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04/11/2004
MARCELO BERABA
Folha e "Globo" resumem, em suas manchetes, como entenderam a vitória de Bush. Folha: "Onda conservadora dá vitória completa a Bush". "Globo": "Voto pelo isolamento e onda conservadora reelegem Bush". O "Estado", assim como a maioria dos jornais que vi, prefere um título apenas informativo: "Bush reeleito com votação recorde: 'A América falou'". O "El País", por exemplo, registra que "Bush se converte no presidente mais votado dos Estados Unidos". E o "Guardian" faz suspense: "E agora... mais quatro anos".
As manchetes de outros jornais brasileiros: "Valor": "Bush é reeleito com mais poderes". "JB": Bush recebe missão de unir EUA". "Gazeta Mercantil": "Bush pedirá que os países amigos tomem posições".
Nos jornais de banca: "Extra": "Daqui não saio, daqui ninguém me tira". "O Dia": "Essa guerra Bush venceu". "Diário de S. Paulo": "EUA mantêm Bush no poder".
"O Império vota"
O jornal usou hoje todos os seus recursos disponíveis e fez uma boa edição dos resultados das eleições nos Estados Unidos. Há um volume grande de informações sobre o resultado, a interpretação de que o conservadorismo teve papel importante está bem fundamentada, há bons artigos e análises sobre o que ocorreu e o que poderá ocorrer nos próximos anos, há uma ampla repercussão mundial, há espaço para a agenda Brasil-EUA e há as análises da cobertura dos meios de comunicação. O jornal investiu mobilizando vários jornalistas nos EUA e o resultado é uma edição bem feita, com uma forte base analítica, que é o que se espera dos jornais.
Ao rever, no entanto, a edição do dia da eleição, terça-feira, dia 2, fico com a impressão de que o jornal não contava muito com o fator que agora considera o mais relevante de todos, a ponto de destinar sua manchete, "a onda conservadora". A leitura daquela edição mostra que o jornal considerava que as eleições estariam marcadas, naquele dia, por dois fatores: o medo de fraude e, na influência do resultado, a questão do enfrentamento ao terrorismo.
É verdade que o artigo do Luiz Felipe de Alencastro tocava na questão do conservadorismo ao relacionar, como fato novo na política norte-americana, o remapeamento do voto religioso. É verdade, também, que ao longo da campanha, e do próprio mandato de Bush, o jornal se referiu diversas vezes a este fenômeno. Mas não o havia percebido como capaz de definir a eleição, e sequer o mencionou claramente na edição do dia 2.
Não sei se o jornal está certo em atribuir à "onda conservadora" (ou à "questão moral e religiosa") o fator decisivo nos resultados eleitorais. Não estou contestando, não tenho informações que assegurem uma outra interpretação dos fatos. O que lamento é que o jornal não tenha tido condições de antecipar o fator "conservadorismo" como principal definidor dos resultados eleitorais na sua edição do dia 2. Não sei se algum jornal teve. É apenas um registro.
Acho que faltou à cobertura uma reportagem com análise sobre o aparente fracasso das pesquisas e previsões. O sistema eleitoral dos EUA é muito complexo, como o jornal vinha mostrando, e um artigo sobre as pesquisas (resultados, complexidade, falhas, acertos, vexames, metodologias) seria interessante. Como em todas as eleições, elas foram uma das vedetes.
Detalhes:
A Edição Nacional circulou sem os créditos de Luis Bitencourt, autor do artigo "Bush venceu. E agora?", e de Manuela Carneiro da Cunha, autora de "Metade dos EUA não entende outra metade", ambos na pág. A24.
Não faz sentido editar duas vezes, na "Repercussão" (pág. A25), as mesmas frases de José Saramago (nas duas edições) e de Vargas Llosa (apenas na Ed. Nacional).
Kroll
Fez bem o jornal em noticiar com destaque os desdobramentos do caso Kroll, com duas reportagens, arte e outro lado, na página A12.
Uma observação, no entanto:
A nota da Kroll publicada ontem no "Estado" diz que o relatório obtido pela Folha "não é autêntico" e que "informações foram manipuladas e fontes tendenciosas foram consultadas". Na nota da Brasil Telecom, também publicada ontem na Folha e no "Estado", está dito que "parte de um relatório interno confidencial da Kroll foi roubada desta Companhia, distorcida e adulterada. O jornal Folha de S. Paulo noticiou ter recebido este documento da Telecom Itália".
Embora estes pontos não sejam novos, e já tenham saído em outros informes publicitários e notas das empresas, é conveniente que a Folha, ao retomar o caso por conta das investigações que seguem, os registre. Acho também que deveria informar mais uma vez sobre a procedência ou não destes pontos levantados pela defesa da Kroll e da Brasil Telecom.
O jornal deveria ter feito remissão para a página B7 de "Dinheiro", para a reportagem "Citibank investiga Opportunity no Brasil".
Nuclear
O "Estado" continua mais antenado no acompanhamento da questão nuclear. Informa hoje que "Brasil e AIEA fazem acordo preliminar". Tem também entrevista com o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, "Programa nuclear brasileiro não preocupa EUA".
Evolução da criminalidade em SP
Segundo o "Estado", "Crime cresce e a polícia prende menos" no Estado de S. Paulo. Ainda segundo o jornal, "Números do Estado, divulgados com atraso após segundo turno da eleição, indicam, para especialistas, a necessidade de mudanças".
Não vi na Folha.
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