|
07/10/2004
MARCELO BERABA
Folha, "Estado" e "Globo" têm praticamente os mesmos assuntos em suas capas, embora as manchetes sejam diferentes. A Folha opta pelo resultado do relatório sobre a inspeção no Iraque, e o "Estado" pela aprovação, pelo Senado, da Lei de Biossegurança.
Folha: "Saddam não tinha armas proibidas";
"Estado": "Senado aprova pesquisas com células-tronco e libera transgênico".
O "Globo" optou por manchete local: "Violência obriga PM a mudar 8 comandantes". O outro destaque do jornal do Rio é o censo escolar: "Censo do MEC descobre 102 mil alunos fantasmas".
Os três jornais dão ainda destaque para a crise da VASP. Folha e "Estado" têm o mesmo assunto nas chamadas para as eleições: "Presidente é acusado de uso eleitoral do Planalto" (Folha) e "Para Serra, Lula mistura governo com partido" ("Estado"). O "Globo" chama para a política estadual:
"Garotinho constrange o PDT".
"Eleições 2004"
A Folha migrou, desde ontem, o projeto gráfico do caderno especial "Eleições 2004" para o caderno "Brasil". É uma forma de sinalizar para os leitores que está dando um tratamento diferenciado para a sua cobertura eleitoral, valorizando-a.
A mistura, no entanto, de famílias ou fontes diferentes (não sei dizer), com alguns títulos em negrito e outros não, como ocorre nas páginas A5, A10 e A11 da Edição Nacional, polui o jornal.
O "Estado" tem entrevista com ACM, agora insatisfeito com o PT: "ACM se irrita com PT e anuncia oposição ao governo".
O jornal "Extra", do Rio, tem outra versão para a renúncia de Moreira Franco em Niterói. Teria sido vingança. Moreira teria pedido, na véspera da renúncia, ajuda ao PMDB de Garotinho e teria sido "desdenhado" pelo ex-governador. Título do jornal: "Garotinho deixou Moreira nu e de mão no bolso".
"Brasil"
O "Estado" informa que Mauro Marcelo, diretor da Abin, está sob fogo de militares da reserva. Como ele fala muito em uma função que até pouco tempo era silenciosa, é possível realmente que já esteja formando inimigos entre os militares. Como os da ativa não falam, recorrem aos da reserva.
No caso, o grupo que, segundo o Estado, abriga o pensamento da direita brasileira.
Biossegurança
Para não dividir o noticiário, o jornal vem optando por editar as discussões sobre a Lei de Biossegurança e sua tramitação no Congresso em "Dinheiro". Até aí, tudo bem, é uma opção. Mas, ao fazê-lo, deveria dar a mesma atenção para todas as questões polêmicas embutidas na nova legislação aprovada ontem no Senado. Como o interesse natural da editoria é pelas repercussões na economia do país, o foco é todo na questão dos transgênicos.
A discussão sobre a clonagem terapêutica, por exemplo, ficou restrita a um pequeno texto ("Trecho sobre clonagem terapêutica gera dúvida", pág. B3) e a uma menção no final do artigo do Marcelo Leite (pág. B2). Artigo este, aliás, que na Edição Nacional tem como chapéu, apropriadamente, "Trangênicos/Análise". Na Edição SP, foi substituído por "Biossegurança/Análise".
"Esporte"
O "Globo" e o "Dia" informam que o presidente da Federação de Futebol do Rio, seu vice e outros quatro funcionários estão sendo denunciados por desvio de dinheiro das rendas dos jogos e por formação de quadrilha. É uma suspeita antiga. A Folha noticia apenas na Edição SP, e assim mesmo em uma nota curta.
Em que time o Goiás aplicou ontem a goleada de 4 x 0? A nota da pág. D4 da Edição SP não informa. O leitor precisa conhecer o escudo do clube que perdeu para adivinhar.
Pesquisa
Recebi do diretor do Datafolha, Mauro Paulino, os seguintes comentários a respeito da Crítica Interna de segunda-feira:
"Caro Beraba, ao contrário do que você afirmou na crítica interna de ontem o Datafolha não errou o resultado final da eleição em São Paulo simplesmente porque não fez pesquisa para apurar o resultado final, a chamada boca-de-urna. Não é correto comparar pesquisa feita na véspera da eleição, que mede intenção de voto, com os resultados das urnas. Em São Paulo, mesmo no dia anterior à eleição, ainda havia indecisos (25% na espontânea). Além disso 18% dos que escolheram algum candidato na pesquisa admitiam a possibilidade de mudar o voto até o dia seguinte.
O Datafolha captou o movimento ascendente de Serra na reta final e registrou que ele estava três pontos à frente de Marta. Não poderia cravar que esse movimento continuaria no dia seguinte. Como informar algo que ainda não havia acontecido? Só a boca-de-urna captaria o movimento completo.
A margem de erro, portanto, corresponde apenas aos dias em que a pesquisa foi feita e, nesses dias, a diferença entre Serra e Marta era de três pontos.
Não é correto e considero injusto imputar à pesquisa um erro que não foi dela. O erro foi não fazer boca-de-urna. Grato, Mauro".
Se a pesquisa de 2 de outubro não pode ser comparada com o resultado das urnas, e concordo com o diretor do Datafolha, também não pode ser usada, como fez o jornal na edição de segunda, para afirmar que o instituto detectara "onda de crescimento" de Serra. As pesquisas do Datafolha vinham mostrando empate entre os dois candidatos e, na última, uma mexida a favor de Serra dentro da margem de erro. Nada indicava, ali, que havia sido detectado uma "onda de crescimento", como depois veio a afirmar.
Concordo com o Mauro Paulino que foi um erro o jornal não fazer a boca-de-urna.
|