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12/11/2004

MARCELO BERABA

Como os principais jornais brasileiros sintetizaram a cobertura da morte de Iasser Arafat:

Folha - "Morre Arafat, ícone palestino";

"Estado" - "Morto Arafat, Abbas assume. E quer eleição" (edição das 20h55) e "Sucessor de Arafat pode ser eleito em 60 dias" (edição de 0h15);

"Globo" - "Morte de Arafat mergulha o Oriente Médio na incerteza";

"Valor" - "Nova etapa de incertezas com o fim de Arafat";

"JB" - "Morte de Arafat move xadrez político do Oriente Médio";

"Correio Braziliense" - "Como fica o mundo sem Arafat";

"Zero Hora" - "O futuro do Oriente Médio depois de Arafat".

Arafat

A Folha faz uma cobertura extensa, bem planejada e equilibrada da morte de Iasser Arafat.

O caderno "Palestina órfã" está bem editado, com análises e artigos que mostram as diversas faces do líder palestino. Destaco os relatos e entrevistas colhidos em Ramallah e Tel Aviv, as artes das páginas centrais com a biografia de Arafat e a evolução do conflito no Oriente Médio, e os artigos, análises e entrevistas que ajudam a entender o momento da região. O artigo "Um relicário palestino" é um presente para os leitores.

A vantagem que a Folha vinha levando na cobertura, com relatos diretos de Ramallah, deixa de existir na edição de hoje: o "Estado" também enviou seu jornalista para a cidade palestina. Este é um diferencial importante dos dois jornais, que investem em informações próprias e que escapam, assim, dos relatos das agências estrangeiras de notícias. Tanto nas eleições nos EUA como agora a Folha demonstra a disposição de ter informações exclusivas e enfoques diferenciados.

São ruins as manchetes da primeira página do "Estado". Na da edição das 20h55, "Morto Arafat, Abbas assume. E quer eleição", há uma precipitação (a idéia de que Abbas já é o sucessor de Arafat) e uma imprecisão (a eleição em 60 dias está prevista nas leis palestinas; se irá ocorrer ou não é outro problema). E a manchete definitiva, "Sucessor de Arafat pode ser eleito em 60 dias", não quer dizer nada. O "pode" liquida com a informação.

O "Estado" tem alterações curiosas entre as duas edições. Na que começa a circular, a biografia de Arafat é escrita por Michael Binyon ("The Times") e tem um título negativo para o líder morto: "Um estadista fracassado - Arafat foi um administrador fraco e incapaz de abandonar a ameaça de retomar a violência". Este artigo é substituído na edição final do jornal por um de Judith Miller ("The New York Times") com um título mais indulgente: "O pai do nacionalismo palestino - Arafat era visto como herói romântico, mas seu brilho e reputação foram se apagando com passar do tempo".

Substituíram, também, na segunda edição, um artigo do israelense David Grossman ("Arafat moldou a nação e lhe impôs a tragédia") por um do professor de origem libanesa Fawaz Gerges ("Eleição pode revelar novas lideranças").

O "Estado" dá destaque para o mistério em torno da doença e morte de Arafat (a Folha também trata do assunto, mas sem título; o "Globo" especula que pode ser púrpura idiopática); para os recursos financeiros que sustentam a OLP e as denúncias de corrupção; e para o casamento de Suha e Arafat. São aspectos da cobertura que mereciam a atenção da Folha.

Detalhes:

> O jornal informa, na primeira página da Edição Nacional, que Arafat foi confinado em Ramallah por Israel desde 2001; o texto interno e a Edição SP informam que foi desde 2002.

Incompreensível a legenda para uma das fotos da página A20 da Edição Nacional, "Cadeira vazia designada ao líder palestino em missa de Natal". Missa? Natal? Onde? Quando?

A entrevista, interessante, com o filósofo Tariq Ramadan ("Líder cometeu erros políticos, diz filósofo", A20), usa o verbo renunciar de uma forma que não deixa claro do que se trata, como no caso "Os estados árabes renunciaram, assim como a comunidade internacional". Renunciaram a quê? Imagino que seja no sentido de terem desistido de apoiar a posição de Arafat.

Redundantes as duas frases que formam o primeiro parágrafo de "Arafat se encontrou com Lula e FHC", pág. A22.

O "Estado" tem uma foto aérea da Muqata e seu entorno (pág. H2) que passa uma idéia mais precisa e detalhada do QG de Arafat do que a arte que a Folha vem publicando (hoje na A14).

Outras notícias

A morte de Arafat e o espaço que ocupou na primeira página do jornal (justificado) ofuscaram algumas reportagens e entrevistas que merecem repercussão e continuidade:

- Está ótimo o relato do filme "Entreatos", "Filme revela bastidores da campanha de Lula" (A8);

- Não é exclusiva (vi no "Globo" também), mas importante, e terá desdobramentos, a decisão do juiz de Taubaté, "Juiz manda abrir os arquivos da ditadura" (A6);

- São fortes os termos que o presidente do BNDES usa contra o presidente do Banco Central em "Gestão de Meirelles é 'pesadelo', diz Lessa" (B4). Deve dar crise, mais uma.

Agenda da transição

Recebi do editor de Cotidiano, Rogério Gentile, via Secretaria de Redação, objeções à nota "Cotidiano" da Crítica Interna de quarta-feira:

Em atenção às considerações sobre a edição de 10 de novembro do Cotidiano, gostaria de expressar minha profunda divergência. Realmente, as notícias sobre os atrasos nos pagamentos do município e do Estado receberam tratamento editorial diferentes. Mas por um motivo simples e estritamente jornalístico: são de relevâncias diferentes. Tanto dos pontos de vista simbólico (Marta está deixando o cargo para o sucessor, o que não é o caso de Alckmin) e legal (a prefeita em tese pode ser responsabilizada pela Lei de Responsabilidade Fiscal, o que não é o caso do governador agora), como prático (os atrasos na prefeitura, diferentemente do Estado, fazem parte de um contexto no qual a administração da cidade está reduzindo serviços que afetam diretamente a população, vide os casos da varrição e do guinchamento). Além do mais, é necessário notar que os valores que respaldaram a crítica do ombudsman não podem ser comparados diretamente. No caso do Estado, a reportagem obteve o montante e a média de dias em atraso. No do município, em razão de um silêncio nada transparente da prefeitura, não foi possível publicar o total dos desembolsos em atraso, embora o Sistema de Execução Orçamentária tenha apontado, no dia 31 de outubro, que era de R$ 480 milhões a diferença entre o total de despesas autorizadas e o efetivamente pago. Mas, como a Prefeitura nega qualquer problema de caixa, só é possível comprovar o atraso quando o pagamento é lançado no sistema. Por isso, tivemos de recorrer a despesas feitas em determinados dias, das quais publicamos apenas alguns exemplos, para poder relatar que a prefeitura as tem feito com atrasos médios de 70 dias.

Reli as reportagens que critiquei. Sem entrar no mérito de informações que o editor agora nos fornece, mas que não estavam nas reportagens, continuo com a mesma impressão: há algo de errado na forma como foram tratados os casos de atrasos de pagamentos do Estado e da Prefeitura.

     
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