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15/10/2007

Anotações sobre uma entrevista ótima, olho no olho, e uma entrevista boa, por e-mail

MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br

A Folha publicou no domingo uma ótima entrevista com o presidente da República. Rendeu a manchete "Lula não descarta concorrer em 2014".

No sábado, saiu uma boa entrevista com o bispo Edir Macedo, aliado de Lula, com o título interno "Corrupção é perdoável com arrependimento, diz bispo".

Um contraste decisivo para fazer da primeira uma peça jornalística superior à segunda foram as condições: Lula foi entrevistado pessoalmente; Macedo, por e-mail.

O correio eletrônico trouxe muitas facilidades ao jornalismo. Há menos chance de uma entrevista se frustrar por causa de limitações de agenda do entrevistado. Por e-mail, ele responde quando pode. O entrevistador não perde o pingue-pongue desejado.

Por outro lado, um dos traços essenciais da entrevista, a possibilidade de replicar e treplicar, insistir e não se satisfazer com a resposta, a ambição de arrancar alguma informação ou declaração a mais, tudo isso se perde ou é prejudicado na conversa por e-mail.

Muitos entrevistados também preferem o e-mail para se assegurar que a transcrição será mais fiel ao que dizem. Também para não dar chance a indagações complementares. E porque, por escrito, o pensamento é mais bem ordenado (é por isso que, quase sempre, as perguntas parecem mais claras que as respostas; os entrevistadores têm a chance de aprimorar no computador o que falaram).

Ainda está por ser estudado o impacto das entrevistas por e-mail no jornalismo. No exterior, essa reflexão já começou.

Diferenças concretas: quando Lula deu respostas evasivas ou frágeis ou contraditórias sobre José Dirceu, Roberto Jefferson, seu filho Fábio e mensalão, o entrevistador Kennedy Alencar retrucou, obteve mais declarações para tornar mais claras (para o bem e o mal, a decisão é do leitor) as idéias do presidente.

Já Edir Macedo disse o seguinte: "Jesus ensina que o único pecado imperdoável é a blasfêmia contra o Espírito Santo. Para os demais, há perdão, se houver arrependimento".

Em uma entrevista tête a tête, o repórter Daniel Castro poderia relacionar vários nomes de corruptos notórios e perguntar sobre o perdão a eles.

Sobre aborto e sua descriminalização, Macedo afirmou: "O que a Bíblia ensina é que se alguém gerar cem filhos e viver muitos anos, até avançada idade, e se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é mais feliz do que ele (Eclesiastes 6.3). Não acredito que algo, ainda informe, seja uma vida".

Caberiam novas perguntas, até para entender melhor o que o chefe da Igreja Universal quis dizer.

Há situações (não pareceu ser o caso da entrevista do sábado) em que, mesmo por e-mail, é possível fazer novas perguntas. Mas não é como estar pessoalmente com o entrevistado.

Voltarei ao assunto.

Um por todos

A entrevista de Lula à Folha me pareceu mais interessante do que a publicada pelo Estado em 26 de agosto. O "cardápio" de ontem foi mais estimulante.

O Estado contou com quatro entrevistadores. A Folha, com apenas um.

A comparação reforça minha impressão de que entrevistas no geral rendem mais quando só há um entrevistador.

No século passado, um executivo de uma revista semanal desestimulou a escalação de equipes para entrevistas. Não se teve informação de prejuízo com a existência de apenas um entrevistador.

Registro histórico

Se Lula diz --ou dá a entender-- que seu último porre ocorreu em 1974, então ele estava sóbrio quando afirmou, na década de 1980, que Leonel Brizola seria capaz de pisar no pescoço da mãe (ou algo do tipo) para ser presidente.

Pequenos problemas

A introdução da entrevista com Edir Macedo tem alguns problemas.

O jornal banca que a tiragem da biografia autorizada do religioso é de 700 mil exemplares. Pode até ser, mas, que eu saiba, a Folha não tem condições de assegurar. Por isso, deve creditar a fonte.

