14/01/2008
A cara do domingo
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br
Duvido que a Folha tenha como provar a sua manchete dominical, "País ganha 60 mil novos milionários em apenas um ano". A estimativa é do Boston Consulting Group. O jornal não deveria subscrevê-la em títulos, muito menos no principal. Pode até ser verdade, mas recomenda-se informar de cara a fonte.
Há certo ar de chute na projeção. Como saber com exatidão quantas pessoas físicas há com aplicação de no mínimo US$ 1 milhão no mercado financeiro?
A edição e a reportagem aparentaram falta de capricho, mais evidente por se tratar do dia da semana que deveria ser o mais caprichado: o empresário com fotografia na primeira página, Fábio Cunha, não se enquadra no critério de milionário; ele não tem US$ 1 milhão no mercado financeiro. Ao menos a Folha não diz que tem.
Sua empresa vale em torno de R$ 2 milhões. Como ele é sócio do irmão, sua parte seria, com o patrimônio dividido "irmamente", R$ 1 milhão. Para manter US$ 1 milhão no mercado financeiro, suas aplicações equivaleriam quase ao valor da empresa, mesmo que ele fosse o único dono.
O Brasil ganhou 60 mil novos milionários (em dólar!) em 2007, mas a Folha não encontrou um deles para estampar na primeira página.
Nem em Dinheiro. Nos três exemplos perfilados, Fábio Cunha, como visto, não se enquadra; Ivete Sangalo já era milionária muitíssimo antes de 2007. Seu perfil não fala em aplicações no mercado financeiro; o empresário Thiago Oliveira, "não vende" seu negócio por R$ 2 milhões. Ele está construindo uma casa de R$ 1,5 milhão, que consumirá suas aplicações. R$ 1,5 milhão não equivale a US$ 1 milhão.
O tema da reportagem é interessante, pouca gente não quer ler sobre o caminho da roça para virar milionário.
Mas faltou cuidado, capricho, ambição jornalística.
No gênero, as revistas semanais costumam fazer melhor.
Batalhas perdidas 1
Esta crítica e a coluna dominical do ombudsman já se referiram repetidas vezes à obrigatoriedade de identificar publicidade como tal.
Abstenho-me de, uma vez mais, enumerar as determinações do Manual da Redação.
Registro que o anúncio de automóvel na primeira página de domingo reproduz recursos jornalísticos, como a remissão "Veja nas páginas 5, 6 e 7".
Pode ser confundido com material editorial.
O anúncio não recebeu a identificação compulsória de "informe publicitário".
Batalhas perdidas 2
Para a Folha refletir, em um tempo no qual cresce a disposição dos leitores de participar do debate público, e o Painel do Leitor vive infestado de leitores "não comuns": a revista Veja, cuja seção Cartas não está "amarrada" a um limite de espaço prévio, informa que as mensagens publicadas pularam de 947 em 2001 para 2.154 em 2007.
Teles e negligência
A leitura da coluna de Janio de Freitas e das reportagens em Dinheiro sobre a possível compra da Brasil Telecom pela Oi (Telemar), no domingo, reforçam a impressão de negligência na recusa --a essa altura, a palavra é esta: recus-- do jornal em não apurar em processo judicial na Itália informações sobre a disputa empresarial no setor de telecomunicações no Brasil.
Não sei se os depoimentos e documentos são honestos e autênticos, não tenho a mais remota idéia sobre que parte do confronto tem mais ou menos razão.
O que não se entende é a Folha ignorar que há muita informação a conhecer.
Ainda mais porque elas dizem respeito à participação do Estado, no caso o governo federal e fundos das estatais, em um rolo de difícil compreensão para não iniciados.
A Folha não reconhece relevância jornalística no tema?
Ou no material existente na Itália?
Se algumas (ou a maioria ou todas) informações contidas no processo forem falsas, cabe ao jornal esclarecer e expor a eventual armação.
O estranho é fazer pouco da matéria-prima à espera de repórteres.
Alto nível 1
É ótima a reportagem de Igor Gielow com um ex-número 2 do KGB. Poderia estar em qualquer dos melhores jornais do mundo.
