19/07/2007
O horror, o horror
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br
Os leitores da edição São Paulo da Folha, concluída à 0h40, talvez tenham recebido hoje a melhor cobertura da tragédia em Congonhas.
Além da introdução de notícias ausentes na edição Nacional, como "Peritos detectaram fumaça, afirma presidente da Infraero", houve muitas mudanças de edição --para melhor-- em comparação com o jornal fechado às 21h30. Por exemplo, em vez de narrar o resgate nas págs. 2 e 3, dedicá-las à apuração das causas do desastre.
Um dos pontos altos foi a capa, comum às duas edições, do caderno especial. Nome por nome dos mortos, o registro taquigráfico do horror.
Houve problemas, e não poucos, como observo a seguir.
Mas as árvores (erros e deficiências) não devem ocultar a floresta (o bom trabalho).
As causas
À medida que novas informações reforçam indícios sobre as causas do acidente, nunca é demais sublinhar: eventualmente, pode haver combinação de vários fatores (falha do avião, erro humano e condições da pista).
Mesmo que a pista não tenha contribuído para o desastre, é legítima, necessária e urgente a investigação jornalística sobre ela e as condições de segurança do aeroporto de Congonhas.
Edição histórica
O espaço dos editoriais hoje é ocupado por apenas um, sobre a tragédia.
O Painel do Leitor é monotemático, sobre o mesmo assunto.
O Painel, idem.
Registro histórico
A TAM alegou, o que me pareceu correto, que não divulgaria para os meios de comunicação a lista de mortos antes de avisar as famílias dos passageiros do vôo 3054.
Era promessa.
Como se viu, boa parte dos parentes tomou conhecimento da relação ouvindo uma rádio de Porto Alegre.
Afirmação sem provas
A chamada da manchete ("Mortes de tragédia chegam a 192; Infraero cogita falha mecânica") faz a seguinte afirmação, repetida no caderno especial: "No segundo terço da pista, [o avião] acelerou".
Não há dados que sustentem tal certeza. O que se sabe é que o Airbus-A320 passou pela pista de Congonhas a uma velocidade maior do que a de aterrissagem. Isso se pode bancar.
Que a partir de certo ponto acelerou, (ainda) não. É possível que isso tenha ocorrido, em eventual tentativa de levantar vôo (arremeter). Mas não há como provar, pelo menos por enquanto.
Como disse o brigadeiro Kersul Filho (pág. C3), não se "poderia afirmar que o avião acelerava".
Há certas ilusões de ótica. Por exemplo: na corrida de 100 metros rasos do atletismo, temos a impressão de que os vencedores aceleram ao final. É o contrário: eles desaceleram, mas, se sua vantagem cresce frente ao segundo colocado, nos parece que a velocidade aumentou.
(Desculpem a má comparação; o intuito é reforçar a idéia de que o jornal bancou certeza, digamos, incerta.)
Mais afirmação sem provas
Ao contar o acidente quadro a quadro na pág. C3, afirma-se: "Vozes de dentro da cabine da tripulação do avião dizendo 'vira, vira, vira agora' são escutadas por controladores da torre de controle".
Na pág. C2, contudo, o jornal lembra a hipótese, considerada acertadamente por um brigadeiro, "de que os gritos tenham partido de tripulantes de outra aeronave que, ao ver a manobra inesperada e trágica do Airbus, tenham involuntariamente [sic] gritado 'vira, vira', numa espécie de torcida para que o avião escapasse ileso daquela manobra".
Fontes diversas testemunham ter ouvido os gritos.
Mas ainda não é possível ter certeza de onde partiram.
'Leis' que não pegam - Primeira Página
Circular de dias atrás do consultor de português da Folha vetou o emprego do adjetivo "aéreas" como substantivo.
Mesmo assim, linha-fina da primeira página reincide na impropriedade.
'Leis' que não pegam - Editoria
O editorial "Para não ser em vão" denomina como "Airbus A-320" o avião da TAM.
"Pára-erros" que circulou ontem determina que se use "Airbus-A320".
A voz pluralista dos leitores
Dezenas de leitores escrevem ao ombudsman opinando sobre o artigo de Francisco Daudt, colunista da Folha, cuja chamada na primeira página é "O nome certo do que ocorreu em SP é crime".
