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16/11/2004
MARCELO BERABA
Folha e "Estado" chamam a atenção, com igual enfoque, para a troca de comando no Departamento de Estado dos EUA. Folha: "Powell, da ala moderada, deixa o governo dos EUA". "Estado": "Powell, o moderado, renuncia".
A intervenção no Banco Santos, as vaias e agressões que Lula recebeu em Maceió, a renúncia do presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, Iraque e as negociações para as eleições na Palestina são os outros assuntos comuns às primeiras páginas dos dois jornais.
Outras manchetes:
"Globo" - "Burocracia eleva preços de imóvel em até 425%";
"Valor" - "Previsões de investimentos no país são superestimadas";
"JB" - "Acordos com a China chegam a R$ 2,3 bi".
"Diário de S. Paulo" - "Quadrilhas fazem arrastão em prédios da Zona Leste".
Banco Santos
A Folha iniciou bem a cobertura da intervenção do Banco Central no Banco Santos. Embora não seja um banco de varejo, a notícia tem relevância por duas razões: a própria intervenção em si, sempre traumática; e a história de seu controlador, Edemar Cid Ferreira, conhecido mecenas, uma das grandes fortunas de São Paulo, e influente amigo de políticos de peso. Há uma terceira razão, menor, surgida posteriormente: o PT é correntista do banco sob intervenção.
A decisão do BC foi anunciada na sexta depois das 21h. A Folha é o único dos três grandes jornais que dá ao fato o destaque que merece na edição de sábado: muda a manchete do jornal (que começara a rodar com "Multidão toma conta do enterro de Arafat") para "BC decide intervir no Banco de Santos" e dá, internamente, bom espaço para a cobertura, bem mais do que o "Estado" e o "Globo".
O assunto continua bem coberto na edição de domingo ("Banco Santos só volta a operar com R$ 700 mi"), em Brasil. "Globo" e "Estado" também cobrem com destaque e com o mesmo enfoque: o banco precisa de R$ 700 milhões para reabrir.
Mas a Folha ignora o assunto na edição de ontem, segunda. É estranho, porque é exatamente a edição semanal voltada para investimentos e inclui o que sobrou do antigo caderno "FolhaInvest".
Era de se supor que pudesse conter algum tipo de informação ou orientação para os que têm investimentos nos fundos administrados pelo banco e pela corretora sob intervenção. Aliás, alguns destes fundos estão relacionados na página B6 com um título de prestação de serviço: "Acompanhe seus fundos".
Se bem entendi a tabela, alguns fundos do Santos estavam entre os mais rentáveis do ano, e pelo menos um trazia as cinco estrelas que indicam baixíssimo risco.
O verdadeiro serviço que o jornal poderia ter prestado era informar o que poderá acontecer com os recursos destes investidores. Os cotistas correm risco? Todo mundo que tinha dinheiro nestes fundos perdeu? Pelo que soube, a administradora dos recursos destes fundos, a Santos Asset Management, não sofreu intervenção. Isso muda alguma coisa? A instituição responsável pela fiscalização dos fundos é a CVM, e não o BC. Por que não foi ouvida? Isto tudo é serviço que deveria ter sido explorado na edição da semana voltada para investimentos. Interessa não apenas aos que têm grana nos fundos do Banco Santos e sua corretora, mas a todos que têm investimentos e que querem saber o que pode acontecer numa situação como esta.
Na edição de hoje, terça, o jornal volta a tratar bem da intervenção ("Banco Santos tenta a venda da instituição", capa e páginas seguintes), tem uma arte para entendê-la (capa), mas não trata dos cotistas de fundos de investimentos, apenas dos correntistas. Não era o caso de explicar?
Nesta mesma edição de hoje o jornal fala que o banco operava com um patrimônio negativo de R$ 100 milhões. O que é patrimônio negativo ou patrimônio líquido negativo? Não deveria estar explicado para o leitor que desconhece a terminologia especializada mas tem interesse em entender o que ocorreu?
Ainda na edição de hoje, o resumo da reportagem do Financial Times ("Banco Central emite alerta ao mercado", pág. B2) informa que chegam a cerca de R$ 1,2 bilhão os ativos dos 50 maiores bancos do Brasil. O valor está correto? É isso mesmo, em reais? Não seria dólar? E não é pouco?
Reforma política
Agiu bem a Folha ao dar destaque, na primeira página, à campanha lançada ontem pela OAB pela aprovação do projeto de lei dos referendos e plebiscitos. A renúncia do presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, anunciada na cerimônia, tirou um pouco o peso do lançamento da campanha. Mas ela é importante e deve ser discutida.
A reforma política está na ordem do dia. É provável que o Congresso e os partidos façam de tudo, mais uma vez, para postergá-la e não incluam na agenda parlamentar. Mesmo assim, o jornal deveria provocar discussões. Na edição de segunda, dois artigos apontam caminhos para esta discussão: o de Fábio Konder Comparato, "Viva o povo brasileiro", sobre a campanha lançada ontem e noticiada hoje, e o de Fernando Rodrigues, "Pequenos partidos, grandes negócios". O jornal deveria eleger este assunto como prioritário de sua agenda, independentemente da prioridade que o Congresso acenará. Reportagens, repercussões, artigos _ o jornal tem condições de impor o tema, relevante para a sociedade, independentemente da disposição dos políticos e dos partidos em discuti-lo.
Ecos do regime
A Folha apenas noticia a indicação do novo presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, Augustino Pedro Veit. O "Globo" já traz uma entrevista com ele, que já sai com declarações polêmicas: "Advogado que vai presidir comissão condena lei sobre sigilo de documentos".
Segurança
A Folha apenas relata os dois assaltos ocorridos na madrugada de ontem na zona leste de São Paulo, "SP tem dois assaltos a prédios de alto padrão" (capa). Como as invasões e assaltos a domicílio se tornaram freqüentes em SP e viraram uma espécie de marca da cidade, como os seqüestros, era de se supor que o jornal fizesse alguma forma de investimento no assunto. No mínimo, a reprodução das estatísticas sobre este tipo de criminalidade. Aparentemente, tem crescido. Por que? O que têm a dizer os especialistas? E o governo do Estado? Não há policiamento naquela região? O assunto foi mal explorado, ficou apenas no relato, um boletim de ocorrência.
Está bem feita a reportagem da página seguinte da Edição SP, "Polícia demora, e favela vive 6h de arrastão". A polícia não funcionou nem no caso dos apartamentos de classe média da zona leste nem na favela Elba. Mas, no caso da favela, alertada, se omitiu, segundo o relato do jornal. Um escândalo.
Tardias
A Folha tem, na edição de sábado, o melhor relato do enterro de Iasser Arafat em Ramallah. A cobertura na cidade palestina marca um bom momento do jornal. É uma cobertura completa, que consegue juntar informações, personagens, vida, emoções e análises.
O jornal fez um grande investimento, no domingo, na "Herança militar". Mas espalhou as reportagens (que correm pelas páginas A4, A6, A11, A12, A13, A15) sem qualquer preocupação em amarrá-las, de mostrar nexo entre elas. Não há uma consolidação, nem mesmo na primeira página. Demonstra falta de cuidado na edição.
A crítica interna é de responsabilidade do ombudsman Marcelo Beraba. Circula diariamente na Redação da Folha e na Empresa Folha da Manhã S/A
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