A propósito: se KGB significa em russo Comitê de Segurança do Estado, por que a Folha segue a usar o artigo definido "a" antes da sigla, e não "o"?
Fotos "exclusivas" são manjadas
A Folha anunciou com pompa, na manchete da capa de Veículos 2, "Fotos exclusivas mostram a 'cara' do Gol G5".
Um leitor avisou, e eu constatei na internet: desde outubro do ano passado as fotos "exclusivas" da Folha estão na rede.
Bastaria ter consultado o Google para saber que a exclusividade não existia.
O jornal deve correção.
Lugar-comum 1
"Ao todo, serão disponibilizadas 115 vagas" (em "Itamaraty muda regras em concurso para diplomatas", pág. A19 do domingo).
Ou seja: "há 115 vagas".
Erramos
O item "Força Militar", no quadro "Poderio das Farc" (pág. A26 do domingo), repete na tabela o ano de 2007.
Alto nível 2
O excelente artigo "Desconstruindo Hillary" (pág. A30 do domingo) merecia chamada de primeira página, que não houve.
Gastando sola
Ficou muito boa a reportagem dominical sobre o desmatamento na Amazônia por pecuaristas.
Senti falta de informações sobre os grandes grupos econômicos que criam gado na região, em especial no boom do Pará.
Batalhas perdidas 3
Insisto: fatal é o acidente, não a vítima.
"Vítimas fatais" aparecem em "Para moradores, acordos são 'ridículos'" (pág. C7 do domingo).
A volta
A primeira página de hoje mostra os brasileiros Pato, Kaká e Ronaldo, do Milan, que ontem goleou o Napoli.
O "nome do jogo" foi o estreante Pato, mas Ronaldo fez dois gols.
Na longa reportagem de domingo, Ronaldo não foi nem citado. Mais do que isso, a Folha afirmou, em "Com aval de Kaká, Pato debuta e modifica o Milan", pág. D3): "Pato [...] deve fazer dupla de ataque hoje com Gilardino".
Mesmo se ficasse no banco, Ronaldo deveria ter sido citado ontem.
Hoje o jornal afirma, também em alto de página ("Pato faz estréia dos sonhos no Milan", pág. D3), sobre Ronaldo: "O ex-Fenômeno [...] não estava cotado para começar jogando".
Ontem, o Estado, mais atento, afirmou: "Ronaldo, recuperado de todas as lesões (jogou no meio da semana, em amistoso em Dubai) também está pronto para jogar".
Notícia subestimada
A propósito: no dia em que o planeta comenta a estréia de Pato em Milão, a capa de Esporte da Folha é "Mano lê para forjar equipe guerreira".
E o jornal forja uma edição fria, gelada, insensível para a notícia.
Lugar-comum 2
O texto "Jornalista é BBB durante meia hora" (pág. E7 do domingo) se refere à "imprensa escrita".
Se é imprensa, é escrita.
Sim, há dicionários que aceitam "imprensa" como designação de meios eletrônicos.
Não creio, contudo, que a Folha deva adotar a expressão.
No caso, o mais apropriado seria "jornalismo impresso".
Espelho meu
A primeira mensagem do Painel do Leitor do sábado foi publicada no mesmo dia na seção de cartas do Estado.
Último a saber
Se era para publicar a notícia sobre o implante de cabelo do ex-ministro José Dirceu, que se publicasse junto com todos os jornais.
A notícia só saiu na Folha um dia depois, no sábado.
Febre amarela e "fenômeno de imprensa"
A cobertura de hoje da Folha sobre febre amarela é superior à da concorrência.
O motivo fundamental foi a iniciativa de ouvir médicos independentes do governo. Eles concordaram com o ministro Temporão. Nas palavras de Dráuzio Varella, há "uma situação normal". "O que acontece é um fenômeno de imprensa."
Desde 1942 ninguém adquire a doença em áreas urbanas.
O ministro fez pronunciamento em rede, os especialistas, no essencial, estão de acordo com ele. A Folha não tem informações que contradigam a avaliação governamental.
Logo, pareceu um exagero dar manchete ao assunto ("Ministro vai à TV e nega epidemia de febre amarela").
Forfait
A crítica diária não circulará amanhã.