06/03/2008
Volta da Guerra Fria
MÁRIO MAGALHÃES
ombudsman@uol.com.br
Equador, Colômbia e Venezuela são os países onde se concentra a crise sul-americana desencadeada com a invasão colombiana ao território equatoriano para atacar --e matar-- integrantes das Farc.
O "Globo" enviou repórter a Bogotá.
O "Estado", a Quito e à fronteira entre Colômbia e Venezuela, do lado colombiano.
A Folha investiu mais. Conta com enviados a Caracas e Bogotá; à fronteira de Venezuela e Colômbia (pelo lado venezuelano); e ao Equador, nas proximidades da fronteira com a Colômbia, na área em que se instalava o acampamento bombardeado.
A superioridade da cobertura da Folha não se deve apenas ao investimento maior, mas ao tom mais plural e menos partidário, que também se expressa pela saudável divergência de opinião do amplo leque de colunistas e articulistas do jornal.
Na sua boa coluna de hoje, Eliane Cantanhêde se refere à "Guerra Fria extemporânea e levemente ridícula da América Latina".
Tomo a liberdade de acrescentar: no jornalismo das Américas, o tom de Guerra Fria não é levemente ridículo, e sim absolutamente ridículo.
Manchete
Pelo tom unilateral, a manchete da Folha parece a menos feliz entre os três jornais mais influentes do país.
Folha: "OEA evita condenação direta à Colômbia".
"Globo": "Acordo na OEA reduz tensão entre Colômbia e vizinhos".
"Estado": "Sob pressão dos vizinhos, Equador e Colômbia selam acordo na OEA".
A informação da Folha não está errada, foi isso mesmo que ocorreu.
De certo modo, porém, a Colômbia foi condenada, basta ler a resolução para constatar.
A notícia principal do dia era a diminuição da temperatura, com as ameaças de guerra substituídas por mais diplomacia. A manchete da Folha não deu conta desse fato.
Primeira página
O jornal fez bem em destacar a sua equipe de enviados especiais na primeira página (não entendi por que faltou, na chamada sobre o embate democrata nos EUA, o nome do enviado ao Texas).
O bloco superior da capa, contudo, se enfraqueceu com uma fotografia que nada tem a ver com o conflito sul-americano. As chamas que destruíram a cadeia de Franca não provocaram feridos.
Por mais espetacular que fosse a imagem, o alto da primeira página merecia uma fotografia sobre o assunto que ocupou boa parte dela.
Foi o contrário
O texto "Guerra Fria e Quente" (pág. A2) afirma que Lula "não deu as caras para tirar fotos ao lado do equatoriano".
A pág. A15, porém, imprimiu fotografia de Correa com o colega brasileiro.
Na TV, os dois presidentes apareceram posando, com Lula dando um tapinha na mão do convidado.
Folha versus Folha
Em quem confiar: na enviada especial da Folha ao Equador ou em agências internacionais?
Diz o texto "Sobreviventes do ataque podem ser processadas" (pág. A16), assinado pela Redação, com agências: "Elas [três mulheres] são as únicas sobreviventes do bombardeio".
(Havia uma recomendação formal para empregar "único" apenas em referência a um. Se são três, não são únicas. Ainda vale a norma?)
De Angostura (Equador), a repórter da Folha conta: "Para os equatorianos, o local era de treinamento e, na hora do ataque, vários outros guerrilheiros fugiram nas imensidões à frente".
Conforme as agências, uma certeza.
Pelo relato de Flávia Marreiro, uma hipótese diferente, restando a dúvida.
A opção da repórter foi melhor.
Segundo, não primeiro
A reportagem "OEA apóia Equador, mas poupa Colômbia" (pág. A14) transforma Raúl Reyes em principal líder das Farc, ao citá-lo entre vírgulas como "o dirigente".
Mesmo com Reyes vivo, o principal dirigente da organização era Marulanda.
Isolamento
Parece haver erro de foco na cobertura da Folha em Bogotá. As declarações de Uribe, as versões governamentais, a abordagem do jornalismo colombiano --tudo isso pode ser escrito com base nas agências e nos sites dos jornais.
A questão central na Colômbia, creio, é contar o estado de ânimo dos habitantes locais, o que só foi feito residualmente no material que a Folha publicou até agora.
Uma década atrás, eu apurava uma matéria em Letícia, cidade colombiana na fronteira seca com o Brasil. Indaguei a um professor sobre as Farc, e ele respondeu: "Onde há injustiça há guerrilha".
Era uma inequívoca manifestação de simpatia.
Hoje seria mais difícil encontrar quem dissesse isso. Há enorme rejeição às Farc na Colômbia, das mais radicais agremiações de direita às mais radicais de esquerda. A esmagadora maioria do povo colombiano, dos mais ricos aos mais pobres, odeia as Farc.
