12/07/2007
Tempo quente
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br
A primeira página tem pelo menos quatro títulos com potencial de manchete: a própria manchete, boa opção, "Investigada no caso Petrobras foi a sexta maior doadora ao PT"; "Pressionado, Renan desiste de presidir sessão do Congresso"; "Polícia do Rio matou sem confronto, diz laudo da OAB"; e "Manobra tucana na Assembléia de SP 'enterra' CPIs".
É fria
Chamada de primeira página para o caderno Turismo: "Câmbio favorável e vôos freqüentes atraem a Buenos Aires".
Ao seu lado, o mundo real: "Crise de energia na Argentina se agrava com o frio".
O cotejo de Turismo com Dinheiro dá a impressão de que a Folha vive em mundos diferentes.
Jornalismo de serviço não deve esconder os obstáculos, no caso, a viagens felizes.
Quando menos se espera...
Foram anos, meses, semanas e dias de espera para os Jogos Pan-Americanos do Rio em 2007.
Hoje, quando começa de fato a competição, inclusive com jogo da seleção brasileira feminina de futebol, a primeira página omite os eventos competitivos inaugurais.
O inominado
É boa a reportagem da pág. A4 que rendeu manchete, "Iesa, investigada por fraudes em estatal, deu R$ 1,6 mi a PT".
Há uma omissão: quem é o presidente da Petrobras? A que partido ele pertence?
Os leitores têm o direito de saber. É informação importante no contexto da notícia.
Outro inominado
Na reportagem "Acusados faziam acerto de edital por e-mail" (pág. A5), o vigor jornalístico fraqueja diante da maior empresa brasileira.
Trecho: "Especialistas ouvidos pela Folha dizem que, pelos valores dos contratos, de até R$ 88 milhões no caso da P-14, haveria a necessidade de aprovação ao menos do diretor da área para a realização do serviço e da licitação. Para valores mais altos, seria necessário até o aval de toda diretoria colegiada, que inclui o presidente da companhia [também aqui, o nome não é citado!]".
Qual é a área? Qual o nome do diretor à época das licitações sob suspeita, inclusive a da plataforma P-14?
Por que, pelo segundo dia consecutivo, os dirigentes da Petrobras não têm seus nomes impressos no jornal?
Nessa quadra de furacão, onde está o presidente José Sérgio Gabrielli?
A reportagem começa assim: "Com o auxílio da auditoria da Petrobras, a Operação Águas Profundas da Polícia Federal e do Ministério Público Federal...".
Mais à frente: "Uma auditoria realizada pela própria Petrobras percebeu que o edital exigia uma profundidade menor (8,23 metros) do que o estabelecido pelas regras da companhia. Foi apurado que isso teria sido feito para atender à Angraporto, cujo cais tem profundidade de 8,84 metros".
Se a auditoria descobriu a jogada, que providência a Petrobras tomou? Com a precedência da informação sobre a auditoria, abrindo o texto, fica a impressão de que a Petrobras é a campeã das investigações, e não a polícia e a Procuradoria. Na verdade, o (aparente) esquema se desenvolveu dentro da empresa.
Uma coisa é a direção da estatal colaborar com PF e MPF. Outra é o jornal conferir à Petrobras a um lugar que ela, conforme se lê nas coberturas, não tem.
A função da Folha é a de fiscalizar, jornalisticamente, a Petrobras. Não a de promovê-la.
Foto perdida
O que faz a fotografia da plataforma P-50 em quadro da pág. A6? O jornal informa que a acusação de irregularidades se refere a quatro plataformas da Petrobras, nenhuma delas a P-50.
Bem na foto
Mais uma vez, a Folha publica foto de divulgação em cobertura de evento com a presença do governador José Serra ("Manobra tucana 'enterra' CPIs em São Paulo", pág. A7).
Ou seja: o jornal só recebeu fotografias em que Serra aparece bem.
