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27/02/2008

Hollywood é aqui

MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br

A Folha noticiou ontem em três colunas, com fotografia da personagem: "Seqüestrada, médica tem pulso cortado e é obrigada a pular de ponte de 15 metros" (pág. C3).

A legenda: "A médica Bruna, 49, que teve os pulsos cortados para pular de rio em Taubaté durante assalto".

A abertura, empolgante: "Uma médica vítima de seqüestro relâmpago dirigiu três horas ameaçada por um estilete, teve os pulsos cortados, foi empurrada de uma ponte a 15 m de altura e, embora não soubesse nadar, ficou sete horas imersa no rio Paraíba do Sul, em Taubaté (140 km de São Paulo), agarrada ao mato para não se afogar --foi salva porque dois jovens a ouviram gritar".

Segue: "O crime foi entre a noite da última quinta-feira e a manhã da sexta. Bruna (nome fictício), 49, foi abordada por dois homens ao sair de uma farmácia --um deles tinha uma faca. Ela entrava no carro, um Fiat Uno. O veículo acabou não sendo roubado --os criminosos fugiram com R$ 200".

Como se vê, a Folha e o "Agora", de cuja Redação se originou a reportagem, compraram sem reservas a versão da senhora.

Não lhe atribuíram o relato, mas o subscreveram, numa narrativa de tirar o fôlego, de filme de ação.

Pela edição de hoje, sabe-se de pelo menos uma coisa: a tal médica na verdade não é médica. Exercia ilegalmente a profissão.

Em apenas uma coluna e sem foto, com visibilidade inferior à da véspera, a Folha informa, em matéria também do "Agora": "Falsa médica é suspeita de forjar roubo no interior" (pág. C6).

O texto diz que "o suposto assalto ocorreu no mesmo dia --quinta-feira-- em que a Santa Casa de Misericórdia de São José dos Campos a denunciou à polícia por ter trabalhado no hospital por nove meses como falsa médica".

Em si, o caso é de grande interesse.

Detenho-me no aspecto jornalístico: não cabe aos jornais de qualidade assumir versões alheias, a não ser quando estão certos de que elas são fiéis aos fatos.

A Folha deveria escalar equipe para investigar a história, contá-la com ambição jornalística e ser transparente com os leitores sobre a evidente falha de ontem (mesmo que tenha havido assalto, já se sabe que a mulher não era médica; e bancar informações não comprovadas é erro).

Tropeços graves devem ser aproveitados para reavaliar os procedimentos e se preparar para evitá-los da próxima vez em que surgirem cenas que, de tão boas, podem ser de ficção.

O grande pauteiro

O editorial "Volta à carga" de hoje abre assim: "Começam a surgir sinais enfáticos de que o governo Lula iludiu a opinião pública no debate acerca da renovação da CPMF".

A impressão é reforçada pela manchete "Sem CPMF, arrecadação sobe R$ 9,6 bi".

Acrescento: "começam a surgir sinais enfáticos" de que, com contribuições diferenciadas, o jornalismo foi co-autor da ilusão, dando a entender que seria necessário de fato um corte expressivo no Orçamento em virtude da perda do imposto (não só) do cheque.

Não tive tempo de pesquisar, mas a lembrança é de que o tom da Folha, nos dias seguintes à decisão do Senado de não prorrogar a CPMF, foi de que a perda de arrecadação teria de ser compensada por tesouradas orçamentárias.

Salvo engano, editorialmente o jornal defendeu a renovação da CPMF, porque o impacto imediato do seu fim não teria nenhuma compensação prevista na arrecadação.

Ao ler o noticiário de hoje, lembrei-me de cruzamento de dados de pesquisas da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (sobre políticas sociais): seja no governo FHC ou no governo Lula, a mídia é muito influenciada, submissa mesmo, às versões oficiais.

Primeira página

A coluna Mônica Bergamo deu duas notas, a sexta e a sétima, sobre a cirurgia da modelo Naomi Campbell.

De bom tamanho, creio.

De posse de mais informações, Cotidiano acrescentou um texto da colunista, em duas colunas, de pé de página.

De ótimo tamanho.

A notícia era conhecida desde ontem, a partir do furo de Mônica Bergamo na Folha Online.

Mesmo assim, a primeira página considerou o assunto relevante para dar foto da modelo e o título "Naomi Campbell retira cisto no Sírio-Libanês".

Um exagero.

Outro problema da primeira página: ficou estranhíssimo, na edição São Paulo, o título "Mattoso diz que só passou dados de caseiro ao Coaf e a Palocci". Não pela formulação, mas por estar no canto direito inferior da página, cercado pelas fotos das múmias e do campeão em matemática. As chamadas sobre economia (e política) ficaram longe, no alto da página. Estranho mesmo.

Múmias

No caso das múmias, revelado ontem pelo Diário de S. Paulo, desconfio que, muito mais interessante do que saber como os corpos se conservaram, é encontrar pistas sobre a identidade das mulheres. O Diário diz que "diários secretos" podem esclarecer quem eram elas.

A história tem apelo.

O tempo passou na janela

Os jornais --do "Estado" ao "Globo", passando pelo "Dia" ("Milícia toma até o palanque de Lula na Z. Oeste")-- destacaram a presença, em ato no Rio com a presença do presidente da República, de um deputado acusado pelo Ministério Público de formação de quadrilha e de integrar milícia.

Só a Folha não destacou.

Erramos

Ao contrário do que diz o texto do alto da pág. A4 ("Quem vazou sigilo deve explicar, diz Jorge Mattoso"), o procurador-geral da República não "pediu ao STF que seja aberto inquérito criminal".

Com a denúncia, o procurador pediu para abrir ação, processo. Quem tocou o inquérito foi a Polícia Federal.

Espanha

A Folha faz pouco da reta final da campanha eleitoral na Espanha.

Hoje não saiu nada.

É um erro.

Lição

Lide da boa reportagem "Alfabetizado pela mãe, garoto ganha ouro em matemática" (pág. C3): "Nas estatísticas, a presença de Ricardo Oliveira da Silva, 19, na sétima série do ensino fundamental contribui para a alta defasagem escolar --repetência-- no país. No mundo real, é a história de um vencedor".

O jornal deveria se inspirar no que imprimiu: o mundo real é mais fascinante que o das estatísticas.


     
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