Não surpreende --como simpatizar com um grupo que, para ficar em um exemplo, seqüestra bebês, como os militares argentinos faziam na última ditadura?
Esse componente, a rejeição às Farc e o possível apoio popular a um ataque como o recente, é um aspecto fundamental para entender a decisão de Uribe de fazer o que fez.
"Escalada armamentista"
Há meses o jornalismo brasileiro, inclusive a Folha, vem falando sobre a "escalada armamentista" da Venezuela.
Ao conhecer os efetivos e equipamentos militares dos países agora em choque, surpreendi-me: a Colômbia é disparado o país mais bem armado.
E a tal escalada de Chávez?
A propósito, a correlação de forças não pode ser subestimada ao noticiar bravatas sobre uma possível guerra: Equador e Venezuela não têm força para um confronto bélico com a Colômbia, ainda mais considerando a aliança (ou submissão) do governo deste país com o dos EUA.
Excelência jornalística
É brilhante o artigo "Guerra, direto e a política da lei" (pág. A16).
A Folha deveria considerar a introdução de coluna fixa de opinião e análise em Mundo.
Inflação
O texto "Restrição de gasolina leva a greve na divisa" (pág. A17) afirma que a gasolina no varejo da Venezuela é uma das mais baratas do mundo. Dá o preço: R$ 7 --um roubo.
O correto não seria R$ 0,07?
Dez batalhões
A reportagem "Chávez agora diz querer 'paz verdadeira'" (pág. A17) afirma que "não é possível informar quantos militares foram deslocados para a área" da fronteira com a Colômbia.
Sugiro que se apure qual é o contingente máximo em um batalhão nas FFAA venezuelanas e se faça uma estimativa das tropas mobilizadas.
Se não houver um padrão, é possível pelo menos informar quantos homens e mulheres essa tropa representaria, por exemplo, no Brasil.
Por fim: por que o "agora" do título? Antes Chávez dizia não querer a paz? Se for isso, seria preciso explicar.
Sumiram 30 pontos
Há erro na nota "Texas, a missão" (pág. A18) na edição Nacional. Afirma-se que Hillary Clinton liderava a disputa em assembléias no Estado por 26% a 44%.
O correto é a senadora com 56%, como saiu na edição São Paulo, corrigida.
O peixe de Hillary
A Folha não tem elementos, não entrou na cabeça da candidata, para afirmar, como fez em título na primeira página, que "Hillary volta a se ver como favorita diante de Obama".
Como diz a boa reportagem "Hillary se posiciona como a favorita e sugere chapa dupla" (pág. A18), a candidata "passou o dia de ontem tentando se reposicionar como a favorita do Partido Democrata e a com mais chance de ser eleita".
Não sei se a ex-primeira-dama algum dia deixou de se ver como a favorita ou, caso tenha deixado, se agora mudou de idéia. O que há são movimentos, imagens que ela, como todo candidato, tenta emplacar.
Na capa da Folha, emplacou.
Convite à reflexão
Abertura da coluna de Kenneth Maxwell: "Uma das coisas mais estranhas sobre o jornalismo brasileiro é o fato de que continue a conferir credibilidade àquilo que os jornais dos Estados Unidos, especialmente o New York Times, têm a dizer sobre o país".
A leitura do artigo convida à reflexão sobre submissão cultural e jornalística.
Partidarismo
Manchete do "El País" da quarta-feira, sobre o debate da véspera, na reta final da campanha eleitoral espanhola: "Zapatero combate com propostas a mensagem catastrofista de Rajoy".
DEM, o pauteiro
O que mais chama atenção no erro de atribuir ao ministro Orlando Silva (Erramos de hoje) ação que não corresponde à verdade é o fato de a Folha ter se baseado em uma informação, sobre dados do Siafi, transmitida ao jornal pelo DEM.
O DEM é adversário do PC do B e vice-versa.
Já a Folha não deve ser adversária de agremiação alguma, e sim fiscal jornalística de todas elas, com o espírito crítico preconizado por seu projeto editorial.
Vezes mil
O texto "Prefeito petista é cassado em Ribeirão Bonito" (pág. A12) fala em contrato de "R$ 3.990 mil".
Se o valor era de 3,99 milhões, assim deveria ser descrito.
Mas parece alto para um contrato com jornal. O "mil" não está sobrando? É o que pareceu a um leitor.
Jornal escrito em inglês
A nota "Sem guerra" (pág. A12) fala em "think tanks", sem traduzir.
Ontem um leitor indagou, ao ler a mesma expressão no jornal, igualmente sem tradução: o que é isso?
Os leitores não são obrigados a saber.
