Ombudsman Folha   Folha Online
 
08/08/2007

Antes dos escritores

MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br

Seria muito ruim esperar por livros de memórias dos integrantes da cozinha do Palácio do Planalto, por livros-reportagem sobre a era Lula ou por investigação de fôlego de historiadores para saber o que se passou com Lula e a Presidência nos dias seguintes à tragédia de Congonhas. O jornal prestaria um serviço aos leitores se contasse que análises e sentimentos provocaram o sumiço do presidente. Sugestão de título? "73 horas" (o tempo entre o desastre e o pronunciamento na TV).

Mais: não há por que esperar por apurações mais transcendentes, à espera da liberação de documentos secretos algum dia (se escaparem ao "sigilo eterno"), para tentar descobrir como foram as negociações e ações dos governos de Cuba e do Brasil na busca e repatriação-relâmpago dos dois boxeurs que abandonaram a delegação da ilha durante o Pan. É um caso não contado.

Por fim, para "roubar" um último "furo" dos escritores, o jornal deve duas boas histórias: como o colombiano Juan Carlos Ramírez Abadía vivia no Brasil e, principalmente, qual foi a participação da agência antidrogas dos Estados Unidos na caçada ao

traficante. Pelo relato de hoje, a DEA é quase marginal. Em uma operação dessa natureza, é praticamente impossível que não tenha sido protagonista. Deixar os louros do feito para as autoridades locais, aqui a PF, faz parte da opção americana por promover os parceiros que se associam à sua política de "guerra às drogas" .

Sem transparência - Sobre o UOL

Interessado em conhecer os serviços para carregar e-mails antigos em viagem, li as três páginas de Informática sobre webmail.

Um serviço útil, porém com um grave problema jornalístico, a falta de transparência: o UOL é citado em todas as páginas. Perdoem eventual falta de atenção, mas não li que a Folha é sócia e controladora do portal. Trata-se de informação indispensável, que não deve ser escondida do leitor, ainda mais porque o caderno compara o produto da empresa do Grupo Folha com o de concorrentes.

Uma estranha coincidência

A reportagem de Informática conta, sem chamar a atenção para a coincidência, que o serviço de e-mail do UOL "sai por R$ 7,90 por mês para assinantes e R$ 8,90 por mês para não assinantes".

Quanto o Terra cobra? Exatamente o mesmo valor, nas duas modalidades!

E o IG? Idênticos R$ 7,90 por mês para assinantes. Para os não-assinantes, R$ 1 a mais, R$ 9,90.

Talvez a informação já tenha sido publicada, mas deveria constar da edição de hoje: serviços de internet são tabelados no Brasil? Ou a incrível igualdade de preços pode sugerir acordo entre empresas que resulta em prejuízo aos consumidores?

Não vale reportagem?

Os sigilos de Renan

Creio que faltou uma informação na chamada da manchete, "Supremo quebra sigilo fiscal de Renan". A Folha informa que o STF quebrou o sigilo fiscal e o de movimentação financeira do senador. Usa "movimentação financeira", e não "bancário", ao contrário do que fizeram Estado e Globo.

O motivo se lê na pág. A4: "Essa espécie de quebra de sigilo bancário não permite acesso a dados sobre depósitos e transferências", mas à movimentação financeira "a partir do recolhimento da CPMF".

Ou seja: a quebra de sigilo bancário foi muito parcial, o que, creio, deveria ser destacado logo na primeira página.

Pequim 2008 e o jornal previsível

Tudo bem que falta exato um ano para o começo dos Jogos de Pequim, mas o título de primeira página é previsível demais: "A um ano da Olimpíada, Pequim ainda enfrenta problemas".

Em todas as Olimpíadas, Copas do Mundo, Jogos Pan-Americanos é assim: um ano antes, suas sedes "ainda enfrentam problemas".

China e Cuba, dois pesos

É interessante a reportagem "Falta pouco e falta muito" (pág. D5), sobre os preparativos para a Olimpíada.

Mais uma vez chama a atenção, no entanto, o fato de o espaço noticioso da Folha não informar como é o regime político na China, uma ditadura de partido único.

Por que os burocratas chineses não são chamados de "ditadores", como jornal se refere ao cubano Fidel Castro? Os dois sistemas não são semelhantes?

A diferença seria o fato de a China adotar crescentemente valores e métodos do capitalismo, em contraste com a recusa de Cuba de se integrar ao mercado globalizado?

Ditador bom tem "espírito capitalista" e ditador ruim é comunista? A Folha deveria se referir ao regime chinês como uma ditadura.

