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08/10/2004
MARCELO BERABA
Folha, "Estado" e "Globo" publicaram, no alto de suas capas, a mesma foto dos atentados no Egito, a do socorro à grávida israelense ferida. Curioso que, internamente, os três optaram também pela mesma foto, a de um menino israelense sendo atendido em uma maca. A maioria dos diários brasileiros preferiu não publicar fotos do atentado na capa. Entre os diários norte-americanos, a maioria também veio sem fotos do atentado. Os que publicaram, preferiram a de um garoto ferido carregado no colo por um funcionário israelense. É uma foto mais "palatável". E alguns dos grandes jornais, como o "Los Angeles Times", o "New York Times" e o "Chicago Tribune", fizeram a mesma opção da Folha, "Estado e "Globo" e publicaram a foto da grávida ferida, sem dúvida a mais forte das que pude ver editadas.
É até compreensível que os jornais, em casos como o dos atentados no Egito, optem por fotos iguais de um cardápio às vezes limitado enviado pelas agências internacionais. Mas, Folha e "Estado" optarem por uma foto praticamente idêntica _ a do voleio de Ronaldinho assistido por Ronaldo, ontem, no treino em Teresópolis _, aí já é coincidência demais. Os cortes das fotos (a do Egito e a da seleção) são idênticos, a diagramação dos dois jornais concorrentes idem. A indiferenciação é ruim para os dois e para os seus leitores.
As manchetes:
Folha: "Ataques deixam 35 mortos no Egito" (na Edição Nacional eram 42 mortos); "Estado": "Erundina nega apoio e irrita o PT"; "Globo": "Terror ataca balneários com bombas e mata 37 no Egito".
Os três jornais deram destaque para a conclusão de auditoria feita pelo Ministério da Saúde no Rio. A Folha foi o único jornal que tentou "politizar" o anúncio : "Governo aponta fraude na saúde em gestão tucana" (na Edição Nacional, "União aponta fraudes em hospital na gestão tucana"). "Globo": "Máfia desviou R$ 100 milhões de hospital federal no Rio" (manchete); "Estado": "Fraude custou R$ 200 milhões, avalia Saúde".
"Eleições 2004"
Alianças, alianças e alianças. A cobertura eleitoral da Folha e do "Estado" de hoje é toda dedicada às negociações para o segundo turno. E nada mais.
O "Globo" tem, pelo menos, uma história curiosa, de uma vereadora eleita pelo Prona, Senhorita Suely, que, segundo o jornal, ainda não apareceu, e ninguém a conhece no endereço que forneceu como domicílio.
Egito
Uma das três cidades atingidas pelos atentados, Ras al-Sultam, não aparece no mapa que a Folha publica na pág. A12. O mapa é imprescindível em notícias como esta, e é inexplicável que seja publicado tão pequeno e incompleto.
"Dinheiro"
O jornal consegue escapar do cardápio diário de indicadores econômicos com um levantamento próprio sobre o impacto dos aumentos salariais nos preços (capa de "Dinheiro").
O jornal poderia ter escolhido uma foto melhor do que a que ilustra o noticiário sobre a Vasp, na pág. B4 ("Ultima chamada").
O "Estado" edita repercussões bem mais amplas do que as da Folha a respeito da aprovação, pelo Senado, da Lei de Biossegurança. Tanto em relação às pesquisas científicas (que a Folha publica em "Ciência") como às relativas ao impasse que persiste na questão da soja transgênica ("Dinheiro").
Crimes
Embora esteja correto o título da reportagem que trata do levantamento de casos de violência no Brasil no ano passado ("Registro de crimes sobe no governo Lula", capa da Ed. Nacional e pág. C4 da Edição SP), ele passa a idéia de uma responsabilidade que a própria reportagem se preocupa em relativizar.
A questão da segurança exige cada vez mais uma ação nacional, mas ainda é basicamente de responsabilidade dos governos estaduais. O jornal teria sido mais preciso, quando decidiu dar um foco político à reportagem nomeando Lula, se tivesse, por exemplo, dito que 2002, quando se computou um aumento de 11% nos registros criminais, foi o último ano do governo Fernando Henrique. Ou seja, os registros cresceram tanto no último ano do governo FHC (11%) quanto no primeiro do governo Lula (18%). Poderia ter citado, também, os governadores do Sudeste que estão à frente dos Estados que concentram 60% de crimes violentos contra o patrimônio. Assim, os principais responsáveis pela segurança pública (FHC até 2002, Lula a partir de 2003 e os atuais governadores) estariam todos nomeados.
O jornal informa que os crimes registrados que tiveram maiores altas foram os contra o patrimônio, e relaciona seqüestros e roubos. Só que os seqüestros, como a própria reportagem informa, caíram muito. Portanto, o texto teria sido preciso se informasse que o que aumentou de fato, e muito, foi roubo. Seja pelo volume, seja pelo percentual de aumento, este é o crime mais praticado no Brasil em 2003.
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