em veicular a composição na Folha Online.