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19/10/2004
MARCELO BERABA
A Folha tem fotos na capa melhores do que as do "Estado", tanto na Edição Nacional como na SP.
As manchetes dos dois jornais são fracas, e poderiam ter sido substituídas por assuntos mais quentes, como a crise provocada pela nota do Exército (caso Herzog) : "Faculdade que oferecer bolsa poderá criar vagas" (Folha) e "Algodão: EUA apelam à OMC contra o Brasil" ("Estado").
"O Globo" traz mais uma anomalia na disputa para a Prefeitura de Campos (RJ): "Rosinha lança casa a R$ 1 em Campos a 13 dias da eleição".
"Painel do Leitor"
O que aconteceu hoje com o "Painel do Leitor" é um exagero desnecessário.
O jornal publicou apenas uma carta de leitor.
As três cartas dos candidatos e da Apeoesp mereciam, e deveriam ter tido, um tratamento jornalístico porque dão continuidade aos questionamentos abertos pela Folha no sábado ("Serra e Marta manipulam dados em debate") com a checagem das promessas e acusações feitas pelos candidatos.
O jornal deveria ter reconhecido o erro relativo aos salários dos professores no "Erramos" e editado as cartas (ou os dados das cartas) no espaço destinado à cobertura eleitoral.
Ganhariam os leitores duplamente. Primeiro, porque o jornal teria condições de esmiuçar os pontos contestados pelos candidatos. Segundo, porque os leitores teriam seu acanhado espaço de volta para publicar o que a seção promete: as suas mensagens.
"Eleições 2004"
É impressionante como o jornal reluta em dar tratamento igualmente jornalístico aos dois candidatos à Prefeitura de São Paulo.
Na página A6, faz jornalismo. Mostra que a promessa da candidata Marta Suplicy de manter o preço da passagem de ônibus em R$ 1,70 até 2006 acontece às vésperas da eleição, aponta outros casos de aparente oportunismo eleitoral (motoboys e corredores de ônibus) e brinda o leitor com uma análise feita por um repórter especializado em transportes ("Prefeita só não diz quem paga a conta"). Não sei se todos os dados estão corretos, mas isso é jornalismo.
Na página seguinte da Edição SP (A5, na Ed. Nacional) as promessas feitas pelo candidato José Serra ("Serra promete fechar bares em área violenta") não têm o mesmo tratamento. O candidato propõe uma medida que já foi testada (fechar os bares à noite). Deu certo onde foi aplicada? Diminuiu a criminalidade onde ainda está em vigor? Faz sentido em SP? Onde? O que acham os especialistas em segurança? É eficaz ou demagógico? E o fechamento de estabelecimentos que compram ouro, dólar e desmanche? A Prefeitura tem como fazer isso? Alguma cidade já fez? Funcionou? Há estudos ou estatísticas? E a promessa de iluminação pública? Há relação, em São Paulo, entre criminalidade e falta de iluminação pública? Estas medidas têm alguma eficácia? Enfim, o jornal deveria ter dado o mesmo tratamento jornalístico e analítico.
Mais uma vez deixou de fazê-lo.
A candidata do PT apela, mais uma vez, para a chantagem: "Planalto pode não dar verba a Serra, diz petista". O jornal dá mal. E não registra a reação irritada do Planalto, captada pelo "Estado" com bastidores e explicitada pelo ministro da Coordenação Política.
Herzog
O jornal vai mal neste caso das fotos de Vladimir Herzog, divulgadas domingo pelo "Correio Braziliense" ("Exclusivo - Herzog, humilhação antes do assassinato").
Primeiro, porque ignorou o assunto na sua edição de ontem, quando todos os jornais já repercutiam a reportagem e publicavam as fotos.
Segundo, porque tratou mal do assunto na sua Edição Nacional de hoje. A crise entre o Planalto e o ministério da Defesa por conta da nota do Exército começou cedo, mas não foi captada pelo jornal na edição que fechou às 20h30. O "Estado" traz uma cobertura completa na edição que circula no Rio com horário de fechamento de 21h. A edição da Folha não fala da crise, não reproduz a íntegra da nota do Exército (iniciativa de praxe em casos como este), e não acrescenta praticamente nada à cobertura de véspera dos outros jornais.
Terceiro, porque mesmo a Edição SP, que traz a crise e a íntegra da nota, não consegue avançar nos fatos.
O "Correio Braziliense", que saiu na frente, assim continua. Além das crises que tomaram o governo (Planalto x Defesa e crise na Comissão de Mortos e Desaparecidos), tem reportagem (que poderia ter sido prevista por outros jornais) com o principal personagem deste novo episódio, o cabo reformado José Alves Firmino. Foi Firmino quem entregou as fotos de Herzog, e vários outros documentos do DOI-CODI, para a Câmara dos Deputados, em 97. A história de Firmino justifica uma reportagem. No
"Correio", ela levou o título "Um espião entre a vida e a morte".
A cobertura da Folha está melhor do que as dos concorrentes diretos em um aspecto: na Edição SP, a reportagem principal ("Caso Herzog abre crise entre Lula e Defesa") relaciona também o caso do Haiti para mostrar que a irritação do Planalto com o ministro Viegas é anterior ao caso Herzog. Na sexta, o general Augusto Heleno, que comanda as tropas brasileiras no Haiti, havia feito declarações críticas ao candidato John Kerry, o que provocou uma reação diplomática. A Folha associa os dois fatos (Haiti e Herzog) para mostrar que o Planalto desconfia que Viegas não tem autoridade sobre o Exército.
A reforma do "Estado"
O "Estado" circula hoje com 82 páginas na edição de 0h20 e com 76 páginas na edição que veio para o Rio. Na terça passada, circulou, respectivamente, com 68 e 64 páginas. Um aumento substantivo.
Rio lá fora
Tenho a impressão que temos sido imprecisos ao nos referir ao trecho do artigo "A cidade da cocaína e da carnificina" (do "Independent", publicado pela Folha, na íntegra, no dia 13/10) que trata da violência no Sudão e da Tchetchênia. Tanto a repercussão feita naquele dia ("Jornal britânico provoca polêmica no Rio") como a reportagem de hoje ("Tocamos em nervo exposto, diz britânico", capa da Ed. Nac. e pág. A2 na Ed. SP) parecem indicar que a comparação com a situação de guerra nos dois países se refere ao Rio como um todo, e não é bem assim. Reproduzo o parágrafo traduzido pela Folha:
"O assassinato [de Escadinha] pontuou um mês explosivo na ininterrupta guerra das drogas que toma o Rio. As favelas da cidade estão irrompendo em violência que muitas vezes se equipara aos conflitos da Tchetchênia e do Sudão em termos de intensidade, se não em destaque na mídia".
"Esporte"
Título da capa do caderno: "Brasileiro ameaça varrer de vez pólos de rivalidade".
Mesmo que alguns times tradicionais caiam (e ainda faltam dez rodadas para o final do campeonato), o jornal não pode afirmar que será "de vez", para sempre.
Aliás, os títulos da reportagem, com exceção da "Memória", são especulativos: além do "ameaça varrer", "C13 pode ficar sem 30% de seus sócios na elite" e "Queda de trio seria novo golpe na bilheteria".
Ameaça, pode, seria.
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