A Folha deveria escalar fotógrafo próprio, pautado com critérios jornalísticos, e não promocionais, para cobrir as atividades do governador de São Paulo.
Farinhas
O jornal prestaria um grande serviço aos leitores se comparasse o que petistas e tucanos dizem e fazem em Brasília (no Congresso e no Planalto), e os tucanos dizem e fazem em São Paulo (na Assembléia e no governo estadual).
Além de informativo, poderia ficar --tragicomicamente-- divertido.
Informações terceirizadas
Diz a reportagem "Iesa, investigada por fraudes em estatal, deu R$ 1,6 mi a PT" (pág. A4): "Segundo a Iesa, antes de Lula o índice mínimo de participação de empresas nacionais exigido pela Petrobras era de 45% por obra".
Segundo a Iesa? O jornal não poderia ter checado e, se fosse o caso, bancado a informação?
Trecho da reportagem "Manobra tucana 'enterra' CPIs em São Paulo" (pág. A7): "Segundo Vaz de Lima, a resposta foi proferida na semana passada. O TJ teria reconhecido que a instalação de CPIs é de competência da Casa [a Assembléia]. O acórdão não foi publicado".
Segundo Vaz de Lima? A Folha não poderia ter apurado no Tribunal de Justiça?
Lugar-comum
Volta hoje ao jornal a expressão "classe artística" ("Governo recua na classificação indicativa", pág. A11).
Repito: os artistas podem até se definir assim, mas seria melhor a Folha evitar o clichê.
Sem vagas
É difícil entender um aspecto da reportagem "Kassab vai proibir estacionamento no centro", capa de Cotidiano.
A abertura informa o que está no título. Em seguida o jornal afirma que o prefeito vetará projeto de vereador que proíbe estacionar no centro expandido de São Paulo.
O prefeito e o vereador parecem ter opinião igual sobre o problema e sobre como combatê-lo. Por que, então, Gilberto Kassab vai vetar o projeto de Ricardo Teixeira?
Um certo olhar
Títulos do caderno Pan 2007: "Promessas das piscinas regridem no cronômetro"; "Falhas marcam ensaio da abertura"; "Público a favor é desafio para boleiras"; "Jogo de cena".
Energia
A reportagem da capa do caderno é interessante, ao mostrar o contraste entre esportes vitaminados por patrocínio de estatais e os que vivem à míngua ("Sobra-Falta Energia").
Há um problema: o tom no relato sobre as entidades "pobres" é parcial, anti-governos. O jornal contrapõe as verbas públicas investidas no Pan à penúria das federações e confederações.
Ora, sempre que se descobrem (ou suspeitam da existência de) falcatruas em algumas entidades esportivas, seus dirigentes são os primeiros a brandir a condição de entidades privadas. Por que, então, cabe aos contribuintes, com seus impostos, bancar a luz dos prédios onde as federações funcionam?
A Folha deveria ser mais crítica em relação às entidades. O jornal diz que "empregados dessas confederações relataram que a falta de luz dificulta a prestação de contas desse dinheiro federal, o que tem prazo determinado. O expediente no local acaba às 15h, quando se torna reduzida a luz natural. Ao meio-dia, já há trechos de escuridão nos corredores e nas salas".
Valeria investigar se também estão às escuras as carreiras "esportivas" de parte da cartolagem brasileira, inclusive da que talvez atrase a prestação de contas sobre recursos oficiais, alegando falta de energia.
Por último, mas não menos importante: a reportagem informa que a conta de luz atrasada do prédio que está às escuras é de R$ 200 mil. Por que não revelou quanto as "mais de 20 organizações esportivas" lá instaladas receberam de desembolsos públicos nos últimos anos?
A vida na Vila
É muito boa a reportagem do "Globo" sobre os embalos na Vila Olímpica. Chamada na primeira página: "Vila animada: acaba o estoque de camisinhas".
A Folha deveria ficar atenta ao que ocorre no local onde os atletas se hospedam. Podem sair de lá algumas das histórias mais saborosas do Pan.