30/10/2007
Ninguém segura este país
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br Folha Online
No momento em que parcela expressiva do jornalismo nacional festeja a escolha do Brasil como sede da Copa de 2014, comportando-se como porta-voz informal dos organizadores, promotores e apoiadores do evento, é digna de elogio a cobertura da Folha na última semana.
O jornal mantém, a despeito de tropeços menores, a atitude que deve presidir as organizações jornalísticas: fiscalizar o poder --seja o(s) governo(s), a CBF ou a Fifa.
Tons
Título na primeira página da Folha: "Para Fifa, CPI não ameaça Copa no país".
Na do Estado: "Fifa oficializa hoje Brasil como sede da Copa de 2014".
Lobbies
Talvez tenha sido falta de atenção minha, mas não li hoje na Folha informação que está no Globo e no Estado: uma das principais disputas entre governadores dos Estados mais influentes é para receber o Congresso da Fifa e o Centro de Imprensa --a cidade escolhida será a sede da Copa.
Cifrado
O título da capa de Esporte é "Antes da festa, Fifa condena política".
Li e reli o texto. Não identifiquei "condenação" da "política".
Atraso
Abertura da reportagem no alto da pág. D2, "Gargalos da economia real desafiam Mundial": "Se a Fifa confirmar amanhã o Brasil como sede do Mundial de 2014...".
O amanhã é hoje.
E daí?
Nota na pág. E8: "Ao vivo - A Globo enviou dois repórteres a Zurique para cobrirem o anúncio do Brasil como sede da Copa de 2014, hoje".
A Folha, o Globo, o Estado... também enviaram dois repórteres.
Sua Excelência
Como o Datafolha reafirmou há pouco, o Corinthians é dono da segunda maior torcida do país e da maior na praça onde a Folha é publicada.
Os leitores-torcedores corintianos se angustiam com o desempenho da equipe no Campeonato Brasileiro.
Pois hoje a Folha publica um parágrafo, no pé de uma reportagem em pé de página ("Lyon cobra 400 mil euros a mais, de juros, no caso Nilmar"), para o noticiário do time. Exatas cinco frases.
A contusão de Finazzi, no entanto, interessa mais que os juros da novela Nilmar.
E o jornal dedicou mais espaço a notícias como "Pugilistas roubam e são deportados" (oito linhas); um texto-legenda sobre luta entre pugilistas da Croácia e do Azerbaijão (sete linhas); "Surfe - Brasileira busca topo do ranking e 1ª vitória" (18 linhas); "Surfe - Imbituba pode ver campeão mundial" (oito linhas); "Doping - Volante Adãozinho é flagrado em teste" (oito linhas).
Isso mesmo, a notícia sobre o jogador do Bragantino recebeu mais espaço que a preparação do Corinthians para a partida de amanhã contra o Flamengo.
Não custa lembrar: o jornal é feito para o leitor.
Dois pesos
No dia 30 de agosto, a Folha publicou em alto de página o título "Zaga são-paulina conquista marca de palmeirenses".
Linha-fina: "Clube do Morumbi tem agora melhor defesa da história do Nacional, distinção que pertencia ao Palmeiras desde 1973".
Parágrafo: "Completando sua sexta partida sem sofrer gols, o São Paulo tem agora a melhor defesa da história do Nacional, derrubando a marca que pertencia ao clube rival de ontem à noite e perdurava desde 1973".
O jornal se precipitou, destacando com ares de definitivo um resultado parcial.
Na segunda-feira, uma pequena nota informou: "Tento sofrido em Recife [pelo São Paulo] mantém marca palmeirense de 1973".
Os leitores-torcedores palmeirenses têm razão em apontar o desequilíbrio entre a reportagem de agosto e a notícia de ontem.
Dezenas deles procuraram o ombudsman para reclamar.
Caso Lancelotti
A Folha acertou hoje em não dar chamada de primeira página para o caso. Não havia informação para merecer tamanho destaque. Um alto de página (C8) foi "Presa diz que padre Júlio ofereceu dinheiro". O outro (C9): "Testemunha nega ter visto 'atos libidinosos'".
Ou seja, versões.
Pelo mesmo motivo, acredito que o jornal errou ao pôr na sua capa as chamadas "Ex-funcionária acusa padre Júlio de molestar jovem" (quinta-feira passada), "Preso afirma que não viu padre Júlio praticar pedofilia" (sexta) e, principalmente, "Ex-interno diz que fazia sexo por dinheiro com padre" (na metade superior da primeira página dominical).
Se o jornal trouxesse hoje notícia do Diário de S. Paulo, sobre decisão judicial de quebrar o sigilo bancário de Lancelotti, a informação mereceria chamada na capa.
É legítima a cobertura em curso. Quem acionou a polícia para denunciar a suposta extorsão foi o religioso. Trata-se de informação de interesse público, dada a projeção do padre Júlio. Cabe ao jornalismo ouvir o outro lado --no caso, o das pessoas contra as quais houve queixa.
Apesar da exposição exagerada de versões controversas na primeira página, não constatei até agora "condenações" jornalísticas na Folha, seja contra o padre ou contra quem ele denuncia.
Em Cotidiano, há uma série de informações que indicam a inconsistência ou a suspeição tanto da versão do padre como das pessoas que ele denunciou à polícia.
Não sei o que de fato ocorreu entre o religioso e o ex-interno da Febem. E, sem ter Lancelotti como referência, registro que, ao contrário do jornalismo de outros países, o brasileiro não investigou o tema da pedofilia na Igreja Católica como era seu dever.
História
O texto "Sem Lula, 50 anos depois" (pág. A2) afirma que Jânio Quadros foi eleito em 1961.
Na verdade, a eleição presidencial ocorreu em 1960.
Tentáculos e facetas
O artigo do deputado Paulo Renato que acabou não saindo na Folha pôde ser lido domingo no Estado --pelo menos parte dele. Na Folha, o título seria "Tentáculos da reestatização". No Estado, chamou-se "Facetas da reestatização".
A expressão "nítida ofensa às regras concorrenciais", que constava do texto enviado à Folha, se manteve no que o Estado veiculou.
A Folha não publicou o artigo a pedido do deputado, depois que o jornal revelou que o parlamentar consultara o presidente do Bradesco sobre o conteúdo do artigo.
Forfait
Participo amanhã, em São Paulo, do Workshop Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) - Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial) de Comunicação.
Por esse motivo, esta crítica não circulará.