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08/01/2008

O jornal e os jovens

MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br

A Folha informa em texto-legenda na pág. 4 do caderno Fovest que amanhã haverá prova de história e química na segunda fase da Fuvest.

A informação está errada. Aquelas matérias constaram do exame de ontem. Amanhã, a prova será de física.

Trata-se de erro grave que deveria ser corrigido com destaque amanhã.

O que talvez possa parecer um tropeço pontual é capaz de ter efeito devastador na credibilidade do jornal entre os jovens que prestam vestibular ou o acompanham por outros motivos: todos, ou quase, sabem que já houve prova de história e química. E que a Folha presta um mau serviço ao confundir o calendário.

Se o jornal não sabe nem o que "todo mundo sabe", do que de fato saberá? --eis um raciocínio possível.

Em fontes numerosas da internet, encontra-se a informação correta. No jornal impresso, errada.

Mas não é no jornalismo em papel que a informação é ou deveria ser mais confiável?

Duplo sentido 1

Título na primeira página: "Menino filho de refém das Farc trocou de mãos quatro vezes".

Duplo sentido 2

Também na primeira página, no texto-legenda "Assalto frustrado": "Acusado de tentar roubar hotel na Aclimação [...] em carro de polícia".

Duplo sentido 3

Título na pág. B4: "Desaceleração nos EUA não afeta país, diz BC".

Pauta quicando

O jornal segue a anunciar que Edison Lobão será o novo ministro de Minas e Energia, capitania do senador José Sarney.

Imagino que não faltem histórias para contar sobre Lobão.

Um perfil é urgente.

Prioridades, ainda

A Folha, que não tem correspondente no Maranhão de Sarney e Lobão, nem no Pará e em Alagoas, outros Estados onde a notícia segue a se impor, continua na Itália cobrindo o oba-oba da Ferrari.

A notícia de hoje, sobre o papel de Schumacher na escuderia, é antiga. Como o próprio texto lembra, faz semanas que o alemão foi para a pista testar carro.

Sem padronização

Com um pouco de capricho, o jornal poderia resolver um problema que irrita os leitores, a falta de padronização.

Na reportagem "'País terá de cortar na veia outra vez', diz Lula" (pág. A4), o IOF é descrito como "Imposto sobre Operações Financeiras".

Já em "Aliados acusam DEM de defender bancos" (pág. A5), IOF quer dizer "Imposto sobre Operação Financeira", no singular.

No primeiro texto, emprega-se o artigo "a" antes de CSLL, uma contribuição.

No segundo, "o", masculino.

Partidarismo

Imagino que não tenha sido a intenção, mas empregar a expressão "Aliados", ainda mais com maiúscula (por abrir título), dá uma conotação simpática aos "aliados do presidente Lula" ("Aliados acusam DEM de defender bancos", pág. A5).

Uma coisa é ser aliado de A ou B. Outra coisa é tratar os partidários do presidente como "Aliados". Só falta denominar a oposição de "Eixo".

Há certas palavras às quais a história concedeu significados que não devem ser aplicados em qualquer situação.

Nossa memória 1

Na reportagem "Marta afirma não ter pressa para decidir se será candidata" (pág. A7), o jornal assume como sua a informação/opinião da ministra: "Ela tem, portanto, até 5 de junho para tomar uma decisão".

A Folha deve, portanto, Erramos das edições em que afirmou que o prazo era o fim de março.

Nossa memória 2

A boa reportagem "Governo perde recursos e deve abrir arquivos do Araguaia" (pág. A8) afirma que "a AGU (Advocacia Geral da União) recorreu ao STF no dia 5 de novembro passado".

Pois em 23 de setembro de 2007 a primeira página destacava: "União desiste de recurso e deve abrir arquivos sobre Araguaia".

Como visto, não desistiu --e perdeu.

Serra e publicidade

Traz informações relevantes a reportagem "Governo paulista vai gastar 45% a mais com publicidade" (pág. A7). Nenhuma publicação nacional monitora despesas públicas com publicidade como a Folha. Ganham os leitores.

Mas há problemas.

O pulo de R$ 60 milhões para R$ 88 milhões, nas minhas contas, é de 47%, e não de 45%. É o de menos.

O mais grave é a despolitização da notícia.

Cabia ao jornal registrar que José Serra é pretendente à vaga do PSDB à Presidência da República. Nada.

Mais: que 2008 é ano eleitoral, quando o governador tentará eleger aliados seus a prefeituras e Câmaras Municipais. Nada.

Duas vezes se usou o verbo "explicar" para as afirmações do governo. Este verbo legitima o que pessoas e instituições dizem, por isso a Folha o evita.

Deveria continuar a evitar.

A Redação não tem TV?

Há algo estranho no texto "Acirramento da disputa deixa Hillary à beira do choro em cafeteria" (pág. A10), produzido pela Redação.

O jornal conta como a candidata a candidata se emocionou e tasca: "Nesse momento, narra o 'New York Times', sua voz se tornou um sussurro e ela disse pausadamente (...)".

Adiante: "Aqui, seu tom de voz esteve, segundo descrição de repórteres presentes ao local, marcado por sentimentos entre o ressentimento e a raiva".

Por que "narra o 'New York Times'"? Milhões de pessoas viram pela TV, mundo afora, a declaração de Hillary Clinton.

Eu a assisti em casa, antes do fechamento da Folha.

Por que o jornal tem de apelar a outra publicação, se basta ver a cena na TV e descrevê-la da forma que considerar mais indicada?

Não há submissão jornalística e cultural?

Menos mal que a Folha não disse que Hillary chorou, como o Globo ("Hillary parte para o corpo-a-corpo e chora").

Não chorou. Como disse a CNN, se "emocionou".

Gente, inflação e empréstimo consignado

A manchete de hoje, "Governo muda crédito para aposentado", trata do que deveria tratar.

A cobertura tem dois problemas, creio.

Desconfio --o verbo é esse, faltam-me informações para concluir-- que, como as medidas têm conseqüência no crédito, talvez haja impacto no consumo. Portanto, na inflação que se quer reduzir.

É esse um objetivo do governo? Faltou esclarecer.

O outro problema é geral na Folha, embora algumas editorias se saiam melhor: as decisões do governo atingem a vida de milhões de pessoas.

Nenhuma delas, porém, apareceu no jornal.

A Folha se limitou ao mundo oficial.

Alma de release

A reportagem, correta, informa a fonte do número: "[...] segundo cálculos da Abravest (Associação Brasileira do Vestuário)".

O aspecto de nota promocional é do título, "Indústria da moda perde R$ 6 bi ao ano com pirataria" (pág. B7).

A informação pode estar correta ou não --é a indústria que a divulga.

Errado é a Folha bancá-la.

Colunas e ruínas

Começou bem a coluna Mônica Bergamo em página inteira, sendo ou não verdade o que afirma o empresário Pedro Corrêa do Lago ("Debret do Masp não é um Debret, diz pesquisador").

Termelétricas

Manchete de hoje do "Estado": "Falta de chuvas faz governo ligar usinas térmicas".

Título da Folha no alto da pág. B7 da sexta-feira: "Termelétricas produzem perto do limite".


     
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