27/09/2007
Memória curta
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br
A Folha informa hoje, na reportagem "Senadores acabam com sessão secreta em caso de cassação" (pág. A8): "Foi a primeira derrota de Renan [Calheiros] desde que foi absolvido no processo de quebra de decoro no caso Mônica Veloso, há duas semanas".
Há oito dias, o jornal titulou em alto de página: "Renan volta e tem a 1ª derrota no plenário" (pág. A5 de 19 de setembro).
No dia seguinte, outro título: "Renan vai ao Planalto e perde outra no Senado" (pág. A4 de 20 de setembro).
Ou o leitor acredita nos relatos anteriores ou no de hoje. São incompatíveis.
Serra sem gafe
Em discurso na posse do presidente da Fapesp, o governador José Serra trocou ontem a sigla da fundação e pronunciou "Sabesp".
Para a Folha ("Serra pede ênfase na pesquisa básica", pág. A32), foi um "lapso".
Tudo bem, pode ser. Mas por que outros políticos, com enganos semelhantes, cometem "gafes", nas descrições do jornal?
Ou se padroniza ou vão imperar dois pesos e duas medidas.
Complexidade pós-moderna
O texto de alto de página "Serra pede ênfase na pesquisa básica" se concentra no debate sobre prioridade à ciência básica ou à ciência aplicada.
O jornal esqueceu, contudo, de explicar os conceitos, condição elementar para entender as opiniões. O leitor não é obrigado a conhecê-los.
Há uma declaração ("A pesquisa aplicada é a aplicação da pesquisa básica...") cujo autor pode ser tanto Serra como o novo presidente da Fapesp, Celso Lafer.
Nada contra falar em "enfrentar a complexidade pós-moderna", mas, antes, é preciso dizer o que são ciência básica e ciência aplicada e quais as conseqüências da ênfase que o governador dá à primeira.
Mudança para pior
A manchete da edição Nacional e da edição São Paulo é a mesma: "Provas do valerioduto são muito boas, diz procurador".
A linha-fina, não.
A da edição Nacional: "PSDB enquadra Azeredo por afirmar que verba de campanha beneficiou FHC".
A da edição São Paulo: "Antonio Fernando não antecipa se vai denunciar ministro Walfrido".
A segunda linha-fina é a antinotícia.
A primeira, não, embora talvez o verbo indicado não fosse "enquadrar".
Manchete do "Jornal do Brasil": "Mensalão na campanha de FH abre crise no PSDB".
Outra
Com menos espaço editorial, a primeira página da edição São Paulo retirou a chamada da edição Nacional "Cubanos foram abandonados, afirma Itamaraty".
Uma pena.
Era mais importante, pelo menos, do que "Menina de Marrocos não é Madeleine".
Painel do Leitor?
O Painel do Leitor abre hoje com carta de José Serra que deveria estar na editoria que publicou a notícia comentada pelo governador, e não em um dos poucos espaços do jornal à disposição dos leitores que não são celebridades, autoridades, assessores.
Principal concorrente local da Folha, o "Estado" está publicando cartas (pelo menos algumas) de órgãos públicos nas editorias apropriadas. Como se pode conferir na pág. C3 do caderno Metrópole de ontem, com mensagem da Prefeitura de São Paulo.
Publicidade e leitor
A receita publicitária é um dos elementos fundamentais para assegurar a independência jornalística de uma publicação.
No entanto, o anúncio de hoje da pág. A5, com formato esdrúxulo, prejudica os leitores, invadindo espaço que não está claramente caracterizado como de publicidade.
O anúncio foi publicado em vários jornais.
Secretaria de Curto Prazo
O nome acima foi citado pelo Painel como brincadeira sobre a decisão do Senado que derrubou a criação da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo.
A reportagem da Folha sobre o tema ("Senado rejeita secretaria de Mangabeira", pág. A8) tem lacunas.
Que partidos votaram contra o governo? Para impor o placar de 46 votos a 22, não bastariam 14 senadores do PMDB.
Qual o partido de Mangabeira Unger?
O que o (ex) ministro tem a dizer sobre o resultado? Ele foi procurado pela Folha?
Boquinha
A Folha informa que "peemedebistas desejam a diretoria internacional da estatal [Petrobras]" ("Emendas da CPMF começam a ser votadas", pág. A9).
O "Globo" banca que o PMDB "vai nomear novos diretores para as áreas Internacional e de Abastecimento".
O "Estado" dá em manchete: "Pela CPMF, PMDB leva diretoria da Petrobras". Na chamada, diz que "o mais provável é que o partido fique com a Diretoria Internacional".
Boxeurs
É boa a reportagem "Boxeadores cubanos estão abandonados, diz Itamaraty" (pág. A17).
Mas há um erro que deveria ser corrigido, referência ao "fato" de Rigondeaux e Lara estarem "sem perspectivas de retomar as lutas profissionais".
Só pode retomar os combates profissionais quem já passou pelo profissionalismo. Cem por cento da carreira dos dois pugilistas se desenvolveu no boxe amador. Na Alemanha é que eles iriam lutar como profissionais.
Notícia pela metade
A Folha dedicou uma retranca inteira a um atraso de ontem do governador ("Serra atrasa 2 h e deixa crianças esperando", pág. C4).
O jornal conta o que ocorreu, dá detalhes. Fez bem.
Por que não perguntou ou apurou o motivo do atraso? Não era um direito de Serra responder e do leitor de saber?