Câmbio flutuante

O jornal confunde os leitores ao não padronizar a cotação real/dólar. Bastaria definir uma referência, determinada cotação que sai diariamente em Dinheiro.

Hoje, em Esporte, os US$ 34 bilhões do custo da Olimpíada equivalem a R$ 65 bilhões. Logo, US$ 1 igual a R$ 1,91.

No texto "Recompensa por colombiano é de US$ 5 milhões" (pág. C3), US$ 5 milhões equivalem a R$ 9,5 milhões. Portanto, US$ 1 igual a R$ 1,90.

Na mesma página, o quadro "Rota das drogas e do dinheiro" afirma que US$ 80 mil representam R$ 160 mil. Aqui, US$ 1 igual a R$ 2.

E depois, nós, jornalistas, nos divertimos a falar mal de economistas...

O espectro da Escola Base

A Folha dá chamada na primeira página e amplo espaço interno à informação divulgada pelo jornal português Diário de Notícias sobre a suspeita de que os pais da inglesa Madeleine, 4, seriam os autores da suposta morte da menina.

Esse episódio dramático, de enorme repercussão na Europa, faz doer até a última veia do coração. Como se sabe, é também uma história mal contada, desde o estranho relato dos pais sobre como deixaram a filha sozinha em um quarto de hotel em Portugal a cuidar de irmãos menores.

Desconheço como o "Diário de Notícias" apurou e editou a informação. Mas penso que a Folha deu-lhe um destaque exagerado.

É claro que desde o início a versão dos pais sobre o desaparecimento não é clara e aparenta contradições. Mas é indevida sua exposição sem limites, com as poucas informações por enquanto disponíveis, como a Folha fez hoje.

O fato de o sr. e a sra. McCann não lerem o jornal não o desobriga de considerar as lições da tragédia jornalística da Escola Base.

Erramos tardio

Em 19 de julho, o jornal publicou informação errada sobre a data do acidente com o Boeing da Gol no ano passado.

No mesmo dia, esta crítica apontou o erro.

Somente hoje, 20 dias depois, saiu Erramos.

Não basta o jornal se corrigir, é preciso se corrigir logo. É um direito dos leitores saber o quanto antes que o jornal se enganou.

Alma de release - Rodoanel

O texto "Serra autoriza privatização de trecho do Rodoanel" (pág. C3 de ontem) se assemelha mais a um release do governo paulista do que a reportagem.

De jornalismo crítico e independente, nada identifiquei. Não se ouve um só especialista em tráfego urbano para comentar a decisão.

Não se dá voz a um só opositor da medida ou da gestão Serra.

Não há um só "porém" introduzido pelo olhar fiscalizador que deve presidir a atividade jornalística.

Previ, enganado, uma suíte "problematizando" o tema.

Para sorte dos leitores, os espaços plurais da Folha asseguram hoje pelo menos três comentários sobre a privatização: a primeira carta do Painel do Leitor; a seção Tiroteio do Painel; e a coluna de José Simão, "Socuerro! Roubágio no Rouboanel!".

Nas asas da transparência

Folha e Globo informam que os jornalistas que cobrem a comitiva de Lula no exterior viajaram em avião da FAB em dois trechos. Segundo a Folha, devido à "falta de vôos comerciais em tempo hábil para a cobertura".

Já no Estado não li nenhuma nota de esclarecimento, procedimento obrigatório de transparência.

Das duas uma: ou havia vôos comerciais e Folha e Globo preferiram o comodismo da carona ou o Estado não informou seus leitores sobre as condições peculiares da viagem.

O Jornal Nacional de ontem, além de noticiar a carona, anunciou que depositará o valor das passagens de sua equipe em conta do Fome Zero.

Lição aprendida

A Folha tem hoje um ótimo momento jornalístico, desses cuja percepção costuma ser inversa ao seu valor, a reportagem "Senado poupa e faz elogios a diretor do Dnit em sabatina" (pág. A12).

Há alguns dias o jornal publicou reportagem sobre como os diretores da Anac foram aprovados em sessão de comissão do Senado que não os questionou sobre assuntos relevantes.

Foi um bom trabalho, mas seria melhor ter feito em 2005, cobrindo a sessão.

Agora, o repórter Humberto Medina acompanhou a aprovação do diretor do Dnit no simulacro de sabatina. Na Folha, não faltou aviso: os senadores deram o ok "em uma sessão de muitos elogios e poucos questionamentos".

Diplomacia pugilística

A cobertura da Folha sobre a repatriação dos dois pugilistas cubanos que abandonaram a delegação no Pan não tem uma só informação sobre a situação deles em Havana. Estariam, de acordo com agências internacionais, em uma "casa de visitas", eufemismo para o local onde estão detidos e não podem sair, embora conste que recebam parentes.