Até a conclusão desta crítica, a ampla maioria o criticou com veemência. Um leitor se disse "enojado".
Houve leitores que o elogiaram. Um afirmou se "sentir com a alma lavada".
Padronizar - O horário
Depois dos horários diversos citados ontem, a Folha fixa hoje 18h50 como o momento do acidente.
Sugiro mudança: o vídeo do aeroporto de Congonhas que exibe a aterrissagem fracassada do Airbus da TAM registra o horário de 18h51 (pelo menos foi o que tive a impressão de ver na TV).
Detalhe? Pode ser. Nos eventos de relevo histórico, porém, se recomenda zelar ainda mais pela precisão.
Padronizar - O equipamento
Além de "Airbus-A320", a Folha também usou hoje "Airbus-320".
Seria melhor adotar uma só fórmula.
Padronizar - Velocidade
Na pág. C3, a retranca principal diz que a Infraero calculou em 168 km/h a velocidade do avião ao fim da pista.
A linha-fina fixou 167 km/h.
Continuação
Poucos verbos são tão anti-jornalísticos como "continuar".
Título do alto da pág. C2: "Acidente da TAM continua sem explicação".
Não é bem assim
Linha-fina do alto da pág. C2: "Empresa e Infraero não descartam nenhuma hipótese para causa do maior acidente aéreo do país; busca por corpos prossegue".
Aqui, se exagera. Não está descartada a hipótese de o avião não ter tocado no solo?
Considera-se a hipótese de ter entrado um urubu em cada motor?
Ou seja: se investigam várias hipóteses, o que não é a mesma coisa de "não descartar nenhuma".
Fecha ou não?
A reportagem "Pista agora será fechada quando chover" (pág. C4) não esclarece se a medida atingirá também a pista auxiliar de Congonhas. Mesmo que ela não seja atingida pela decisão, é necessário informar.
Tradução
Parece sem sentido uma frase em reportagem da pág. C4 ("Para federação, governo preferiu buscar culpados"): "'Quantas pessoas serão mortas antes que governantes brasileiros parem com a experiência viva da FAB (Força Aérea Brasileira) na segurança do público que viaja?', pergunta, na nota, o presidente da Ifatca, Marc Baumgartner".
Experiência viva?
A Folha lê a Folha?
Diz a reportagem "Procuradoria pede interdição de Congonhas", na pág. C10: "O primeiro pedido de intervenção, feito em ação civil protocolada em janeiro pelos mesmos procuradores, foi negado pelo juiz federal substituto da 22ª Vara Federal Cível de São Paulo, Ronald de Carvalho Filho".
Título da pág. C5 da edição da Folha de 6 de fevereiro de 2007: "Juiz barra Fokker e Boeing em Congonhas".
Quem era o juiz? O próprio Carvalho Filho.
Titulo da pág. C1 da Folha em 7 de fevereiro: "Interdição em Congonhas irá afetar 40% dos vôos".
Faltou dizer
A Folha acerta em comparar o índice de acidentes aéreos entre os governos Lula e FHC.
Faltou, no entanto, um item: o número de desastres e mortes em proporção ao de passageiros.
Nesse caso, a desvantagem funesta de Lula pode ser superada pelo antecessor.
Triste confronto.
Também faltou dizer
A boa reportagem "Pista foi liberada após lobby de empresas" (pág. C11) afirma: "Dirigentes da Infraero e da Anac já mencionaram a existência de lobby de autoridades que não aceitariam se deslocar até Guarulhos para embarcar".
Fica a pergunta: quem são as autoridades? Que episódios ocorreram?
Co-pilotos
O texto "TAM isenta Airbus-A320 e defende tripulação a bordo" (pág. C5) destaca tema da coletiva dos executivos da empresa, a hipótese de o co-piloto ter tentado a aterrissagem, e não o piloto.
Observo: é fato, como a TAM informou, que o procedimento de um piloto comandar a decolagem e outro o pouso é padrão na aviação.
No célebre acidente com um Boeing da Varig no começo dos anos 1970, nas cercanias do aeroporto de Orly, quem executou a aterrissagem foi o co-piloto.