Reafirmo observação de meses atrás: embora haja quem defenda o aborto, o mais comum é que se defenda sua descriminalização ou a ampliação da lei que o permite em determinadas condições. Saiu que "Macedo defende o aborto".

Há duas vezes "porque" que deveria ser "por que", creio.

Primeira dominical

O título de chamada esportiva no alto da primeira página de domingo ("Seleção estréia a 2.600 m nas eliminatórias") é velho de muitos meses. O jornal deveria ter salientado alguma novidade ou abordagem mais original.

Foi bom destacar na capa o ótimo artigo de Renato Mezan no Mais! ("Por que um povo impontual dá tanto valor ao relógio de Huck?", título na primeira).

Primeira sabática

Grande sacada o título do texto-legenda sob a fotografia que mostra um alpinista descendo da cúpula da Basílica Nacional de Aparecida com a imagem de Nossa Senhora: "Baixando a santa".

Paulo Autran

As quatro páginas de sábado dedicadas à cobertura da carreira do "grande ator brasileiro", morto na véspera, não deveria ter saído sob a rubrica "Ilustrada 2".

O caderno deveria se intitular "Paulo Autran".

Não é detalhe.

1949-1959

A boa cobertura da Folha, melhor que a da concorrência, sobre os preparativos para o congresso do PC Chinês reafirmou ontem e hoje o tratamento de Hu Jintao como "presidente".

Hoje o jornal reafirma o tratamento de Fidel Castro como "ditador".

Reafirmo o que disse semanas atrás: gostaria de entender a diferença entre o chinês e o cubano.

Fidel está há quase 50 anos no poder. Hu tem poucos anos na cadeira e data prevista ou especulada para sair, daqui a cinco anos. Mas ambos encabeçam regimes de partido único semelhantes. São ditaduras.

Ou Fidel é ditador e Hu também é ou nenhum é.

Não há por que haver tratamento distinto. Parte do jornalismo internacional trata o governo chinês com benevolência, no que se refere às liberdades políticas ou ausência delas, porque ele integra o país ao grande mercado mundial, o que o governo cubano não faz.

É por isso que um é "presidente" e o outro "ditador"?

Curiosidade: quem fim levou a oposição chinesa? Ainda existe ou o massacre da Praça da Paz Celestial deu fim a ela? Se existe, como se organiza?

Chutômetro

A Folha afirma hoje que a Polícia Militar estimou em 800 mil os participantes da Parada Gay no Rio.

No Globo, a PM fala em 1,2 milhão.

Com os claros que a foto na Folha deixa evidentes, está errada a legenda (pág. C7) segundo a qual "gays, lésbicas e simpatizantes lotam orla de Copacabana". Eram muitos, milhares, mas não lotaram a orla.

A primeira página cita a estimativa da PM do Pará de que 2 milhões de pessoas participaram da procissão do Círio de Nazaré em Belém. O jornal deveria esclarecer se é projeção científica ou não.

Ações da Bovespa

Não é que lhe falte clareza ou sobre terminologia cifrada, mas a reportagem de hoje "Investidor se prepara para 'comprar' Bolsa" poderia ter oferecido informações mais detalhadas e mastigadas para os novos investidores que acorrem ao mercado financeiro.

Exemplo: está claro para os leitores habituais quais são as "instituições financeiras credenciadas". Mas para muitos novatos talvez não esteja.

Com a abertura de capital da Bovespa e em eventos de repercussão --para certo público-- como esse, é recomendável investir no ABC.

Contribuição pontual ao Erramos

Para que a Folha não saia amanhã, como hoje, sem nenhuma correção: está errada a tabela de classificação do grupo A das Eliminatórias da Eurocopa (pág. D7 do domingo): a Polônia não tem 26 pontos.

Resposta ao ombudsman

Na quinta-feira à noite, recebi do jornalista Leonardo Souza, por intermédio da Secretaria de Redação, a seguinte resposta a observações minhas na crítica diária:

Não é verdade que o senador Demóstenes Torres avisou a Folha sobre a espionagem. Na sexta-feira [dia 5 de outubro] à tarde fui pautado para verificar se procedia o boato que circulava no Congresso de que Renan despachara para Goiânia um assessor para espionar os senadores Demóstenes e Marconi Perillo. Eu sequer tinha os telefones dos senadores ou de seus assessores. Nem Demóstenes nem Perillo são minhas fontes.

