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26/10/2004
MARCELO BERABA
É fraca, distante e imprecisa a manchete de hoje da Folha, "EUA esperam recorde de eleitores". Se a uma semana das eleições o jornal considera que uma estimativa de eleitores inscritos, não de resultado, justifica um título em seis colunas, imagino como noticiará, a partir de agora, os fatos relevantes das eleições no "Império". A capa do jornal --manchete, foto e os dois artigos assinados-- não escondem a simpatia do jornal pela candidatura de John Kerry.
O "Estado" deu manchete tímida, quatro linhas em duas colunas à esquerda da capa, para um escândalo que já repercute na eleição norte-americana:
"Somem 380 toneladas de explosivo no Iraque". O material estava sob a guarda dos EUA.
O "Globo" valoriza a repercussão da série de reportagens que fez durante a campanha eleitoral: "Patrimônio de 155 políticos do Rio vai ser investigado". A investigação inclui o deputado federal acusado de tentar extorquir um empresário do jogo.
"Valor" destaca a formação da maior companhia siderúrgica do mundo, a Mittal Steel Company, de capital indiano, e a repercussão no Brasil:
"Fusões globais ameaçam siderúrgicas brasileiras".
"O Dia" tem manchete forte: "Perícia revela: Cássia Eller foi vítima de erro médico". A confirmar.
Eleições no "Império"
A edição da Folha de hoje é nitidamente simpática à candidatura do democrata John Kerry. É quase uma torcida, seja na capa do jornal, seja nas duas páginas de "Mundo". Alguns observadores e alguns poucos leitores já chamaram a atenção para este posicionamento pró-Kerry (ou anti-Bush) na imprensa brasileira. Hoje, é inequívoco.
O título da primeira página do jornal ("EUA esperam recorde de eleitores") ainda se esforça para dar uma solenidade jornalística a uma reportagem que projeta várias hipóteses para o dia da eleição. Mas o título interno para a mesma reportagem , na página A11, já não consegue esconder a "torcida": "Kerry torce por comparecimento em massa". A Folha também.
Não é possível que o jornal não tivesse conseguido obter ontem, e publicado no "Multimídia" (A10), um único exemplo de jornal endossando a candidatura Bush. São dois jornais pró-Kerry e um neutro. Não seria difícil encontrar um pró-Bush nas páginas do Editor & Publisher, que faz o acompanhamento diário.
A torcida não é exclusividade da Folha. Os outros jornais brasileiros também parecem envolvidos pela campanha de Kerry. O "Globo" também. Mas, pelo menos o jornal do Rio publica um "Placar do dia" com as últimas pesquisas. As de hoje mostram Bush na frente em duas (CNN/Gallup e Reuters/Zogby) e um empate ("Washington Post"). Não chega a ser um "outro lado", mas pelo menos o leitor tem uma informação sem emoção da campanha.
O problema da torcida é que esconde ou distorce as informações e cria expectativas no leitor. Se Bush vencer, vai ser difícil depois explicar o que aconteceu.
Eleições no Brasil
Toda eleição no Brasil é marcada pelo uso abusivo das máquinas e recursos públicos e pelo jogo sujo. Esta, no entanto, segundo vários observadores, está se mostrando mais suja do que qualquer outra, com um jogo mais pesado do que o normal, e com o uso de programas governamentais sem qualquer escrúpulo.
O jornal vem tratando disso de forma esporádica, pontual, um caso aqui e outro ali.
Acho que estes casos merecem um acompanhamento diário, e alguma forma de amarração para que o leitor tenha idéia do que de fato vem acontecendo Brasil afora.
O jornal relata hoje, na Edição Nacional, casos em Porto Alegre, Sorocaba e Florianópolis. Sorocaba sumiu na Edição SP, e as outras duas cidades foram reduzidas a pequenas notas.
O que está acontecendo no Estado do Rio, principalmente em Campos e nos municípios da Baixada Fluminense, está passando despercebido. O jornal fez algumas reportagens, mas os fatos são diários e vão num crescendo na medida em que o dia da votação se aproxima. A coluna do Merval Pereira de hoje faz referência também a Goiânia.
Para a informação do leitor e para a educação cívica do país, o acompanhamento destes escândalos é mais importante do que o jogo de apoios partidários.
A Justiça afastou ontem, pela segunda vez, o prefeito de Campos. A Folha sequer registra. O "Estado" já tem repórter na cidade, onde os Garotinhos jogam tudo para não perder a eleição.
Detalhe: redundância no título da pág. A7 da Edição SP: "PSDB fará campanha para que o eleitor vote antes de ir viajar". Acho que é um vício de linguagem.
Basta "antes de viajar", não?
Namorada
Alguns problemas na reportagem "Namorada de Suplicy provoca crise na campanha de Marta", pág A4 de "Eleições 2004".
Segundo o texto, "lembrando que Mônica é jornalista, um integrante do comanda da campanha (...) acusa a namorada de Suplicy de prejudicar intencionalmente a candidata". Não entendi a relação entre jornalista e a intenção de prejudicar a candidata. Todo jornalista tenta prejudicar a campanha da Marta? O jornal endossa, neste caso, um comentário em off.
A Mônica Dallari não deveria ter sido ouvida nesta matéria em que todo o PT a acusa de prejudicar a candidatura da Marta intencionalmente e de que foi manipulada pelo senador Suplicy?
Caso Herzog e arquivos
A Folha parece mais preocupada em provar que as fotos não eram de Herzog do que cobrir os desdobramentos do caso. E o desdobramento mais importante não é a opinião de um perito da Polícia Federal a partir de "análise preliminar" ("Para perito da Polícia Federal, foto não é do jornalista Vladimir Herzog", pág. A9). O mais importante agora é a discussão sobre os arquivos da ditadura.
Segundo o "Estado", que dedica duas páginas ao assunto, o PT levou ontem para o presidente Lula um dossiê sobre o Araguaia.
Há uma discussão dentro do governo sobre o decreto 4.533, que trata do acesso a documentos e arquivos públicos, que o jornal não está acompanhando.
Lembro que a Folha publicou a primeira reportagem sobre o decreto e que vinha mostrando, sozinha, os absurdos decorrentes da nova legislação.
Agora que o debate se expandiu, o jornal perde a dianteira.
Maluf
O "Estado" está mais bem informado que a Folha, hoje, sobre o caso Maluf.
O jornal antecipa o laudo do Ministério Público sobre as finanças da família e noticia que o ex-prefeito aceita depor na Suíça.
"Cotidiano"
O "Globo" tem um caso interessante: um menino de sete anos responde a acusação formal de agressão por ter brigado com uma colega de escola, em Petrópolis. A denúncia foi feita na delegacia e o garoto vai ter de se apresentar à Promotoria da Infância e da Juventude.
Aviso
Participarei, de amanhã até sexta-feira, de um seminário sobre ombudsman em Lima, Peru, organizado pela Universidad de Piura. Por esta razão não haverá Crítica Interna nestes dias.
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