|
22/10/2004
MARCELO BERABA
Pode-se reclamar de tudo nos jornais de hoje, menos da falta de notícia.
Os últimos e surpreendentes lances do caso Herzog, as pesquisas eleitorais, a queda de Fidel, a detenção de Duda Mendonça numa briga de galo em Jacarepaguá, juros, aborto --notícias para todos os gostos.
Como os jornais trataram o caso Herzog nas suas capas:
"Correio Braziliense" - "Viúva de Herzog contesta versão da Abin -'Eu tenho certeza. Conheço o meu marido. Seu corpo. A sua expressão. A curva dos seus lábios'" (manchete) e "Laudo reforça semelhança com Vlado".
Folha - "Fotos divulgadas são de padre, e não de Vladimir Herzog" e "Foi armadilha, afirma religioso" (entrevista com o padre d'Astous, na Edição São Paulo).
"Estado" - "Herzog: fotos são falsas, diz governo. Perito contesta --Segundo laudo da Abin, as imagens seriam de um padre canadense, mas o especialista Ricardo Molina acha que duas são mesmo de Herzog" (manchete).
"Globo" - "Abin diz que fotos não são de Herzog".
"JB" - "Homem nu é um sacerdote".
Outras manchetes:
Folha - "Serra supera Marta por 10 pontos".
"Globo" - "Gargalo nas indústrias beira nível do 'milagre'".
"Valor" - "Construtoras planejam entrar no setor naval".
"O Dia" - "Marqueteiro de Lula detido em briga de galo na Zona Oeste".
As fotos da queda do Fidel estão nas capas de quase todos os diários.
Nas edições que circulam em SP, Folha e "Estado" disputam a oferta de serviços para os seus leitores. O "Estado" lança o seu "Guia" de programação, com 116 páginas. A Folha circula com o seu tradicional "Guia" semanal e oferece mais dois, o da Mostra BR de Cinema e o do GP Brasil de Fórmula 1.
Herzog
Este caso enlouqueceu os jornais. Nunca vi nada semelhante.
O "Correio" sustenta que pelo menos uma das fotos é do Herzog com base no depoimento da viúva e de um laudo que "reforça semelhança" com Vlado.
O "Estado" não toma posição, dá as duas possibilidades ("Governo nega, mas perito afirma que fotos são de Herzog"), mas erra na manchete da capa. O governo não diz que as fotos são "falsas", mas que não são de Herzog. Elas são verdadeiras, só que, segundo o governo, de outro preso. Também traz o parecer de Molina
A Folha é cautelosa na Edição Nacional e atribui ao Planalto a contestação das fotos. Mas na Edição SP assume que as fotos são do padre, sem atribuir, no título, a fonte da informação.
O jornal consegue uma entrevista com o padre d'Astous, por telefone, e este é o maior mérito da cobertura. Mas é uma entrevista incompleta.
Tenho dúvidas, e estou refletindo sobre isso para escrever a coluna de domingo, se o jornal deveria dar tantos detalhes do relacionamento do padre e da freira registrados pelos espiões. O governo não citou os nomes.
Mesmo a identificação dos dois é discutível, uma vez que foi um trabalho ilegal, os dois não são figuras públicas, não têm culpa de terem sido envolvidos com o caso Herzog e não autorizaram explicitamente a publicação do caso com tantos detalhes. Mas, admitindo que a revelação do nome seja fundamental para o esclarecimento do caso, não vejo necessidade da reprodução pública, sem contestação, de detalhes que constam do relatório do SNI. São detalhes que nada acrescentam na discussão sobre as fotos, mas levantam a suspeita de que o padre e a freira poderiam realmente ter tido um relacionamento íntimo. O jornal ouve o padre a respeito do episódio da chácara, onde teriam sido feitas as fotos do homem nu, mas não perguntou sobre as outras informações que constam do relatório do SNI. Em relação à chácara, o padre se defende dizendo que foi uma armadilha. Mas, em relação ao resto não teve como se defender. As informações que o jornal tinha sobre a seqüência de fotos já eram suficientes para deixar claro que o jornal tivera acesso aos documentos do governo (da Abin, segundo todos os outros jornais).
O caso todo é difícil e envolve vários aspectos em aberto, como a identificação do homem que aparece em uma das fotos (a que Clarice e Molina reconhecem como do Herzog), a questão dos arquivos da ditadura (agora parece não haver mais dúvida de que nem tudo desapareceu), e o próprio comportamento da imprensa.
Nesta altura, ainda é cedo para uma avaliação definitiva. Mas há vários indícios de que os jornais foram, e continuam sendo, negligentes na apuração.
O grande problema nestas horas é quando começam a defender posições e a brigar com os fatos.
"Eleições 2004"
Não entendo porque as notícias sobre a vinda de Lula ao Rio, o fracasso das votações de MPs na Câmara e as obras no Alvorada estão, tanto na Edição Nacional como na SP, sob o selo "Eleições 2004". Não entendi a lógica.
Estão trocadas, na página A10 da Edição Nacional, as fotos de Raul Pont e José Fogaça, que disputam a Prefeitura de Porto Alegre.
Nuclear
"O Globo" continua atento à questão nuclear. Abre, hoje, o seu caderno "Brasil" com reportagem ("A polêmica nuclear") feita a partir de artigo publicado na "Science".
|