Aquele pouso é tido como um dos mais brilhantes da história da aviação civil. Os passageiros (menos um) morreram por asfixia (houve incêndio a bordo), e não pelo impacto com o solo.
Exemplar
Fez muito bem a Folha em chamar a atenção para um aspecto da entrevista da companhia: "A preocupação com a imagem da TAM esteve presente durante toda a entrevista, de uma hora e meia. A logomarca não aparecia em lugar algum".
Isso é jornalismo crítico.
Em compensação...
Na pág. B2, foi lamentável a publicação de análise unilateral, sem contraditório, de dois professores da Coppe/UFRJ: "TAM não deve sofrer prejuízo de imagem".
O jornal tinha obrigação de buscar uma opinião diferente, oferecendo aos leitores posições plurais que ajudassem a formar juízo.
Crianças, grávidas, tricoteiras
Os jornalistas que produziram as quatro páginas --emocionantes e inesquecíveis-- sobre as vítimas da tragédia podem se orgulhar do trabalho que fizeram.
Onde está Lula? - Desequilíbrio
A reportagem "Presidente não telefonou para Serra e Kassab" (pág. C17) deveria ter ouvido --pelo menos tentado-- o Palácio do Planalto.
Ela só traz a versão dos governantes do Estado de São Paulo e de sua capital.
Por outro lado, o jornal não esclarece por que o presidente sumiu -e não telefonou para o governador e o prefeito. Por causa de um terçol? É isso mesmo? Ou teme ter a imagem associada ao caos aéreo e à tragédia de Congonhas? Por que o ministro Waldir Pires não deu entrevista ontem?
O que está por trás do silêncio? Falta apurar bastidores.
Jornalismo - Casa de ferreiro
A reportagem "Jornalista da Folha é preso ao fotografar local" (pág. C12) não esclarece informações essenciais que costumam constar de notícias sobre não-jornalistas.
Policiais militares detiveram um fotógrafo da Folha porque ele alegadamente "violara o cordão de isolamento no galpão da TAM, 'atrapalhando os serviços do Corpo de Bombeiros' no local".
O que o fotógrafo tem a dizer?
E o jornal? Afinal, seu profissional violou o cordão e atrapalhou os serviços?
A polícia afirma que o fotógrafo colocou em "risco sua própria vida".
É verdade? Por que o jornal não informa?
É claro que truculência policial e atitudes anti-democráticas devem ser condenadas.
Mas a Folha precisa contar o que de fato aconteceu. A reportagem sobre o incidente não obedece aos padrões consagrados ao noticiar fatos com a participação de quem é estranho ao jornal.
Jornalismo - Uma lição
Fez muito bem a TV Cultura em não exibir as imagens de uma mulher caindo do alto do prédio da TAM, por considerá-las demasiadamente chocantes.
Erramos - Gol
O acidente com o avião da Gol ocorreu em setembro do ano passado, e não em outubro, como informa erradamente o texto principal da pág. C3 ("Para FAB, única certeza é que avião estava muito veloz após tocar o solo").
Erramos - comandante
A reportagem "Brincalhão, piloto tinha sido promovido havia apenas um mês" (pág. C9) afirma que um comandante trabalhava havia dez anos na TAM. Na coletiva de ontem, a empresa afirmou que ele ingressou em 1987.
Erramos - Faculdade
A mesma retranca diz que o piloto de 21 anos que acompanhava a tripulação "havia concluído há três anos o curso de ciências aeronáuticas na PUC-RS".
Ele terminou o curso em instituição de ensino superior aos 18 anos de idade?
Enfim
Evidenciam-se interesses em manter Congonhas funcionando com o mesmo movimento e nas condições de segurança atuais, ótimas, na opinião da TAM, da Infraero, das "autoridades".
Não faltam interesses em abandonar o aeroporto e promover novas construções a serem festejadas pelas empreiteiras.
O critério da Folha deve ser, creio, se guiar pelos interesses dos usuários, dos moradores das proximidades de Congonhas e do país, que precisa de segurança no ar e de instalações aeroportuárias que lhe permitam se desenvolver.
Forfait
Devido a viagem, só volto a escrever esta crítica diária na terça-feira 24 de julho.