Demóstenes apenas confirmou que tivera notícia da investida de Francisco Escórcio contra ele e Marconi Perillo, sem dar nenhum detalhe a mais (entrevista gravada).

Foi Escórcio, o assessor de Renan, quem confirmou as demais informações, como a ida a Goiânia e a reunião com Pedro Abrão no escritório de Heli Dourado, negando, contudo, ter tratado de espionagem contra os senadores.

Em entrevista no sábado, Heli Dourado confirmou que Abrão e Escórcio haviam tratado, sim, de fotografar Perillo, o que contradizia o assessor de Renan. A matéria foi publicada no domingo.

Não é correto, portanto, afirmar que a Folha passou a gravação a Demóstenes como "retribuição" por ter sido informada da tentativa de espionagem.

No domingo, Heli Dourado divulgou nota e deu entrevistas em Goiânia negando a declaração à Folha Francisco Escórcio fez circular no Senado a nova versão de Dourado. Na segunda-feira, o senador Demóstenes solicitou ao repórter uma cópia da gravação da entrevista. Após consultar a chefia da sucursal, fui autorizado a passar somente a parte da gravação que havia sido publicada um dia antes.

A entrevista dada pelo "Senhor X" foi "off-the-record". A entrevista dada por Heli Dourado foi em "on", e o conteúdo de suas declarações e seu nome já haviam sido publicados. Portanto não cabe a comparação.

Comentário do ombudsman

Agradeço a resposta e comento:

1) O centro das minhas restrições enunciadas nas críticas da semana passada foi a entrega a um parlamentar, o senador Demóstenes Torres, de gravação de entrevista feita pela Folha com um advogado. Pelo que entendi, o repórter considera que acertou. É uma opinião legítima, mas divergimos. Para mim, o gesto contraria os procedimentos e valores consagrados pelo jornal.

2) A resposta, se não contradiz, não confirma a manifestação encaminhada a mim pela Secretaria de Redação, para publicação na coluna dominical. A SR afirmou: "O repórter consultou a chefia, mas, por causa de um mal-entendido, foi autorizado a passar a fita ao senador". Já o relato do repórter não faz referência a nenhum mal-entendido. Ou seja: teria havido concordância em presentear o senador com a gravação.

3) Na crítica da terça-feira passada, fiz referência (na nota "Crédito omitido") a texto publicado naquele dia pelo jornal com a seguinte informação: "O caso [da suposta espionagem em Goiás, a serviço de Renan Calheiros] veio à tona depois que Demóstenes disse à Folha que seu amigo Pedrinho Abrão, empresário, se encontrou com Escórcio em Goiânia, no escritório de um advogado". O erro, eu dizia, era omitir que a revista Veja veiculara a informação no mesmo sábado. Depois eu saberia que Ricardo Noblat deu na véspera (5 de outubro) em seu blog. Pena que o repórter não esclareça o "furo" alardeado, mas inexistente.

4) Também lembrei em crítica da semana passada do verbete "gravador" do Manual da Redação: "[...] A publicação do conteúdo de uma gravação feita sem o conhecimento do entrevistado depende de consulta prévia à Direção de Redação". O entrevistado sabia da gravação? A DR foi consultada?

5) Minha afirmação sobre a importância das informações prestadas por Demóstenes Torres à Folha se baseou no trecho de reportagem citado entre aspas no item 3.

6) A comparação com os diálogos gravados pelo "Senhor X" se restringe à prerrogativa de o jornal manter em seu poder as gravações das entrevistas que faz, inclusive em "on".

7) Agradeço o esclarecimento de que não houve "aviso" e "retribuição". Sigo, contudo, sem entender: que valores jornalísticos embasaram a concordância em atender ao pedido do senador?


     
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