Notícia atrasada
Título de hoje: "Assembléia de Alagoas arquiva processo contra 11 deputados" (pág. A12).
A decisão ocorreu na terça-feira.
Estava ontem nos jornais impressos.
A Folha só deu hoje. O jornal havia publicado o mais importante furo do caso, o grampo em que um ex-deputado pedia sua parte no butim, "dinheiro roubado".
Ciclotímica, a Folha vacila até nas coberturas em que tem a dianteira.
Em campanha
A página aberta com a reportagem "Juiz católico adia decisão sobre embrião" (pág. A20) é equilibrada, concede espaço para a manifestação dos dois lados.
Já a página seguinte, "'Não há pessoa humana embrionária'" (pág. A21) é um massacre, um relato unilateral sem contraditório e divergência, a não ser quando a manifestação contrária serve de escada para novo massacre dos defensores da pesquisa com células-tronco embrionárias.
Essa postura é absolutamente estranha ao projeto editorial da Folha.
A história de Natasha
Na terça-feira retrasada, ao contar a história da menina Natasha, a Folha informou: "A pasta diz ainda que 'uma equipe da secretaria irá à escola para analisar as necessidades da aluna e, se preciso, enviará equipe para atendê-la exclusivamente, já que neste mês houve concurso para contratação de 20 mil novos funcionários'".
Hoje o jornal informa ("Médica será titular da Secretaria da Pessoa com Deficiência", pág. C3) que melhoraram as condições de estudo da menina.
Mas que não há funcionários especializados para cuidar dela. Pelo que entendi, sua mãe terá de continuar indo à escola para dar à filha as condições de estudo que são responsabilidade do Estado.
Logo, o Estado de São Paulo descumpriu a promessa.
Só que isso não está escrito, com todas as letras, na Folha.
O Estado disse que faria uma coisa e fez outra.
A nossa guerra
Enquanto a Folha saiu com fotos de faixas pela paz e de bandeiras brancas (esta imagem só na edição Nacional), o "Globo" deu na primeira página o flagrante de um traficante armado no complexo do Alemão, perto do local a ser visitado por Lula.
Vale a pena ver de novo
Título de reportagem (isso mesmo, reportagem, não artigo de opinião) da Folha no último dia 19: "Real absorve o favoritismo de líderes".
Linha-fina: "No mata-mata da Copa dos Campeões, clube espanhol é caso raro de primeiro no Nacional e mais cotado no duelo continental".
Era a apresentação dos jogos entre Real Madrid e Roma pelas oitavas-de-final da competição européia.
Ontem a Roma eliminou o clube espanhol.
Como evitar constrangimentos dessa natureza? Com a velha receita: preferindo informar, em vez de palpitar.
Faltou dizer
Nas 14 linhas da nota "Pede para sair" (pág. E2), informa-se sobre o novo projeto do cineasta José Padilha.
Não se esclareceu se será um documentário ou um filme de ficção.
A Folha lê a Folha?
Manchete do sábado: "Salário mínimo vai para R$ 415".
Linha-fina: Alta, de 9,2%, vale a partir de hoje [...]".
Ainda ontem, nos indicadores de Dinheiro, o valor do salário mínimo em março permanecia em R$ 380.
Um por todos
Título de ontem: "Cineasta Spike Lee é júri em festival de filmes na internet" (pág. F7).
O texto informa que Spike Lee "é júri honorário".
Creio que ele é jurado. Júri é designação para o coletivo.
Uma leitora reparou e pediu correção.
A demora nas correções
É natural que eu, volta e meia, reflita sobre meus comentários. Às vezes acho que fui leniente com alguns tropeços, noutras que peguei pesado.
Ao ler a seção Erramos de ontem, reafirmei a convicção de que, ao abordar o problema do atraso nas correções, se há equívoco de minha parte, é não ser mais incisivo.
Exagero?
Saiu uma correção de erro publicado em 22 de fevereiro: 12 dias para corrigir.
Outro erro saiu na edição de 15 de fevereiro: 19 dias por um Erramos.
Pior, um é 4 de fevereiro: a retificação esperou 30 dias.
Houve ainda um de 2 de fevereiro: 32 dias!
Tudo isso no Erramos de ontem.
Reafirmo: não basta corrigir, é preciso corrigir logo.
É um direito dos leitores.
Contribuições ao Erramos
Erramos saiu hoje com uma única nota.
Esta crítica é uma contribuição para que amanhã o jornal reconheça mais amplamente seus enganos.
Esclarecimento
Peço desculpas à Redação pelo reiterado envio repetido desta crítica a certos e-mails, às vezes até mais de duas vezes por edição.
Não têm faltado apelos do ombudsman, até agora sem sucesso, para a área técnica do jornal resolver o problema.