A Folha não ouviu uma só entidade de defesa dos direitos humanos sobre o imbróglio.

Em artigo escrito em 4 de agosto, Fidel Castro afirmou no Granma (li na internet) que a imprensa poderá conversar com os lutadores, "se eles desejarem". Por que o jornal não pede uma entrevista? Nem que seja para ouvir que "eles não desejam".

O mais estranho na história oficial parece ter sido a proibição de contato da imprensa com os pugilistas no Rio e a pressa no regresso para Havana.

História por contar, mesmo que, como escrevi na segunda-feira, a falta de inteligência de Rigondeaux e Lara pareça semelhante à de Tyson.

A reportagem "'Eles se entregaram', diz dono de hotel no Rio" (pág. A13), além de outros méritos, tem o de não editorializar a notícia, mal que acometeu a cobertura da duvidosa "debandada" de parte da delegação cubana na véspera do encerramento do Pan.

Por fim: Editoriais e Sucursal do Rio grafam "Rigondeaux". A Sucursal de Brasília, "Rigoundeaux". Padronização seria bem-vinda.

Alma de release - Itaú bomba

Dificilmente um release do Itaú seria muito diferente do texto que a Folha publica hoje, "Itaú supera Bradesco e tem lucro recorde" (PÁG. B5).

O jornal se submete à divulgação da casa bancária, sem senso crítico e disposição de, pelo menos, oferecer idéias divergentes sobre o significado do espetáculo do crescimento dos bancos.

O que representam os recordes para o país? Que prioridades econômicas indicam? Há alguma conseqüência no peso das finanças na economia, em especial em comparação com o setor produtivo? É possível que haja distribuição de renda simultânea ao progresso fabuloso e concentrador das instituições financeiras?

Responder a questões como essas também é papel do jornal. E não o de servir de eco a empresas e governos.

Personagens ocultos

Repetindo o que disse no começo, personagens decisivos na captura do traficante de drogas colombiano aparecem somente como coadjuvantes: os agentes da DEA. Há alguns deles fixos no Brasil. Para uma operação como a de ontem, se costuma trabalhar com equipes bem maiores.

O nome correto da DEA é Drug Enforcement Administration. A boa reportagem "Banco de vozes do governo dos EUA ajudou na identificação" (pág. C4) escreve Drugs [no plural] Enforcement Agency [em vez de Administration].

E, se é "Administration", o correto seria "a" DEA, e não "o" DEA. Tudo bem que se pode considerar "Escritório", mas a tradução literal me parece mais fiel.

Lição não aprendida

O texto "Caixa-Preta: CPI vai comparar pouso em SP com o de Porto Alegre" (pág. C6) afirma: "Em Congonhas, a alavanca da turbina direita foi deixada em ponto de aceleração no pouso, o que causou o bloqueio da frenagem automática programada".

Não! Essa é uma hipótese.

O que se sabe é que o computador "leu" assim a "informação" e a registrou na caixa-preta. Mas é possível que a alavanca (manete; driblei de novo o artigo masculino...) tenha sido operada corretamente, e uma pane eletrônica tenha impedido o sistema de "entender".

Ou seja: a Folha sentenciou, sem ter dados que amparem a "certeza".

Pitacos de ombudsmans

Convidado ao "Observatório da Imprensa" de ontem na TV, para discutir o tema "vazamento de informações" na cobertura da tragédia de Congonhas, tive a curiosidade de indagar a outros ombudsmans como os veículos nos quais trabalham procederiam se tivessem as informações da caixa-preta divulgadas na quarta passada na Folha: publicariam ou não?

Todos responderam que publicariam, depois de checada a autenticidade da "matéria-prima". São eles os representantes dos leitores do Washington Post, Orlando Sentinel, Salt Lake Tribune e Fort Worth Star-Telegram, jornais americanos, e o presidente da Fundação dos Ombudsmans de Media da Holanda.

'Família de negros'

Ontem, li e reli. Hoje, reli uma vez mais. Não entendi qual seria a mais remota relevância em informar a cor das pessoas na seguinte passagem da reportagem "Abarrotado, IML-Sul vive seu próprio 'apagão'" (pág. C10 de ontem): "Uma família de negros que mora perto de Guarulhos entrava ontem às 19h na sétima hora de espera pela liberação do corpo de um parente".

Se fosse de brancos valeria menção? E de mestiços? E de descendentes de asiáticos?

Pena, porque a reportagem é boa.


     
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