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19/11/2004

MARCELO BERABA

A Folha opta por uma manchete que apenas repete o que os telejornais, as rádios e os sites noticiosos já haviam informado ontem: "Lessa sai e Mantega assume o BNDES".

Os concorrentes ofereceram aos seus leitores mais informações:

"Estado" - "Queda de Lessa reforça Palocci e Banco Central";

"Globo" - "Lula demite Lessa, fortalece Palocci e vai mudar Ministério";

Mesmo os jornais regionais ousaram mais:

"Correio Braziliense" - "Saída de Lessa acelera a reforma ministerial";

"Zero Hora" - "Lula troca comando no BNDES e reforça política de Palocci";

"Estado de Minas" - "Queda de Lessa acelera mudanças no governo".

Curiosamente, se alinham com a manchete "conservadora" da Folha os jornais econômicos, como "Valor" ("Lula demite Carlos Lessa e põe Mantega no BNDES") e "Gazeta Mercantil" ("Lessa deixa o BNDES; Mantega assume segunda").

A manchete

É claro que se o jornal não tem informação nova sobre a substituição do presidente do BNDES, fato conhecido de todos desde a tarde de ontem, não deve inventar uma manchete, e o melhor, neste caso, é se ater a informações que considera seguras. Mas é de esperar que um jornal como a Folha tenha informações novas, informações dos bastidores da operação e do futuro do governo, que lhe permitam brindar seus leitores com algo mais do que já haviam recebido ontem via TV, rádio ou Internet.

A manchete de ontem, "BC eleva os juros pelo 3º mês seguido", também foi um mero registro do fato da véspera.

Não basto o jornal repetir os fatos. Ele tem de expressar, na sua manchete, algo a mais, uma informação ou interpretação que só ele tenha. É isso que valoriza o jornal. Não estamos falando de inventar ou "chutar", mas de estar bem informado, e sinalizar isso para o leitor já na manchete.

A manchete da capa de "Dinheiro" repete a repetição da capa do jornal: "Lessa é demitido do BNDES; Mantega assume".

Primeira página

Não dá para entender por que o jornal dá mais destaque na primeira página da Edição Nacional do que na Edição SP a uma notícia que interessa aos paulistas: "TCE vê falhas em gestão hospitalar". A chamada nacional informa que o TCE vê problemas no modelo adotado pelo governo do Estado em 16 hospitais e que o prefeito eleito da cidade pretende adotar o mesmo modelo. A Edição SP, que é destinada a seus leitores na Capital, tem um texto telegráfico.

"Vitória ortodoxa"

Excluindo a formulação da manchete, o jornal deu ao episódio da substituição de Carlos Lessa no BNDES a atenção que merecia. Não foi uma mera queda de um presidente de um órgão do terceiro escalão do governo, mas uma solução momentânea para um enfrentamento entre políticas. O jornal deu espaço para o noticiário, trouxe artigos e entrevistas analíticas, vários colunistas se manifestaram e publicou um editorial ("Mudança no BNDES").

Fez bem o jornal em usar o mesmo chapéu, "Vitória ortodoxa", ao longo do noticiário político referente aos problemas que o governo petista enfrenta em várias frentes (caderno "Brasil") e do noticiário econômico referente à saída de Lessa ("Dinheiro"). Acho, no entanto, mais uma vez, que faltou ao caderno "Brasil" um texto de amarração, que ajudasse o leitor a juntar as peças deste quebra-cabeça.

A Folha apenas menciona a nova crise que se instalou no Ministério do Desenvolvimento Social ("Amigos de esquerda de Lula decidem abandonar o governo", A4 da Ed. SP e A5 da Ed. Nac.). O "Estado" trata melhor o assunto ao destacá-lo de outras notícias de crises do governo: "Disputa alimenta crise na área social".

A Folha sustenta, na Edição SP, que a "saída de Lessa do BNDES pode reanimar tese da reeleição" dos presidentes da Câmara e do Senado (A7). "Estado" e "Globo", no entanto, reconstituem com mais detalhes que a Folha o jantar do presidente Lula com os presidentes das duas casas legislativas, anteontem, e a frase do deputado João Paulo: "A reeleição está enterrada". A conferir.

Mapa

É quase inútil o mapa da capa de "Mundo" que ilustra a reportagem "Israelenses matam 3 egípcios na fronteira". O que interessa ver é o detalhe do local onde ocorreram as mortes, e não apenas a localização da faixa de Gaza.

     
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