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10/11/2004
MARCELO BERABA
São parecidas as manchetes da Folha e do "Estado":
"Governo solta verba para conter pressão de parlamentares" (Folha);
"Lula abre cofre para conter crise com aliados" ("Estado").
O "JB" também trata do assunto: "Planalto abre cofre para Congresso".
O "Valor" trata da agenda da equipe econômica para 2005 e 2006: "Palocci planeja corte gradual do crédito dirigido". Segundo o jornal econômico, fazem parte da agenda outras iniciativas "politicamente delicadas", como a autonomia do Banco Central e a desvinculação entre salário mínimo e benefícios da Previdência.
O "Globo" mantém na manchete os desdobramentos da ação da PF contra a "máfia da gasolina": "Empresário da Máfia da Gasolina trabalha na Alerj".
Sob pressão
Acho que falta à Folha, e aos outros jornais também, mostrar para os leitores de que forma eles e o país estão sendo prejudicados com a paralisação dos trabalhos legislativos e com a retenção das verbas previstas nas emendas parlamentares.
O que está para ser votado na Câmara de interesse do país e não entra em votação por causa da birra e do jogo de pressão dos partidos? É relevante o que está sendo postergado? Tanto faz votar ou não votar? O que tem de mais importante a ser votado?
Quanto às emendas, o que interessa saber é se, independentemente das pressões, são importantes ou não para a população. Ou só interessam aos parlamentares que as aprovaram?
A Folha e os outros jornais dão ênfase, acertadamente, nas causas que estão por trás deste jogo de pressão (insatisfação das bases, rescaldo da campanha eleitoral, a polêmica reeleição das Mesas da Câmara e do Senado). Mas a cobertura ficaria completa, e a denúncia mais forte, se o leitor soubesse de que forma esta política rasteira e indecente o afeta.
A propósito da política rasteira, o "Estado" informa que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara recebeu ontem o projeto da reforma política. Não vi na Folha. Embora haja um ceticismo geral em relação à disposição dos partidos e políticos em mudar as regras do jogo político, este é um assunto que permite uma grande discussão sobre que tipo de democracia está sendo construída. É o momento para o debate.
Sob pressão 2
Não entendi, na abertura da reportagem "Lula diz que tem dificuldades para fazer mudanças no país" (A6), a referência explícita à mudança no Ministério da Defesa. O discurso do Lula, pelo que entendi lendo a própria Folha e outros jornais, se referia a dificuldades para fazer mudanças "em qualquer ramo das atividades econômicas" e estava se referindo ao projeto da Ancinav. Pode ser que eu tenha perdido algum detalhe do discurso que permitia ao jornal ligar a referência de Lula ao caso dos militares, mas me pareceu mais uma dedução do jornal.
Oriente Médio
O envio de um jornalista para Ramalah diferencia positivamente a cobertura que a Folha faz da agonia de Arafat e do ambiente político provocado pela expectativa de sua morte.
China
Entrevistas por escrito, por não permitirem questionamentos e complementações, sempre acabam com um tom oficial de release. Mesmo assim, é melhor ter uma entrevista nestas condições com o presidente da China que inicia amanhã viagem ao Brasil do que não ter nada. Pela disposição que o presidente mostrou de responder às questões de forma detalhada, a entrevista ("Presidente chinês vem pedir apoio na OMC", capa de "Dinheiro") acabou sendo interessante.
O jornal vem tratando bem a visita nas últimas edições, mas acho que faltou um texto complementar da correspondente que ajudasse a analisar o sentido da visita e a entrevista do presidente chinês.
O jornal informa que o governo chinês limitou o número de perguntas e pediu a substituição de uma "que não era diretamente relacionada à visita ao Brasil". Que pergunta era essa? Acho que o leitor tinha o direito de saber. É uma informação relevante para se entender as preocupações de Pequim.
"Cotidiano"
É importante que o jornal continue a cobrir bem a transição na Prefeitura e os problemas que o Estado e o município estão tendo, neste final de ano, para honrar seus compromissos financeiros. Mas é importante também que as notícias sejam bem dimensionadas e haja alguma hierarquia.
O jornal informou ontem que a Prefeitura tinha atrasado o pagamento de R$2,4 milhões com obras. Registrou também outros atrasos de valores semelhantes. E estes registros mereceram, com razão, a capa do caderno ("Mareta atrasa os pagamentos em 70 dias").
Hoje, o jornal informa que os atrasos do governo do Estado com obras são de 4 meses (os da Prefeitura eram de 70 dias) e no valor de R$ 70 milhões, portanto várias vezes os valores de atraso da Prefeitura. E o registro jornalístico ("Alckmin atrasa pagamentos em 4 meses") não mereceu o mesmo tratamento. Foi editado na pág. C3, e a capa ficou, mais uma vez, para um atraso da Prefeitura ("Contrato acaba e SP reduz frota de guinchos").
Insisto pela milésima vez: acho corretíssimo o trabalho de fiscalização que o jornal faz em relação à Prefeitura de SP, e que deveria ser feito por todos os jornais em relação aos municípios onde têm base física. Este acompanhamento com lupa é indispensável e é uma das funções dos jornais. Mas, no caso da Folha, o governo do Estado deve ter tratamento semelhante. Até porque, como mostra a reportagem "Estado e cidade de SP detêm 80% do estoura da dívida" (A7), a situação das finanças estaduais é muito complicada.
Não é possível, sob o ponto de vista estritamente jornalístico, que uma dívida de poucos milhões e um atraso de 70 dias possam ter mais importância do que uma dívida de muitos milhões e um atraso de 120 dias. Há algo errado.
O mesmo cuidado o jornal deve ter para não acabar dando importância demasiada para questões menores da transição. Não tem importância nenhuma o governo municipal (e não o PT, como está no título "PT demora 19h para confirmar que recebeu pedido da equipe do PSDB", também na capa de "Cotidiano") demorar 19 horas para responder um ofício. É o detalhe do detalhe, sem repercussão prática para a transição e para os paulistanos. Valia no máximo um registro na reportagem ou uma nota do jornal, não um título.
Educação
Está bom o relato do debate sobre universidade editado na pág. C8 ("Inclusão social restringe debate sobre ensino"). Os participantes assumem posições corajosas num debate delicado.
Mas não encontrei na Folha a cobertura sobre a reunião da Unesco em Brasília sobre educação no mundo.
Violência
Também não encontrei nada sobre a pesquisa da USP, com dados do SUS, sobre violência publicada pelo "Globo".
Ilustrada
Está ótima a entrevista com Manoel de Barros, "Retrato do artista quando coisa" (E4).
A crítica interna é de responsabilidade do ombudsman Marcelo Beraba. Circula diariamente na Redação da Folha e na Empresa Folha da Manhã S/A
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