30/08/2007
É isso aí
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br
Vinho tinto, branco ou rosé, questão de gosto, de apelo ao paladar, à escolha do freguês na combinação de casa de pasto e loja de bebidas eleita pelo ministro do STF Ricardo Lewandowski e a jornalista da Folha Vera Magalhães para cear, em mesas separadas, na noite da capital.
Em relação à informação, à repórter não cabia outra escolha. Ao ouvir o ministro conversando ao celular no jardim da parte de trás do estabelecimento, com a voz a um volume que não indicava preocupação com o sigilo do diálogo, era dever jornalístico relatar o que ouviu, na hipótese de ser relevante o conteúdo e haver legítimo interesse público nele.
O magistrado não tratou de temas pessoais, da vida estritamente privada, pelo menos nada se leu sobre isso. Pelo contrário, comentou episódio importante para a Corte Suprema e a nação, o julgamento no qual foi aberto o processo do mensalão. Havia, portanto, conteúdo relevante e interesse público.
Estão de parabéns Vera Magalhães e a Folha por jogar luz em uma decisão sobre cujos bastidores ainda há muito por esclarecer e sobre a instância máxima de um Poder que, reafirmo, é o menos sujeito ao escrutínio dos cidadãos e do jornalismo.
O que é afinal, o ofício do repórter? Sair da Redação, farejar as informações na rua, voltar e contar aos leitores (ou outros consumidores de notícias) o que viu e ouviu. Foi o que se fez. Rendeu manchete em duas linhas, "Supremo votou com a faca no pescoço, afirma Lewandowski".
Com a revelação pelo Globo de diálogos entre ministros via computador na primeira sessão do julgamento, na semana passada, e da conversa telefônica de Lewandowski, o jornalismo permitiu que a sociedade soubesse de fatos dignos de conhecimento. É esse o seu papel.
Há uma série de aspectos no bate-papo veiculado hoje que merecem atenção. O primeiro, não em ordem de valor: assim como há juízes do STF preocupados com grampo, Lewandowski parece tranqüilo. Não é do seu feitio se inquietar com interceptação ilegal de comunicação. (A reportagem da Folha, não custa sublinhar, nada tem de ilegal. Narrou-se o que se escutou.)
Assim como merecia investigação jornalística a insinuação de ministro do STF sobre possível "troca" de recusa de denúncia por nomeação ao Supremo, cabe apurar agora se a publicação das conversas eletrônicas teve impacto na decisão dos magistrados.
Divulgar os fatos não diminui nem questiona a imprensa no episódio. O problema não é dela nem da sociedade. Grave seria o Supremo se dobrar a pressões, sem considerar a letra fria da lei.
Será que o acompanhamento sistemático e crítico da Justiça não contribui para golpear a impunidade?
É direito dos brasileiros saber que um ministro se sentiu "com a faca no pescoço". Que, de acordo com ele, o tribunal tendia a "amaciar" com o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu. As afirmações foram feitas em local público, não bisbilhotadas dentro de residência particular.
Lewandowski disse que a imprensa "acuou" o Supremo. As atitudes do jornalismo foram públicas e sobre elas recomenda-se discussão. Cabe saber também se o STF se sentiu acuado por outras atitudes, estas não públicas.
Especulação: o que teria sido o julgamento do STF sem a revelação dos diálogos na primeira sessão? Conforme Lewandowski no celular, a história poderia ter sido outra.
Contam-me que não é a primeira vez que a Folha publica conversas ouvidas de modo parecido com o que ocorreu na da noite de anteontem. Acertou.
É inescapável, contudo, a reflexão a respeito da demora do jornal em divulgar a apuração fotográfica semelhante, embora não tão completa, à do Globo. Na quarta retrasada, havia prova material: as imagens (que na Folha não saíram na quinta, somente na sexta). Agora, há testemunhal. Mesmo assim, o jornal agiu corretamente. Errado esteve antes.
Observações finais: a narrativa foi muito bem construída; Lewandowski deveria ter sido ouvido, ou no restaurante ou durante todo o dia de ontem; é ruim o Painel do Leitor sair, sob a rubrica Mensalão, apenas com mensagens contra os réus.
Pergunta ainda não feita
É direito de Fernando Henrique Cardoso dizer o que bem entender sobre as questões do país. Em caso de relevância jornalística, cabe à Folha publicar, como fez hoje.
O jornal, porém, segue sem indagar o ex-presidente sobre como ele compara o mandato do seu "engavetador-geral da República" com o do procurador-geral escolhido por Lula.
Se não houve oportunidade de perguntar ontem, o jornal deveria deixar claro que FHC falou, mas não permitiu indagações.
Seria bem-vinda reportagem comparando as ações de Brindeiro e Souza.
Seis letras do barulho
O jornal subestimou a importância da troca de comando na Abin e na PF. Chama atenção como, para noticiar possibilidades, não faltaram altos de página. Quando se anuncia a decisão, o fato é informado em meio de página.
Erramos: Abin quer dizer Agência Brasileira de Inteligência, e não de Informação.
O fascínio do poder
A reportagem sobre o lançamento do livro que conta crimes da ditadura militar não fala de gente, de lágrimas, de sofrimento. Só dá voz às autoridades, às suas disputas, declarações e interesses.
Linguagem boleira
A reportagem "STJD entra em campo e pune com rigor" (pág. D1) conta que um jogador foi suspenso por 120 dias.
Sei que é isso o que diz a legislação esportiva. Só não entendo por que não se traduz para terminologia jornalística: quatro meses.
Promotor assassino
A Folha minimiza hoje, a despeito de informar em alto de página, a decisão que permite que o promotor assassino de um rapaz siga a receber salário e a ocupar função no Ministério Público.
O texto "Réu confesso, promotor mantém cargo" (pág. C7), incrivelmente, não informa nem de raspão quais foram os argumentos pró e contra o promotor na reunião do órgão especial do Colégio de Procuradores do Ministério Público de SP. O placar foi 16 a 15.
Mangueira
A nota "Globo veta 'velha-guarda' no júri do 'Faustão'" (pág. E10) fala de um diretor veterano de nome Mário Manga. Não seria Carlos Manga?